07/07/2022
 
 
Covid-19. Pico de contágios nas crianças já terá passado e diagnósticos estabilizam

Covid-19. Pico de contágios nas crianças já terá passado e diagnósticos estabilizam

Patrícia de Melo Moreira Marta F. Reis 01/02/2022 08:42

Pico de contágios nas crianças até aos nove anos parece já ter sido atingido e incidência começou a baixar nos últimos dias. Foram o grupo etário com mais diagnósticos em janeiro: cerca de 20% testaram positivo para a covid-19 num mês. Camadas mais jovens até aos 50 anos de idade têm representado mais de 80% dos diagnósticos no país.

O pico de contágios nas crianças até aos nove anos, o grupo etário onde se registou o maior aumento de diagnósticos de covid-19 nas últimas semanas, parece já ter sido atingido, com os novos diagnósticos a estabilizar na restante população, sinais do que o momento de maior intensidade na atual vaga de infeções associada à variante inicial da Omicron pode estar a passar.

Os diagnósticos nos mais novos começaram a diminuir no final da semana passada, confirma ao i Óscar Felgueiras, matemático especialista em epidemiologia da Universidade do Porto, que vê nesta evolução indícios de que o pico de infeções pode já ter sido ultrapassado nas crianças, havendo agora a expectativa de que possa estender-se aos restantes grupos etários. Continuam a ser diagnosticados milhares de novos casos de covid-19 por dia mas a tendência, que até aqui era de um aumento contínuo de pessoas isoladas em casa, com muitas escolas com turmas desfalcadas, pode inverter-se já neste início de fevereiro.

“As crianças têm sido o grupo etário mais atingido recentemente, tendo funcionado como foco no impulso de crescimento ocorrido a partir da reabertura das escolas”, explica ao i o investigador, que integra os grupos de trabalho que dão apoio técnico ao Governo na monitorização da pandemia. “O facto de se identificar por esta altura um pico neste grupo é significativo, pois é de esperar que a tendência de descida se alastre às outras faixas etárias”, salienta Óscar Felgueiras.

Estamos a falar, nos últimos quatro dias, de uma descida de 7% na incidência cumulativa semanal nas crianças, depois de este grupo etário ter batido todos recordes de incidência de casos confirmados de covid-19 no país desde o início da pandemia, superando-se, num só dia, os 1300 novos casos por 100 mil habitantes nesta faixa etária.

Números incomparáveis com o que se viveu em vagas anteriores, em que usava por exemplo como referência de linha ‘vermelha’ os 240 casos por 100 mil habitantes mas ao longo de 14 dias e não apenas num dia. A nível nacional, o país regista agora uma incidência a 14 dias superior a 7 mil casos por 100 mil habitantes, com a incidência nos mais jovens a puxar para cima estes indicadores. Nos adolescentes dos 10 aos 19 anos também foi ultrapassada a barreira dos mil novos casos por 100 mil habitantes num só dia, mas não se verificou uma incidência tão elevada como nas crianças. E os diagnósticos dão também sinais de estabilização.

Um quinto das crianças testaram positivo em janeiro

Analisando os dados desagregados de novos casos de covid-19 por faixa etária, divulgados pela DGS, é possível concluir que as crianças mais pequenas terão sido o grupo etário mais exposto ao vírus em janeiro, com cerca de 20% das 840 mil crianças portuguesas até aos 9 anos a receber um teste positivo para a covid-19 no último mês. Há que fazer a ressalva de que, além dos casos confirmados, estima-se que possam existir outros que passem despercebidos por não terem sido confirmados com testes de antigénio ou PCR ou por não ter havido sintomas, pelo que a exposição ao vírus será superior. 

A análise feita pelo i cruzando a informação disponibilizada pela DGS com a população residente em Portugal por faixa etária nos últimos Censos mostra que se seguiram, em termos de casos confirmados de covid-19, os adolescentes: 17,5% dos jovens entre os 10 e os 19 anos testaram positivo para a covid-19 em janeiro, faltando apenas contabilizar o último dia do mês.

Nestes dois grupos etários, o total de diagnósticos em janeiro superou mesmo o balanço de toda a pandemia, o que não acontece com mais nenhuma faixa etária. Ao todo somaram-se 324 mil novos casos nestes grupos etários, um terço dos mais de 1,2 milhões de testes positivos para a covid-19 em janeiro, quando até dezembro de 2021 tinham sido contabilizados cerca de 250 mil.

Nos grupos etários dos 20 anos, cerca de 16% dos jovens portugueses tiveram um teste positivo para a covid-19 em janeiro, percentagem que foi de 17% no grupo etário dos 30 anos. Na faixa etária dos 40 anos, baixa para 14,7% a proporção dos que tiveram diagnóstico de covid-19 confirmado. E é acima dos 50 anos que se nota uma menor exposição ao vírus durante o mês de janeiro, mais marcada nos mais velhos, que iniciaram no ano passado o reforço da vacina.

Entre os cerca de 1,5 milhões de portugueses entre 50 e os 59 anos, apenas 9,2% testaram positivo para a covid-19 em janeiro. Na faixa etária dos 60 anos, a proporção de infetados em janeiro cai para os 5,2% e tanto nos maiores de 70 como nos maiores de 80 anos é possível concluir que menos de 4% dos idosos portugueses testou positivo para a covid-19 no último mês. 

Uma maior exposição dos mais novos à atual vaga de infeções que já ficava bem patente nos balanços das últimas semanas, em que mais de 80% dos novos casos reportados diariamente pela Direção Geral da Saúde têm sido diagnosticados em pessoas até aos 50 anos de idade.

Se as infeções vão permanecer agora num “planalto” dada a intensa circulação do vírus ou baixar significativamente como aconteceu por exemplo na África do Sul, é uma das incógnitas, a que acresce o facto de estar a circular na Europa, e também em Portugal, uma segunda variante da Omicron (BA.2) em que há indícios de que pode haver risco de reinfeção mesmo em quem tenha tido covid-19 há pouco tempo. Por outro lado, mesmo com uma menor exposição que os jovens, o aumento de casos na população mais velha nas últimas semanas, em maior risco, leva também a um aumento da mortalidade associada à doença.

Cinco vezes menos doentes em UCI

O i tentou perceber junto da Direção Geral de Saúde e do INSA se existem indicadores sobre reinfeção, não tendo obtido resposta. Em termos de gravidade, mantém-se até aqui muito menor do que há um ano.

Óscar Felgueiras salienta que, atualmente, com o número de doentes com covid-19 em cuidados intensivos estável, o risco de sobrecarga no SNS “está controlado”. Há um ano, registava-se um nível de mortalidade sem precedentes nos últimos 100 anos, com mais de 700 óbitos diários, quase metade associados à covid-19, e o país estava de novo confinado. Nos hospitais, havia então quase 7 mil doentes hospitalizados com covid-19, 858 em UCI.

O pico de doentes em estado crítico nos hospitais, também sem precedentes, seria atingido no início de fevereiro, com 904 doentes com covid-19 em cuidados intensivos e mais de 1300 doentes em UCI no total tendo em conta outras doenças, mais do dobro do que era a capacidade de cuidados intensivos no país no início da pandemia, cerca de 620 camas.

Atualmente estão internados nos hospitais 2469 doentes positivos para a covid-19, uma parte significativa por outras causas, dos quais 160 em UCI. Apesar do impacto menor, a mortalidade associada à covid-19 aumentou nas últimas semanas, representando atualmente cerca de 10% das cerca de 380 mortes diárias no país, consideradas dentro do esperado para esta época do ano. 

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