29/05/2022
 
 
O próximo Governo não pode esquecer a classe média

O próximo Governo não pode esquecer a classe média

Sónia Leal Martins 21/01/2022 11:13

Queremos um País que não deixe ninguém para trás e que no futuro se possa tornar mais competitivo e verdadeiramente desenvolvido.

Os mais recentes estudos demonstram que a classe média, em Portugal, tem vindo a estagnar ao longo das últimas décadas – é como se o elevador da sociedade tivesse ficado parado no segundo andar de um arranha céus.

Em Portugal, como em todos os países do Mundo desenvolvido, é na existência de uma classe média forte que se encontra o ponto de equilíbrio para o funcionamento do Estado Social. É a classe média que paga mais impostos, que mais contribui para a segurança social e que mais consome. A classe média é a classe mais dinâmica da sociedade.

O enfraquecimento da classe média não é um problema apenas português, este fenómeno tem acontecido em praticamente todos os países europeus – num estudo realizado pela OCDE apenas 32% dos portugueses considera pertencer à classe média, enquanto a % dos outros países que pertencem à OCDE se situa nos 68%. Isto revela que, mesmo com a diminuição das classes médias nos outros países, ainda se encontram muito acima dos níveis de Portugal.

Mas o que contribuiu para que o elevador ficasse parado no segundo andar do arranha céus? A resposta é simples: políticas erradas!

A educação é um dos pilares fundamentais para a ascensão social. Apesar de todo o investimento feito na educação, nas últimas décadas em Portugal, que proporcionaram um aumento exponencial da escolaridade no nosso país, não foi suficiente para quebrar a estagnação em que nos encontramos.

Hoje temos pessoas mais qualificadas e com mais especializações, mas isso não é garantia de uma posição estável e bem remunerada no mercado de trabalho, não se traduzindo na segurança laboral que muitos jovens ambicionam. Apesar de todo o investimento das novas gerações na sua formação, este investimento não se traduz numa posição social mais confortável, antes pelo contrário.

Vivemos num país, onde um trabalhador indiferenciado aufere um salário mínimo de 705€ e um trabalhador qualificado chega ao mercado de trabalho com um valor de 1223€ - mas se recuarmos a 1998, de acordo com o INE, um trabalhador qualificado recebia em média 1518€, enquanto o ordenado mínimo rondava os 300€.

Houve, justamente, um aumento do salário mínimo nacional, para um salário mais digno, no entanto, o trabalho qualificado perdeu valor e consequentemente retirou poder de compra à classe média. Este fator é umas das explicações para o número elevado de portugueses que foram viver para outros países – só em 2020 emigraram 68.209 portugueses.

É urgente e determinante para o crescimento e desenvolvimento do País criarmos políticas económicas que atuem ao nível da competitividade e da produtividade da economia portuguesa, temos serviços públicos cada vez mais degradados e pouco eficientes, um sistema fiscal complexo com custos muito elevados para as Empresas e com grande carga fiscal sobretudo de IRS e IRC; uma elevada dívida externa; uma justiça lenta e ineficiente e um mercado laboral cheio de fragilidades.

Se não ultrapassarmos estes bloqueios dificilmente o elevador arrancará e poderá satisfazer aqueles que querem permanecer no seu País e que anseiam por melhores empregos, rendimentos mais elevados e maiores níveis de bem-estar.

Dando um exemplo em concreto, os serviços públicos de saúde têm vindo a degradar-se paulatinamente e isso afeta diretamente as famílias. A pandemia veio colocar a descoberto alguns dos problemas que já se vinham a sentir. É preciso recuperar o SNS, deixando as ideologias de parte e partindo numa lógica partilhada assente em três pilares fundamentais – público, privado e social – com o objetivo de dar resposta a um direito fundamental da nossa Constituição, o direito de todos à saúde de qualidade, de forma tendencialmente gratuita.

Outro problema que afeta toda a população, mas em particular, a classe média, é a questão da habitação, grande parte dos rendimentos destinam-se ao pagamento da renda da casa. Em Portugal, de acordo com o índice dos preços das casas do Eurostat, na última década o preço da habitação subiu 42,8%, o que nos torna o 5.º país com os preços mais elevados no custo da habitação – tornando-se um problema sério, uma vez que os salários não conseguem acompanhar este ritmo.

Para minimizar o impacto do preço da habitação e aliviar as despesas das famílias deve implementar-se um sistema que combine rendas sociais, rendas acessíveis e residências para estudantes – um sistema transversal e em articulação com as Autarquias Locais - sustentável e que se pague a si próprio.

Os problemas do País e as políticas a adotar, com vista ao empoderamento da classe média, por um próximo governo não se esgotam nestas propostas, muito mais há a fazer para que seja possível a criação de uma sociedade que proporcione igualdade de oportunidades e onde seja verdadeiramente possível a ascensão social.

Nenhum de nós ambiciona um País onde sejamos todos pobres, mas sim um país que protege os mais desfavorecidos e que proporciona condições para que todos possamos ascender socialmente – queremos um País que não deixe ninguém para trás e que no futuro se possa tornar mais competitivo e verdadeiramente desenvolvido.

Pena é que em 2022 ainda estejamos no segundo andar de um arranha céus.   

Escreve à sexta-feira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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