24/05/2022
 
 
Inês Sousa Real. "O PS e o PSD têm governado da mesma forma e a servir os mesmos interesses"

Inês Sousa Real. "O PS e o PSD têm governado da mesma forma e a servir os mesmos interesses"

Beatriz Pequeno Sónia Peres Pinto 21/01/2022 17:20

Para o líder do PAN, o dinheiro existe mas está a ser mal aplicado. “Se há uma dívida pública é porque houve má gestão”, defende.

O que espera das eleições? É possível manter os mesmos deputados?

Esperamos não só reforçar a representação na Assembleia da República, como ganhar novas geografias. Há distritos em que, em 2019, ficámos um bocadinho aquém de conseguir a eleição, mas não é de todo impossível. É o caso de Braga, Aveiro e Faro, onde tivemos bons resultados nas autárquicas.

É sempre ingrato estar a elencar uns distritos em detrimento de outros, mas ao longo de todo o território, o que temos verificado é que as pessoas identificam-se com as preocupações que o PAN tem trazido para a Assembleia da República e são causas fundamentais e que vão desde a poluição dos rios à causa animal, uma causa que não era colocada na agenda política e pela mão do PAN conseguimos fazer avanços significativos, como o estatuto jurídico, o fim dos abates dos canis e mais recentemente o fim do tiro aos pombos, além das alterações que fomos fazendo em relação à atividade tauromáquica. As pessoas sentem que temos feito a diferença e mesmo na oposição é possível fazer avançar a legislação. É importante que as pessoas percebam que votar útil não é apenas votar mais no mesmo: na partidarização PS/PSD, é também dar oportunidade às novas forças políticas. 

As sondagens apontam para um resultado inferior... 

As sondagens valem o que valem. Já tivemos grandes surpresas, como foi a alteração de governação na Câmara Municipal de Lisboa. Em atos eleitorais anteriores, as sondagens sempre deram uma percentagem inferior face àquela que acabámos por ter. Temos sido um partido que, de forma consolidada, tem vindo a garantir o seu crescimento e o aumento da sua representação.

Tivemos uma atitude bastante responsável em relação ao Orçamento do Estado e o que as pessoas nos vão dizendo na rua é que não queriam uma crise política em cima de uma crise sanitária e de uma crise socio-económica. Notam que o PAN teve uma atitude responsável dando uma oportunidade ao Orçamento de chegar à especialidade e de se tornar um Orçamento da Assembleia da República e não apenas um Orçamento do Governo. Acredito que esse sentimento de responsabilidade e de identificação com aquilo que tem sido o nosso trabalho se irá repercutir no dia 30 de janeiro.

Uma das medidas que defende diz respeito à redução de impostos...

Precisamos de ter um Orçamento que dê as respostas necessárias ao que o país precisa. É o caso, por exemplo, da redução dos escalões de IRS -– quer a nível de percentagem, quer ao nível da revisão dos próprios escalões com vista ao seu desdobramento – e essa foi uma matéria que nos dividiu no debate com Rui Rio porque, ao contrário do PSD, o PAN entende que não temos de esperar pelos efeitos da descida do IRC para descer os escalões de IRS para as famílias. O dinheiro existe, está é a ser mal aplicado.

Devíamos acabar, por exemplo, com as borlas fiscais à indústria petrolífera, que são mais de 500 milhões de euros por ano, ou seja, quem mais polui, quem mais gere a riqueza não só continua a subir os preços aos consumidores como também continua a beneficiar de largos milhões de euros de isenções. Isto mostra que devíamos acabar com os benefícios às atividades poluentes e aliviarmos as famílias. A proposta do PAN pressupõe mexer entre o terceiro e o sexto escalão para as classes médias, um impacto orçamental de cerca de 260 milhões de euros, mas é uma medida que poderia ser compensada com estes 500 milhões de euros que são dados em borlas fiscais. Também defendemos uma revisão do IRC e temos verbas onde ir buscar. 

Aonde?

Por exemplo, o regime dos residentes não habituais tem anualmente um impacto no Orçamento do Estado de 800 milhões de euros e essa verba poderia ser usada para equilibrar a descida do IRC. O PAN defende um hospital público médico-veterinário para os animais de companhia, mas todos os anos estamos a dar mais de 16 milhões de euros à tauromaquia.

Lá está, o dinheiro existe de forma direta ou indireta, os dinheiros públicos têm é de ser redistribuídos de forma mais justa do ponto de vista social, ambiental mas também do ponto de vista da empatia e de uma economia assente em alguns pilares, nomeadamente na economia verde e na transição energética. Também temos de apostar na economia do bem estar e da felicidade para que as pessoas tenham mais tempo para viver e mais qualidade de vida.

Já há várias universidades internacionais que falam neste princípio da economia do bem-estar, nomeadamente reduzindo o trabalho para as 35 horas semanais, como defende o PAN entre o privado e a administração pública e a reposição dos 25 dias de férias. 

Apesar do chumbo do Orçamento, foi feita uma revisão dos escalões do IRS. Poderia ter sido mais ambicioso?

A proposta do PAN é mais ambiciosa porque não propomos mexer apenas no terceiro e no sexto escalão, mas entre todos os escalões e desdobrá-los, nomeadamente o último. Mas não basta desdobrar os escalões, também é necessário reduzir a percentagem de incidência para que se consiga aliviar as famílias. Por outro lado, defendemos que, até ao final da próxima legislatura, seja possível aumentar o salário mínimo nacional até os 905 euros.

Deve haver um aumento progressivo anual para conseguirmos atingir esta meta e para as empresas irem acomodando o aumento, a par da descida do IRC para os 17%. Conseguimos não só aliviar as famílias, mas aproximarmo-nos da média europeia, quer ao nível do salário mínimo, quer ao nível do salário médio. Não podemos continuar a ter este empobrecimento da população e as pessoas continuarem a ver aumentar, por força da inflação, os preços dos bens, dos serviços, com os ordenados a não serem acompanhados por estes aumentos, nem sequer as pensões de reforma.

Recordo que no caso das reformas tínhamos estado a negociar com o Governo o aumento dos 10 euros, tal como tinham feito outras forças políticas, e havia abertura para isso. Também devemos renegociar, por exemplo, as Parcerias Público Privadas rodoviárias. Ainda recentemente foi feita a acusação contra Costa Pina por alegado crime de corrupção que nos vai custar três vezes mais do que aquilo que deveriam custar, e estamos a falar de 10 mil milhões de euros. Esse dinheiro poderia ser usado para acomodar o aumento das pensões de reforma e permitir que as pessoas vivam mais condignamente.

Do ponto de vista das reformas do Estado é fundamental que tenhamos uma visão a médio e a longo prazo porque o país enfrenta desafios, como a inversão da pirâmide demográfica, a sustentabilidade da Segurança Social, e é fundamental que se possam discutir propostas, como aquelas que o PAN tem trazido para cima da mesa, que é o caso da integração das Ordens profissionais, nomeadamente a Caixa de Providência da Ordem dos Advogados e Solicitadores na Segurança Social com vista a garantir una maior sustentabilidade, desburocratizar aquilo que possam ser os processos de legalização. Não nos podemos esquecer que os imigrantes contribuem com cerca de 700 milhões de euros todos os anos para a Segurança Social e trazer projetos-piloto como o do Rendimento Básico Incondicional (RBI) que, de alguma forma, têm sido incompreendidos nestes debates.

A maioria dos partidos considerou que era mais subsídio...

Defendemos que deve haver uma revisão de todos os apoios sociais com vista ao seu aumento. Não faz sentido que hoje uma criança receba de RSI apenas 94,30 euros por mês, quando há cerca de 60 mil a receber esse apoio e um adulto receba 189 euros. É manifestamente indigno que alguém consiga sobreviver com apenas 189 euros, nem dá para comer um mês inteiro. Mas para haver essa majoração temos de mexer nos diferentes benefícios fiscais, nas isenções que são dadas e apostar mais no combate à corrupção.

O Rendimento Básico Incondicional já foi testado em outros países, como a Finlândia, por exemplo. Foi aplicado a uma população-alvo de duas mil pessoas, atribuindo 500 euros a cada e o que se verificou é que através deste rendimento, as pessoas conseguiram não só ter um maior sentimento de segurança perante o Estado, como houve uma diminuição da criminalidade nos vários países onde foi testado. Houve também uma diminuição daquilo que era a sensação de ansiedade por partes destas pessoas, contribuindo para a saúde mental.

Quando temos um desafio demográfico como aquele que Portugal assiste, em que vamos ter de discutir mais cedo ou mais tarde a sustentabilidade da Segurança Social até numa lógica de justiça inter-geracional – porque quem desconta hoje tem de ter a certeza que vai receber amanhã – quando temos fenómenos de robotização em áreas que vão retirar muitos postos de trabalho – é fundamental discutir apoios, como o RBI, sob pena de termos uma população que mais tarde não vai ter como viver e assistir a um empobrecimento da população. Por isso, é que defendemos que as empresas que estejam fortemente mecanizadas devem descontar à mesma para a Segurança Social, tal como pagariam se tivessem mão-de-obra humana. 

O valor deste RBI deveria ser igual ao da Finlândia?

Até para haver um comparativo com os outros países deveriam ser aplicados valores similares e, ainda assim, está abaixo do salário mínimo nacional. A maioria da população em Portugal é feminina e muitas trabalham em casa, mas é trabalho que não é remunerado, nunca foi reconhecido, e o RBI permitiria dar essa autonomia, essa dignificação e valorização do seu trabalho.

Também as mulheres vítimas de violência doméstica teriam uma forma de se autonomizarem porque ao estarem dependentes financeiramente do agressor, muitas vezes, são impedidas de sair de casa. Não podemos olhar para estas iniciativas como uma subsídio-dependência, mas como um desafio incontornável que Portugal e o mundo vai enfrentar não só fruto da robotização, mas também da inversão da pirâmide demográfica.

E como se pode taxar a robotização?

As contribuições sobre as depreciações devem ser pagas à medida que se usa as máquinas. Não teria impacto sobre a compra para não prejudicar o investimento na inovação, mas sobre a substituição que ocorre da mão-de-obra existente.

Estamos a falar de grandes empresas, sabemos que o tecido empresarial é composto sobretudo por micro, pequenas e médias empresas, mas são as grandes multinacionais que estão hoje a substituir esta mão-de-obra e por uma questão de justiça inter-geracional e social devem ter essas contribuições. Isto é fundamental para não termos uma rutura e não termos o empobrecimento das populações.

Não podemos esquecer que em Portugal já se passou fome severa e não podemos ter deixar de antecipar os desafios das próximas décadas. A sustentabilidade da Segurança Social está prevista para cerca de 40 anos, mas temos que pensar mais além. Não podemos olhar para a governação apenas a uma legislatura perante os desafios climáticos que temos hoje – e sabemos que Portugal vai ser um dos mais afetados com a seca extrema, escassez da água, ondas do calor, subida média das águas – que vai afetar não só a qualidade de vida como a conhecemos, mas também várias atividades e serviços que estão juntos do litoral.

O próprio aeroporto do Montijo é um exemplo disso. Estamos a falar da construção de um aeroporto numa zona que vai ficar alagada e a opção Alcochete é fruto do contrato de concessão com a ANA, o que implica que seja o erário público a investir e estamos a falar de 10 a 15 mil milhões de euros, mais as infraestruturas. É vergonhoso que os responsáveis políticos pela mão dos quais se celebrou este contrato com a ANA e aceitou as suas condições não estejam a falar deste problema para que os portugueses possam saber o que daí vem e também não falem da impossibilidade de construir no Montijo, porque tribunal algum vai autorizar.

Estamos a falar de uma zona de especial interesse ambiental, com espécies protegidas, falamos do estuário do Tejo, falamos de uma zona que vai ficar alaga, de uma zona que conflitua com as rotas das aves, o que põe em causa a segurança dos passageiros. Não havendo uma renegociação com a ANA em relação ao contrato de concessão poderemos ter de vir a pagar uma indemnização pelos anos de concessão que estavam previstos no contrato e estamos a falar de mais outros tantos 10 mil milhões de euros.

A solução Montijo terá de ser afastada? 

Daqui a 30 anos estaremos lá mas teremos de levar as galochas e se calhar o impermeável.

Qual é então a solução que defende?

Beja. Defendemos que avaliação de impacto ambiental deve ser feita incluindo todas as soluções aeroportuárias para que se possa verificar qual é que terá o menor impacto ambiental, mas também aquela que serve do ponto de vista económico e social o país. O valor económico não pode ser a única métrica para o desenvolvimento. E se queremos apostar no desenvolvimento do país, Beja é uma alternativa viável, apostando evidentemente numa ligação ferroviária de alta velocidade. Em 1h30 podemos chegar a Lisboa e com a alta velocidade se calhar um bocadinho menos. Não é uma utopia falarmos no aeroporto de Beja, o que não pode acontecer é os interesses do país estarem reféns dos interesses de privados, como é o caso da ANA, em que a solução do Montijo é economicamente mais barata.

Como já referi, o dinheiro existe, mas o que verificamos é que contrato de concessão em contrato de concessão – seja na construção do aeroporto, seja na exploração do lítio, das barragens, nas PPP rodoviárias, ou nos buracos que temos tapado na banca – vamos delapidando os recursos financeiros do país e se existe uma dívida pública é porque houve má gestão política dos dinheiros públicos.

Mas também foi agravada com os curtos acrescidos relacionados com o combate à pandemia...

É evidente que a crise socio-económico decorrente da covid-19 não ajudou a que Portugal pudesse recuperar e continuar na rota que estava de crescimento económico, mas não nos podemos esquecer o que aconteceu nas últimas décadas e aqui o Bloco Central tem feito exatamente o mesmo. Seja PS, seja PSD, têm governado da mesma forma e a servir os mesmos interesses.

Devemos ter modelos de governação diferentes, como acontece na Alemanha, em que várias forças políticas participam no Governo para que possa existir diferentes sensibilidades políticas, diferentes preocupações e para que haja uma maior fiscalização do próprio Governo. Além destes benefícios que trazia para o país do ponto de vista das suas causas também reforçaria a democracia porque uma democracia que tem apenas duas forças políticas que ascendem ao poder é uma democracia enfraquecida e muito pouco saudável. 

Então afasta a ideia que tem sido defendida que o segundo partido mais votado deve apoiar o mais votado para que este forme Governo?

Infelizmente estamos sempre a falar dessa solução. Não conseguimos romper com esta bipartidarização, que não é saudável, e é importante que no dia 20 as pessoas tenham presente que votar útil não é votar nesta dicotomia esquerda/direita, é votar nas causas em que acreditam e em quem se sentem representados. O PAN já provou que é possível fazer avanços para o país.

Falo, por exemplo, da licença de 10 dias para as vítimas de violência doméstica, do alargamento da tarifa social da energia para mais de 100 mil famílias e que por força da pandemia está a chegar a mais de 800 mil famílias. Falo também na lei de bases do clima e em matéria de proteção animal conseguimos avanços muito significativos: a interdição de menores nos espetáculos tauromáquicos, o aumento do IVA na tauromaquia, acabar com os animais nos circos – já foram encaminhados os animais para serem entregues num santuário em Espanha, já só falta entregar cerca de quatro. É possível em oposição fazer a diferença. 

O objetivo é acabar com a touradas..

Temos a perceção que a sociedade civil portuguesa não acompanha a continuação de atividades bárbaras e que consistem em torturar um animal na arena. Há um repto da sociedade para que o poder político acompanhe esta vontade para acabar com as touradas e se não fossem os dinheiros públicos que continuam a alimentar esta atividade já teria acabado no nosso país. Acreditamos que na próxima legislatura, independentemente da força política que esteja no Governo, será fundamental acompanhar este repto, corrigir este erro histórico e civilizacional de continuarmos a torturar animais na arena.

E acabar com a caça...

Acho que o país inteiro ficou consternado com a realidade da Herdade Torre Bela. A caça é uma das atividades que mais contribui para o declínio das espécies e é também preciso ter em conta o impacto que o próprio chumbo tem nos solos e no meio ambiente. Tudo isto tem de ser reavaliado e alterado.

O PAN propôs uma alteração profunda à lei de base da caça, em que defendemos o fim da atividade, mas enquanto isso não é possível há passos importantes a serem dados. É o caso do fim das montarias. Não faz sentido que alguém venha para o nosso país fazer turismo de chacina, dizimar espécies, como também não faz sentido em que zonas protegidas, como é o caso do Parque Nacional Peneda Gerês, se esteja a permitir sem qualquer estudo , abater o corso, que curiosamente é o símbolo do parque. Não podemos continuar a ter esta visão predatória das espécies.

São temas que vão estar na mesa das negociações com PS ou com PSD, já que deixou a porta aberta para viabilizar um desses Governo?

Teremos um conjunto ambicioso de propostas até porque o país e o momento que vivemos assim o exige. E também temos as causas que fazem parte do nosso ADN. O PAN é um partido animalista, somos o único partido ambientalista na Assembleia da República, votámos muitas vezes sozinhos por propostas, como a taxa de carbono ambiental sobre a pecuária, em que mais nenhuma força política nos acompanhou.

Continuam a ser negacionistas quanto às emissões de gases com efeito de estufa que a atividade pecuária produz para as alterações climáticas. Também estamos na linha da frente na defesa dos direitos humanos. Acreditamos que na próxima legislatura seja possível com mais força dar continuidade a este trabalho. Os portugueses conhecem as nossas causas, conhecem o trabalho do PAN, apesar de haver muitas vezes uma tentativa de descrédito do nosso trabalho ou de nos tentarem reduzir a uma monocausa, mas isso de certa forma já foi desmistificado.

Recentemente conseguimos o fim da discriminação na doação do sangue em função da orientação sexual das pessoas. Isso é uma questão da dignidade humana mas também é importante para salvar vidas. Defendemos uma sociedade mais empática, mais inclusiva, de maior respeito por todos os seres, sejam eles pessoas ou animais e uma aposta na transição verde que tanto o país precisa e que pode ser um pontapé de saída muito significativo para termos uma economia mais competitiva. 

Sente-se mais próxima do PS ou do PSD?

Este tempo não é de negociação, o nosso foco e prioridade é que as pessoas percebam que a verdadeira alternativa é o PAN, não é o PS, nem o PSD. Estamos focados no programa que apresentámos e nas causas que defendemos, que não é um mero copy paste de 2019, mas ajustado à atual situação em que vivemos, quer da crise climática, quer da pandemia. Depois do dia 30 logo haverá lugar ao diálogo, ao debate em torno daquilo que são os compromissos que cada um estará disponível para fazer em prol do país e do progresso civilizacional. 

Quais são as linhas vermelhas?

A vida política é uma vida de negociação e de diálogo, se erguermos muros ao invés de construir pontes jamais conseguiremos avançar as nossas causas. É muito importante que passo a passo se consiga fazer avanços. Há passos que têm de ser dados e negociados, mesmo sabendo qual é o nosso ponto de chegada. O caminho pode ser muitas vezes diferente mas não quer dizer que percamos o nosso objetivo.

A ideia seria integrar uma pasta ou bastaria um acordo de incidência parlamentar?

Essa avaliação só poderemos fazer depois do dia 30, ou seja, perante aquilo que possam ser as linhas vermelhas de cada partido e de que forma possamos avançar mais ou menos as nossas causas. Como já referi, estando na oposição também é possível avançar naquilo que são as preocupações das pessoas e avançar com as nossas causas, como podemos ver ao longo destes seis anos, em que só com um deputado fizemos toda a diferença e com um grupo parlamentar também continuamos a fazer toda a diferença para o país. 

Defendeu uma maior representatividade do Governo. Como vê a solução sugerida por Rui Tavares de criar uma eco-gerigonça?

Há uma tentativa para que o PAN se defina entre a esquerda e a direita, mas para nós as causas são transversais. O ambiente e a alteração climática deveria ser transversal, infelizmente não o é em todas as forças políticas. Basta pensar que a Iniciativa Liberal absteve-se na lei de bases do clima para perceber que a emergência climática não é hoje uma preocupação de todo o nosso espetro político.

Mas exemplos como o da Alemanha são saudáveis e mostram como forças políticas que agregam diferente espetros ideológicos conseguem construir um programa para o país e estamos a falar de um país muito mais enriquecido em comparação com Portugal, com maior capacidade de resiliência e maior capacidade económica. Não estamos a falar de uma solução governativa que ponha em causa a estabilidade governativa do país, muito pelo contrário. Tem é de haver maturidade política para no dia 30 se fazer este exercício e não ser um exercício unilateral.

Portugal precisa de ter estabilidade para poder recuperar socio-economicamente, para combater a crise das nossas vidas que é a crise climática e proteger os mais vulneráveis, onde se incluem os animais. Sem estabilidade política isso não vai ser alcançado e o PAN não se furtará à responsabilidade para contribuir para essa estabilidade.

Falou na importância da transição energética, mas há quem alerte para os riscos associados: aumento dos preços e risco de perda de postos de trabalho...

Essas críticas surgem de setores que até aqui se achavam intocáveis e não compreendem que é uma inevitabilidade que Portugal se tenha de adaptar e tenha de transitar para modelos mais responsáveis e mais sustentáveis do ponto de vista energético, seja na agricultura, seja na indústria, seja na pecuária, por uma questão não só de sobrevivência mas também de competitividade. Se olharmos para as economias globais verificamos que hoje a economia verde está em franco crescimento.

A Organização Internacional do Trabalho já veio dizer que a empregabilidade verde pode gerar cerca de 24 milhões de postos de trabalho em todo o mundo. Por exemplo, a taxa de carbono foi aplicada sobre a aviação e a navegação e está hoje a financiar os passes sociais. Estamos a falar de uma taxa de carbono que, num ano de dita normalidade, poderá ascender aos 120 milhões de euros anuais. Se somarmos a isto a taxa de carbono sobre o pecuária, as contas que fizemos é que seriam mais de 179 milhões de euros que poderiam contribuir para aliviar as famílias e as empresas de forma positiva.

Muitas vezes, confundem aquilo que o PAN está a dizer e associam isso ao agravamento de taxas. Estamos a falar de pôr fim a isenções que já existem porque quem mais polui e quem lucra é quem mais enriquece. Era mais fácil e também mais populista dizermos que somos contra o todo o tipo de taxas, mas isso não é sério e não é uma política fiscal justa.

Defendemos que devem existir benefícios fiscais para as empresas que têm boas práticas, quer ambientais, quer sociais. Quando olhamos para o PRR verificamos que o que está consignado para o combate às alterações climáticas, em particular para a mitigação, vai para os mesmos. Não são as pequenas e médias empresas que vão beneficiar destes fundos comunitários mas os grandes grupos económicos, como a Galp e a EDP que continuam a beneficiar destas isenções. 

Já disse que as verbas alocadas ao PRR eram pequenas e que o plano era pouco ambicioso...

De acordo com as contas que fizemos – e podemos fazer as contas de duas formas: apoios diretos ou apoios indiretos – em apoios diretos o PRR consigna apenas 24% dos fundos para o combate às alterações climáticas.

De acordo com o Governo, são 38% porque contabiliza os apoios indiretos, mas mesmo que sejam os tais 38% fica aquém do que é aplicado em outros países, como a Dinamarca ou a Bélgica, em que 60% a 90% dos fundos do PRR são destinados ao combate às alterações climáticas. Portugal vai receber entre o PRR, Portugal 2030, PAC e REACT (Iniciativa de Assistência à Recuperação para a Coesão e os Territórios da Europa) 52 mil milhões de euros.

É fundamental que haja transparência e, por isso, propusemos o portal de transparência para acompanhar a implementação do PRR, para que cada cêntimo destes 25 mil milhões seja executado e canalizado para onde é necessário: ferrovia, transportes públicos, combate à pobreza energética. Portugal tem de deixar de ser o quarto país da Europa, onde se morre de frio no inverno ou de calor nos picos do verão.

Acha que a saída de André Silva da liderança e do palco mediático prejudicou o PAN?

Tenho sentido um grande carinho por parte das pessoas na rua e, por parte das mulheres, que mostram algum orgulho por verem uma à frente de um partido político. Por incrível que pareça sou a quinta mulher a representar um partido político, isso diz muito acerca da nossa democracia. Temos neste ato eleitoral partidos que nem sequer cumpriram com a lei da paridade e tivemos juízes a deixarem passar, lamentavelmente, esta irregularidade.

Estamos a aguardar de forma expectante o resultado da notificação do Tribunal Constitucional para que esses partidos cumpram e regularizarem as suas listas, mas é um péssimo sinal que estamos a dar. Como é que PSD conta apenas com seis mulheres em 22 distritos? Se a maioria da população é feminina não podemos continuar a afastar as mulheres da vida política. Todos temos um papel importante ao longo da construção que é este coletivo do PAN, mas o que é importante é que as causas sejam sempre maiores do que os seus porta-vozes e que o partido não se esgote nem em André Silva, nem em Sousa Real, nem nos seus membros fundadores. 

Sente que a sua imagem saiu prejudicada com as notícias de tinha negócios em que aposta na cultura intensiva, ao contrário do que defende?

Houve uma tentativa de descredibilizar o PAN. Houve um ataque concertado ao partido porque tem afetado muitos setores, como a tauromaquia, a caça e as atividades poluentes: pecuária e a pecuária intensiva. E, mais uma vez, a CAP (Confederação dos Agricultores de Portugal) opta por se sentar ao lado dos interesses instalados. Comparar meio hectare de túneis com 40 quilómetros de estufas intensivas e super intensivas na Costa Vicentina é tentar colocar o Rossio na Betesga. Não estamos a falar do mesmo. Estamos a falar de práticas completamente diferentes.

Não fiz nada que ferisse a minha sensibilidade ecológica ou a responsabilidade ambiental do PAN. Atuei sempre com a maior transparência e não tenho culpa que não tenha havido uma atualização nos sites da própria Assembleia da República ou do Portal da Justiça que deveriam estar a funcionar para não gerar esta confusão nas pessoas ou para que não pudesse haver este aproveitamento por parte destas entidades.

O PAN continuará fortemente empenhado nestas matérias e não nos demovem com estes ataques concertados que têm existido. É a reação do sistema para quem vem da sociedade civil, para quem não faz parte do carreirismo político. Nunca pertenci a nenhuma estrutura partidária, nunca trabalhei para o PAN.

Ao longo destes 11 anos de existência do partido sempre dei o meu tempo, o meu voluntariado para as causas em que acredito, nunca trabalhei para nenhuma máquina partidária e isto faz parte da reação do sistema para quem tem uma vida além do partido, que tem uma vida integra e honesta. Tenho defeitos como qualquer outra pessoa, não sou perfeita, isso seria uma utopia. Mas certamente o meu defeito não é não ser incoerente, nem de deixar de estar com as causas em que acredito e continuarei a lutar com toda a minha convicção.

Também é criticada por usar plásticos e por a atividade estar inserida numa zona de caça associativa... 

Isso é um aproveitamento político. Não só as empresas familiares tinham certificação biológica, como o transporte dos mirtilos era feito em caixas de papel e não em plástico. Em relação à questão do registo na zona de caça associativa foi feito a 26 de novembro de 2021 e não tivemos qualquer possibilidade de fazer pronúncia. Isto é um ataque de má fé e daquilo que foi um ataque concertado para atacar e descredibilizar o PAN. E falam de um processo em que estava de saída das empresas e abracei um novo desafio que foi estar na Assembleia da República a representar o país e o meu partido.

É lamentável que não se tenha a consciência de que é preciso defender os pequenos produtores, a agricultura familiar e biológica. Precisamos de combater aquilo que são as estufas intensivas e super intensivas no Parque Nacional da Costa Vicentina que ocupa mais de 40 quilómetros de costa. Estamos a falar de uma atividade absolutamente insustentável, que é praticado sobretudo por grandes consórcios estrangeiros que estão a esgotar os nossos solos.

Se formos também para a fronteira com Espanha verificamos que entre o amendoal e o olival intensivo continuamos a ter uma ocupação abusiva dos solos e à destruição de toda a biodiversidade e não vemos a CAP a levantar a voz contra isso, não vemos a CAP a criticar o que aconteceu com a chacina na Herdade da Torre Bela, não vemos a CAP a pôr em causa uma atividade absolutamente bárbara como a tauromaquia e o PAN tem posto isto em causa. Não vemos A CAP preocupada com aquilo que possa ser a transição das atividades pecuárias quando temos distritos como Leiria, onde mais de 200 explorações pecuárias estão a atuar de forma ilegal, a poluir os nossos rios ao lado de casas de pessoas que nem sequer conseguem abrir as suas janelas por causa dos cheiros nauseabundos. E o PAN tem confrontado todos estes interesses e continuará a enfrentar, não nos demovem. Só nos dão cada vez mais convicção, garra e certeza que estamos no caminho certo.

Quando aceitei ser porta-voz do partido e quando abracei este projeto, filiando-me no PAN sabia ao que vínhamos, que éramos uma força incomoda, uma pedrada no charco, mas também somos uma fonte inspiradora para os mais jovens que sentem que o PAN lhes devolve a esperança de um mundo melhor e mais decente. Lamento profundamente que haja este oportunismo.

Ainda esta semana, a CAP apelou à rejeição eleitoral de partidos disponíveis a coligarem-se com o PAN..

A CAP vem mostrar, mais uma vez, que não está ao lado dos pequenos produtores, das boas práticas porque defendemos uma nova era na agricultura, que seja alinhada com o combate à crise climática, o que vai exigir uma adaptação do território. Se a CAP não compreende que somos um partido que defende o mundo rural, mas também a adaptação do ponto de vista do combate à crise climática e a aposta da agricultura de precisão que o nosso país vai ter de ter então mostra que a CAP não está atualizada com os desafios do nosso tempo e não está a representar, mais uma vez, os interesses dos pequenos e dos médios agricultores, mas sim dos grandes interesses económicos. 

E como responde ao secretário-geral da CAP que pede a sua demissão por ser incoerente?

Já disse tudo o que tinha a dizer sobre o assunto.

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