24/05/2022
 
 
Maria Ondina Braga: um centenário inesperado

Maria Ondina Braga: um centenário inesperado

Teresa Carvalho 26/01/2022 15:38

Teria Maria Ondina Braga mentido, ano após ano, sobre a sua verdadeira idade, aproveitando-se de um velho engano da Enciclopédia Verbo, que no verbete respectivo lhe retira uma década de vida?

Ao hábito cívico de comemorar centenários não faltam vantagens, sendo uma delas a renovação do interesse pelo autor comemorado. A cultura portuguesa tem-se nutrido de centenários, sendo aliás decisivamente impulsionada por eles, como reconheceu Jorge de Sena. Era ver o rumo que tomaram os estudos camonianos depois do centenário possível de 1880 ou olhar para o Eça depois do seu centenário, mais encorpado, mais vestido a rigor e com uma apreciável fortuna crítica. É imaginar o futuro figurino bibliográfico de Saramago cujas comemorações do centenário de nascimento arrancaram já com alguma pompa e grande envolvimento oficial.

Anunciada pelo representante da família, Luís Soares Barbosa, numa sessão evocativa que decorreu no dia do seu aniversário, no Museu Nogueira da Silva, a comemoração do centenário de Ondina Braga não se esperava tão cedo. E o próprio centenário, em boa verdade, também não. Pelos registos oficiais – da Biblioteca Nacional à fotobiografia, passando por volumes académicos – , que a dão como nascida a 13 de Janeiro de 1932, dez anos nos afastam desse redondo cem. Teria Maria Ondina Braga mentido, ano após ano, sobre a sua verdadeira idade, aproveitando-se de um velho engano da Enciclopédia Verbo, que no verbete respectivo lhe retira uma década de vida?

Se é verdade que a sua certidão de nascimento regista, e bem, o ano de 1922, também é verdade que o documento, apresentado já em 2012 para cortar dúvidas e suspeitas que começavam a surgir, se revelou incapaz de derrubar um “mito cronológico”. Há construções ficcionais, com pistas semeadas pela obra, com mais força que a verdade documental. Valeu o silêncio cúmplice dos mais próximos e o empenho da família: a lápide na casa onde nasceu, o busto na Avenida Central de Braga, a pedra da própria sepultura apenas acolhem o nome da autora de “Angústia em Pequim”. Nada de datas que viessem contrariar o desejo da autora. As razões profundas para esta “construção” tê-las-á levado Ondina Braga, que desapareceu em Marco de 2003. A família ensaia motivos: “um esteio para a solidão” de uma mulher que disse ser a escrita a única coisa que tinha na vida; “Ou talvez a mágoa de ter lido um dia “a Maria Ondina a tudo chegou tarde”.

Chegou na hora certa o anúncio da comemoração do centenário de Ondina Braga, um nome pouco lembrado, ora a ilustrar a tradição do imaginário asiático na nossa literatura (Wenceslau de Moraes, Camilo Pessanha, Ruy Cinatti), ora chegado à hedionda etiqueta da escrita feminina, tão redutora que mal lhe cola. A existência literária desta escritora admirável há muito se tinha confinado aos territórios da especialidade. Quem quer que a procure numa livraria arrisca-se a perder a viagem. Nem sinal daquela que fez do exercício da escrita, subtil e penetrante, povoada pelos lugares que foram os das suas viagens, a mesa da sua solidão. Da autora de “Angústia em Pequim”, e para os mais persistentes, apenas uns restos de colecção, jazendo num ou outro armazém. A Imprensa Nacional-Casa da Moeda vem agora pôr fim a este definhamento editorial. O 1.º volume das obras completas da autora, “Autobiografias Ficcionais”, da responsabilidade de Cândido Oliveira Martins, está previsto para o próximo mês de maio e inclui “Estátua de Sal”; “Passagem do Cabo” e “Vidas Vencidas”. Seguir-se-á, da responsabilidade de Claire Williams e Isabel Cristina Mateus, um 2.º vol. de sete previstos: “Biografias Femininas”, incluindo Mulheres Escritoras e o inédito Retratos com Sombras.

O cuidado posto na edição das obras completas, faz aparecer, por contraste, a má-estrela editorial de Maria Ondina Braga, que cedo se acendeu. O seu primeiro livro, Eu Vim Para Ver a Terra (1965) – um volume de crónicas inicialmente publicadas na página literária do DN – veio a público estropiado e crivado de gralhas, convertendo o gosto em “grande desgosto”. Seria o primeiro de uma série, como disse numa entrevista magoada à revista Ler, em outubro de 1990: “A minha sorte tem sido bem fraca: nunca tive um editor que se empenhasse na promoção da minha obra”. Ora, não há mal que sempre dure.

Se o anúncio do centenário foi para muitos uma surpresa, saiba o leitor que há dimensões na obra da autora que também o podem ser. E uma delas é o humor.


Galgar a noite. O humor na obra de Maria Ondina Braga

Ver conviver no mesmo título, e de modo tão pegado, o termo ‘humor’ e o nome de Maria Ondina, escritora cuja obra tem sido sobretudo apreciada nas suas faces mais circunspectas, mais sombrias poderá fazer levantar-se a figura da estranheza. Como se um tal título procurasse ligar esferas distantes, inconciliáveis, irremediavelmente desavindas, desarranjando a ideia segundo a qual a ficção da autora se ocupa apenas de dobre se sinos, casos tristes que magnificamente descreve, ambientes lutuosos, negros cerrados.

Um passo do livro “Passagem do Cabo” pode ser uma boa porta neste domínio, estendendo-nos a melhor chave para entrarmos no tema. Se nos diz alguma coisa sobre a natureza contagiante do riso, revela-nos também que a escritora, muito embora surja sempre associada a uma tristeza soturna, é permeável ao riso, mais do que se poderia supor. A narradora viaja para Melange de comboio – primeiríssima classe, carruagem especial, passageiros supostamente polidos, modos sóbrios. Não vai sozinha: acompanha-a “A Brasileira de Prazins”: “Ao chegar ao ponto em que Camilo alude ao avarento cheio de vigor aos 84 anos: ‘O velho Alexandre Dumas disse que os egoístas e os papagaios vivem 150 anos': aqui, eu, sem mais nem menos desatando a rir. Ria e não podia parar de rir. Um riso solto e ruidoso, uma vergonha [...] E nisto, surpresa das surpresas, os meus parceiros a acompanhar-me no riso. Coisa que ainda hoje me confunde. Silencioso, o nosso compartimento, selecto, e súbito aquela jocosidade, aquela galhofa. Ríamos todos, já. O eco das risadas a apressar por ventura o passo do comboio”.

Maria Ondina Braga sempre preferiu, no entanto, as formas contidas do riso à gargalhada sonora. Veja-se o pequeno-almoço descrito na novela “Marília” de Os Rostos de Jano: “as mãos da mãe … a inclinarem bule por cima das chávenas. O bule redondo, de esmalte azul, deitava fumo pelo bico e gorgolejava, comparante a um galo a machear as galinhas. Uma personalidade, o bule, marido das xícaras, senhor do aparador com um sultão num serralho”. Ou, em “Vidas Vencidas”, a narrativa das idas anuais à Póvoa do Varzim das férias da sua infância, para onde se ia como para o cabo do mundo. Tudo se levava, “mais a malinha de mão que continha a Sagrada Família (outros santos, quantos houvesse, não faltariam nas casas da Póvoa)”. Transportada para a esfera do doméstico e do sazonal, a Sagrada Família e C.ª “santimónia” acha-se assim em trânsito e a conviver, em regime de irónica vizinhança, com as tralhas de casa, penicos incluídos “para a criançada, ou até adultos, sabia-se lá em que em particular aperto”. O próprio Senhor não está a salvo do humor de Maria Ondina Braga, como demonstra um passo referente à desilusão em que se converte o domingo de Páscoa face ao sentimento de expectativa e misteriosa beleza da véspera: “Quase se desejaria que o Senhor não tivesse ressuscitado.”

O riso pode instalar-se a partir do interior do próprio espaço das igrejas da sua Braga natal: “As frases empoladas do pregador no púlpito, como crianças irrequietas, subiam e desciam o suporte dos lustres ou sopravam as velas na tribuna. Santos, retesados nos nichos, faziam visíveis esforços por suster o altar. Das mulheres do povo, de saia rodada, alapadas no chão, sempre eu esperava ver sair, ao fim do sermão, uma ninhada de pintos.”

Não parece conhecer interdição, o humor em Maria Ondina Braga, tudo podendo prestar-se a ele: o feio, a desdita, o sagrado, os outros e até ela mesma. Senão, veja-se o retrato da escritora enquanto jovem praticante de Educação Física, captado no liceu do seu descontentamento. Ergue-se nas páginas de Estátua de Sal, a sua romanceada biografia, e sintetiza-se num passo de Vidas Vencidas: “Eu, o meu desajeitamento”. A autora surge como uma espécie de Ulisses ao contrário, contrastando com a habilidade das colegas, “mesmo as estúpidas, as que não conseguiam entender Geometria ou interpretar Camões, e as raquíticas e as gordas”. À experiência robusta do herói da Odisseia responde com a fraqueza, a falta de jeito e de treino, a imperícia, a incapacidade. E é vasta a paleta humorística de Maria Ondina, com transições rápidas, magnificamente ginasticadas. O humor negro também assegura aí o seu lugar e cai-nos diante, de súbito. No conto “Lua de Sangue”, é servido como a dobrada da nossa memória literária, modo de reagir ao trágico da vida. O Dr. Inocêncio (nome que, no contexto, ganha ressonâncias humorísticas difíceis de ignorar) outrora médico na marinha mercante conta aí os casos da sua experiência em águas; um preparado com ingredientes de eriçar os cabelos é posto na bandeja de uma prosa sincopada, impecável.


Os anos finais da escritora-viajante

“Toda triste acho que não sou”, escreve Maria Ondina, com razão, em “Vidas Vencidas”. E acrescenta: “O certo é que, tanto por mim mesma como pelo próximo, sei mais da tristeza que da alegria.” Dir-se-ia que foi uma mulher fora do lugar, por não haver lugar onde habitar, por incapacidade de se acomodar à vida. Num tempo em que à mulher cabia apenas o curto trajecto que ia da cozinha à sala de costura, declinou continentes – Europas, Áfricas, Ásias –, palmilhou capitais: Londres, Paris, Luanda, Goa, Hong-Kong, Pequim, onde experimentou o depressivo “pequinaço”. Cruzou culturas, miscigenou espaços, acumulou um significativo pecúlio de vivências que soube converter em literatura. Acabou a entregar-nos uma espécie de dicionário postal do muito mundo que correu, a descer às profundezas da memória, a baixar aos seus infernos.

Depois de tantas errâncias, Maria Ondina Braga viverá, a partir de 1964, a sua vida de modéstia em Lisboa, onde se dedica à tradução, um trabalho miseravelmente pago, quando pago, que a esgotava mais e mais, até ao limite da sua força. Para além dele. Em 1968, chega a corresponder-se com Agustina Bessa-Luís, a quem pede ajuda para publicar crónicas remuneradas no Diário Popular. Em 1982, já com a saúde em falta, torna a Pequim, como professora convidada da Universidade de Línguas Estrangeiras. Por esta altura, dá ao JL uma entrevista onde não cala dificuldades: “Agarrei-me às traduções por achar que era o único modo de vida que me dava para escrever. Um escritor precisa de ter liberdade de horário. Tem dado porque levo uma vida muito especial. Vivo de escrever porque pago uma renda de casa insignificante e sou vegetariana”. Nunca esqueceu a cidade dos Arcebispos e das “Nossas Senhoras de todos os nomes” onde nasceu, há cem anos, em dia aziago. O edifício da sua própria solidão, onde viveu a pendurar auto-retratos que nos levam desprevenidamente onde não pensaríamos ir, onde não gostaríamos de ir, por tanto se parecerem com o nosso rosto, vai começar-se a erguer-se com o selo da IN-CM.

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