29/06/2022
 
 
Legislativas. Uma dupla para a história e o adeus à geringonça

Legislativas. Uma dupla para a história e o adeus à geringonça

Nascer do SOL Mário Ramires 05/02/2022 12:18

Nem só António Costa, André Ventura, Cotrim Figueiredo e Rui Tavares sairam vencedores da última noite eleitoral. O Presidente Marcelo, que para muitos perdeu, também ganhou, porque Portugal não ficou ingovernável, antes pelo contrário. E houve outros ganhadores.

Marcelo Rebelo de Sousa

É um facto que a maioria absoluta de António Costa retira margem de manobra e diminui a capacidade de intervenção do Presidente da República. Mas as alternativas que chegaram a desenhar-se como cenários possíveis saídos das urnas de 30 de janeiro poderiam deixar Marcelo Rebelo de Sousa numa condição bem mais delicada. Por um lado, é público e notório que Marcelo nunca morreu de amores por Rui Rio – logo, a derrota deste seria sempre uma vitória daquele –; por outro lado, um cenário de ingovernabilidade acabaria sempre por ser também da sua responsabilidade, uma vez que foi ele quem convocou eleições antecipadas. Tal como todas as vezes que a Assembleia da República foi dissolvida deram razão aos seus antecessores (Ramalho Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio e Cavaco Silva), também agora o eleitorado deu razão ao Presidente para convocar eleições, escolhendo enterrar o ciclo da ‘geringonça’ e dar condições ao PS para governar mais ao centro. Marcelo volta a poder ser o Presidente dos afetos e sabe que será em Belém que residirá o contrapeso ao poder de Costa. Mas, para a história, e se tudo correr sem grandes sobressaltos daqui para a frente, os seus 10 anos em Belém ficaram marcados por outros tantos de António Costa em S. Bento. Já o contrário não será verdade (dependerá do que Costa ainda fizer ou for capaz de fazer). E Marcelo entra e sai de Belém com o PS no Governo, sem ter sido o partido mais votado, tendo sido o mais votado mas com um Governo minoritário e, finalmente, tendo a segunda maioria absoluta da sua história, ao fim de seis longos e desgastantes anos no poder.

Duarte Cordeiro 

O diretor de campanha do PS foi um dos poucos nomes que António Costa referiu no seu discurso de vitória. A par do da sua mulher, Fernanda, e do do presidente do partido, Carlos César. Secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares e um dos homens fortes da ala liderada por Pedro Nuno Santos, vai com toda a certeza a ministro e reforça a condição de potencial candidato, ele próprio, a secretário-geral do partido no médio prazo. Até porque essa questão, no curto prazo, deixou definitivamente de fazer parte da agenda socialista.

José Luís Carneiro

O secretário-geral adjunto reforçou a sua influência no PS e no núcleo duro de António Costa com a vitória esmagadora do PS no distrito de Braga, onde foi cabeça de lista. Além de ter eleito mais um deputado por aquele círculo (elegendo 9 deputados no distrito), o PS somou mais 40 mil votos (mais 6% do que em 2019) e conquistou mais três concelhos: Amares, Póvoa de Lanhoso e Celorico de Basto (a terra da Avó Joaquina, de Marcelo).

João Azevedo

O distrito que desde os anos 80 ficou conhecido como ‘cavaquistão’ – por ser território onde os socialistas levavam enormes cabazadas dos sociais-democratas – foi ganho pelo PS (feito só alcançado por Sócrates em 2005) e, tal como Leiria, deixou de destoar no mapa integralmente cor-de-rosa do território continental. Muito por influência de um dos delfins de Jorge Coelho e antigo presidente da Câmara de Mangualde, que também já foi candidato à Câmara de Viseu nas últimas autárquicas e que está em franca ascensão no partido: João Azevedo.

Miguel Albuquerque

A Madeira, cujo Governo Regional lidera, passou a ser o último bastião do PSD em todo o território nacional e, como assim, o único círculo eleitoral não pintado de cor-de-rosa. É mais um feito para Miguel Albuquerque, que não só soube resistir nas últimas eleições regionais à investida do PSliderado pelo até então independente Paulo Cafôfo, como conseguiu recuperar para o PSD a Câmara do Funchal nas autárquicas de setembro passado. Está, por isso, muito longe do fim político que lhe chegaram a augurar.

Luís Montenegro

À partida, é o candidato que reúne maior consenso para suceder a Rui Rio e federar as diferentes sensibilidades no interior do PSD. Mas o caminho, para ele como para qualquer outro, não será fácil. Basta lembrar que a última vez que o PS teve maioria absoluta, o PSD passou por três líderes antes daquele que conseguiu afirmar-se como alternativa.

Se Rio foi um dos grandes perdedores e o CDS ficou à beira da extinção, PCP e BE sofreram castigos pesados. Por isso, Pedro Nuno Santos, como principal defensor da ‘geringonça’, também foi um dos principais derrotados.

Pedro Nuno Santos

Ficaram gravadas para memória futura as imagens de Pedro Nuno Santos a sair da bancada do Governo e a ir cumprimentar Jerónimo de Sousa e Catarina Martins mal acabou a sessão parlamentar em que as bancadas do PCP e do BE se juntaram às do PSD, CDS, IL e Chega para chumbar a proposta de Orçamento do Estado para 2022 – conduzindo à pré-anunciada dissolução do Parlamento e convocação de eleições antecipadas. E, a partir desse momento, com António Costa a afastar a possibilidade de ele próprio liderar uma nova ‘geringonça’ – para mais sendo manifesta a incompatibilidade com a coordenadora bloquista –, imediatamente ganhou forma o cenário de uma eventual solução governativa sob a liderança do ainda ministro das Infraestruturas. Líder da ala mais à esquerda do PS e assumido candidato à sucessão de António Costa, Pedro Nuno Santos foi um dos responsáveis pelo êxito da ‘geringonça’ na legislatura anterior e continuou sempre, e até hoje, a ser o principal defensor daquela solução de Governo. É nessa perspetiva que a maioria absoluta de António Costa também representa uma derrota para Pedro Nuno. A ‘geringonça’ como solução de Governo foi morta e enterrada pelo eleitorado e o processo de sucessão no PS ficou adiado para as calendas. Costa tinha razão quando naquele Congresso em que Pedro Nuno galvanizou os socialistas se apressou a avisá-lo (e a quem mais o quis ouvir) de que estava ainda muito longe de meter os papéis para a reforma.  

João Oliveira

O PCP levou um enorme banho de água gelada no domingo passado. Passou a sexta força política nacional, embora quinta no hemiciclo parlamentar, ficou sem alguns dos seus representantes históricos, como António Filipe – que não foi reeleito pelo círculo de Santarém, perdendo o mandato para o cabeça de lista do Chega –, e nem o seu líder parlamentar e putativo candidato à sucessão de Jerónimo de Sousa vai ter assento no hemiciclo – uma vez que a CDU ficou atrás do PS e do PSD no distrito de Évora, onde os comunistas tinham como cabeça-de-lista João Oliveira. O processo interno de análise da hecatombe eleitoral do PCP ainda agora começou e obedece a um conjunto de procedimentos incomum aos outros partidos. João Oliveira não ficou apenas mais longe do Parlamento, também perdeu terreno na corrida interna.

Joacine Katar Moreira

Não, não é MENTIRA, como gritava a agora ex-deputada. O Livre conseguiu eleger um deputado à Assembleia da República e, desta vez, espera-se que Rui Tavares não faça o que fez ao BEquando (em  2009) foi eleito para Bruxelas nem o mesmo que Joacine Katar Moreira fez ao Livre quando foi eleita há dois anos para o Parlamento. Um e outro romperam com o partido pelo qual foram eleitos e mantiveram-se nos seus lugares até ao fim. Mas se Rui Tavares esteve cinco anos no Parlamento Europeu, Joacine Katar Moreira não foi além de dois como deputada. E acabou a apoiar um movimento sem qualquer expressão eleitoral. Foi vítima de si própria.

Paulo Ralha

O sindicalista que passou do Bloco de Esquerda para cabeça de lista do Chega ficou longe de ser eleito deputado pelo círculo de Coimbra. Mas, ainda assim, o partido liderado pelo seu amigo pessoal André Ventura foi o terceiro mais votado na cidade dos estudantes. Apesar de BE e Chega terem em comum o facto de serem ambos partidos de protesto à data em que neles militou (e, por isso, até se identificarem com o seu apelido), Ralha não se livra de ter ficado como o ‘Rolha’ destas legislativas.

Paulo Mota Pinto

Na eventualidade de uma maioria parlamentar de direita, o presidente da mesa do Congresso do PSD de Rui Rio era apontado como candidato natural a suceder a Eduardo Ferro Rodrigues na presidência da Assembleia da República. Com a esmagadora vitória socialista, tirou daí o cavalinho da chuva, porque a segunda figura do Estado vai continuar a ser do PS. Seja o ainda ministro dos Negócios Estrangeiros que já tantas vezes disse a António Costa que não quer continuar no Governo, Augusto Santos Silva, seja a mais antiga seguidora dos sucessivos secretários-gerais socialistas, Edite Estrela.

Zé Albino

Entrou na campanha pelo twitter do seu dono, que acabou atropelado nas urnas e não teve o privilégio de o ter acompanhado à assembleia de voto ao contrário dos cães do vencedor. E acabou por ver o partido defensor dos animais reduzido a uma única deputada.

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