14/08/2022
 
 
1938. Os quatro filhos da mãe coragem!

1938. Os quatro filhos da mãe coragem!

Afonso de Melo 14/01/2022 20:06

30 de Janeiro de 1938, início do 14.º Portugal-Espanha. Azevedo, Quaresma, Simões e Mariano Amaro recusaram-se a fazer a saudação fascista.

Foi um dos momentos de maior desafio e de coragem da História do futebol português e, por muito pouco, não ficou para sempre nas profundezas do olvido. 1938: 30 de Janeiro. A Guerra Civil de Espanha caminhava para o fim com a inexorável vitória dos franquistas.

Os jornais berravam em manchetes patrióticas que se celebrava o dia da amizade luso-espanhola, como se a Espanha fosse um país completo e não continuassem muitos a morrer pela causa de liberdade. Os falangistas, simpatizantes do nazi-fascismo, comandados directamente por Francisco Franco, El Caudillo, estavam em força em Lisboa e tinham, logo pela manhã, ouvido a missa no jardim do Instituto Espanhol e desfilado, pouco depois, frente ao Monumento dos Mortos na I Grande Guerra. Salazar rejubilava com esta demonstração de unidade ibérica.

No Estádio das Salésias, as selecções de futebol de Portugal e Espanha defrontavam-se pela 14ª vez. Havia, para o lado lusitano, apenas uma vitória para celebrar, a do ano anterior, em Vigo, onde por ordens superiores, nenhuma das equipas vestiu a sua habitual camisola vermelha, numa atitude vincada de desprezo pela cor que representava o triunfo do proletariado a Leste do continente. O campo encheu-se por completo. Um Portugal-Espanha tinha um peso único na historiografia nacional. Era o nosso adversário/amigo por excelência.

Ganhar à Espanha, a equipa da Fúria, era atingir o topo. Por toda a parte as duas bandeiras peninsulares eram agitadas ao vento. Centenas e centenas de automóveis dirigiram-se para o estádio e não encontravam lugares para estacionar, milhares de pessoas são obrigadas a ficar fora do recinto por já não haver mais lugares disponíveis, nem na bancada nem no peão. Invadem as Salésias mais de 25 mil pessoas. Um exagero. A banda da polícia entretém o povo antes de começar o jogo com trechos musicais que tentam soar festivos.

Espalham-se por toda a parte fardas da Legião Portuguesa e da Falange Espanhola, gente autorizada a entrar gratuitamente. Às três horas da tarde, chega o representante do Chefe de Estado, o general Amílcar Mota, e logo em seguida os ministros da Educação e da Marinha. Trocam longos cumprimentos com o general Casimiro Telles e com o Marquês de Miraflores, os representantes do Estado Espanhol em Lisboa. O fascismo exibe todo o seu esplendor!

Coragem Diga-se desde já que Portugal conseguiu, nessa tarde, nova vitória sobre a Espanha, por 1-0, por Artur de Sousa, o Pinga, o grande avançado madeirense do FC Porto. E acrescente-se que, com o tempo, a FIFA veio tomar a atitude de não registar oficialmente as vitórias portuguesas de Vigo e de Lisboa sob o pretexto lógico de que não estiveram em campo verdadeiras selecções espanholas e apenas representantes nacionalistas de um país dividido pela guerra.

Desta vez, Portugal entrou em campo de camisolas rubras com os cinco escudos azuis ao peito. A Espanha optou pela neutralidade do branco. Jogaram por Portugal: Azevedo; Simões e Gustavo; Mariano Amaaro, Albino e Carlos Pereira; Mourão, Soeiro, Espírito Santo, Pinga e João Cruz. Serviam de suplentes: Dyson, Galvão, Gaspar Pinto, Quaresma e Valadas. Com o jogo à beira do seu início, o árbitro, o italiano Mattea, chama todos os jogadores ao centro do terreno. Os capitães trocam galhardetes. Está na hora da habitual saudação ao público, a saudação fascista de braço direito estendido. Quatro filhos da mãe coragem não o fizeram.

Azevedo seria o guarda-redes da famosa equipa do Sporting que contou com os Cinco Violinos na linha de ataque. Quaresma viria a ser um dos campeões do Belenenses de 1946: driblador exímio, ficou conhecido pela sua habilidade e pelo seu repentismo. Mas Amaro foi, seguramente, a maior figura humana de todos eles. Vítor Santos, chefe de Redacção da A Bola, chamou-lhe “Einstein do Futebol” por causa do seu génio inato para a resolução dos problemas que os jogos lhe iam colocando.

Boémio famoso na Lisboa da década de 40, foi perseguido pela polícia política graças às suas ideias de esquerda que nunca abandonou, nem na velhice, quando se dedicou às lutas sindicais. Azevedo esticou o braço mas manteve os dedos encolhidos, Quaresma limitou-se a ficar em sentido e José Simões, também do Belenenses, e Mariano Amaro levantaram os punhos.

Os jornais dos dias seguintes procuraram não tocar no assunto, a revista Stadium chegou mesmo a retocar a fotografia das equipas alinhadas de forma a que nada se notasse. Mas nenhum deles escapou às incómodas perguntas da PVDE, tendo José Simões e Mariano Amaro sido mesmo presos para interrogatório. Uma exibição pública de coragem e de convicção que marcava a sua personalidade e uma certa identidade desse Belenenses campeão oito anos depois. A História não se apaga!

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