23/05/2022
 
 
A impossibilidade do amor no mundo moderno

A impossibilidade do amor no mundo moderno

Diogo Vaz Pinto 14/01/2022 11:22

O livro de uma eminente socióloga israelita, com o sugestivo título O Fim do Amor, está a levantar ondas ao questionar a razão porque continuamos obcecados em falar do amor quando a realidade é que cada vez mais somos confrontados com uma sexualidade marcada pelo desamor, por fenómenos como o ghosting, por envolvimentos esporádicos e casuais através de plataformas como o Tinder, e em que cada vez é maior a insegurança, especialmente entre os jovens, que se sentem como produtos descartáveis num mercado de afectos cada vez mais instável. 

As atitudes de cada época e de cada sociedade em relação ao sexo continuam a definir em grande medida esse horizonte ou vertigem fascinante no qual nos projectamos, e são um reflexo de uma ideia de libertação, à medida que a vergonha, o pudor e a culpabilidade que sempre pesaram sobre nós vão ficando pelo caminho, como roupas demasiado pesadas para que se expressem os nossos gestos mais comprometidos com a vida. Despimo-nos para reclamar a condição de nativos de um território onde o acto amoroso exprime a ligação mais profunda e desinibida entre os espíritos, devolvendo-nos a um gozo de integração plena, do qual fomos afastados pelo pecado original.

Como nos lembra Pasqual Quignard, no livro “A Noite Sexual” (recentemente chegado às livrarias com selo da Sr. Teste Edições, numa tradução assinada por Ricardo Ribeiro), “os animais existem sem nudez. Um gato não está nu. Um peixe vermelho não está nu. Um canário não está nu. A nudez, a ansiedade do alter, é própria da sexualidade humana.” E o autor francês acrescenta que essa ansiedade não é satisfeita desde a origem. Por sua vez, Natália Correia, no prefácio à “Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica”, assinalava que é próprio “da natureza humana aspirar ou saborear o êxtase que coroa a exaltação amorosa, sempre que, pelo desejo, ou pela plenitude da realização, sublimando o objecto do desejo, tende, numa feliz definição de Benjamin Péret, a ‘sexualizar o universo’.” A poeta que empreendeu um esforço desmedido para “afligir o puritanismo que serve de guardião a todas as ditaduras”, e que pretendeu com aquela obra monumental “lançar no charco do despotismo salazarista a pedrada de um estudo dedicado ao erotismo e sátira fescenina”, produzindo uma súmula maldita do génio herético que se revoltou ao longo dos séculos face às tentativas de suprimir os instintos sexuais e o impulso animador que estes nos trazem, explica como esse “amor divinizante, no qual a natureza mortal procura eternizar-se, é de todos os tempos e sobrepõe-se às superestruturas históricas e religiosas que desfiguram o ser do amor, cuja imanência se manifesta pela unidade superior da carne e do espírito”.

Nos nossos dias, os comportamentos sexuais, se, por um lado, assinalam uma escalada do erotismo e até da libertação sexual, parecem cada vez mais distantes de uma ideia de exaltação amorosa, e, longe de mudar a vida, formam, segundo Jean Baudrillard, uma ambiência colectiva em que a sexualidade se torna tarefa privada, “quer dizer, ferozmente consciente de si mesma, narcisista e entediada consigo própria”. Em lugar de horizonte de libertação, o que parece cada vez mais dominar-nos é uma ideologia em que a sexualidade é apropriada pelos publicitários com vista a melhor venderem, e, de resto, subsiste essa “ordem social concreta que brinca com a libertação sexual”, mas que continua a condená-la moralmente. Assim, para este pensador francês, a única pulsão verdadeiramente libertada é a pulsão da compra. E se o corpo e a beleza ajudam a vender, o erotismo serve também como factor de promoção do mercado. Baudrillard defende que, hoje, com o corpo acontece a mesma coisa que com a força de trabalho: “Importa que seja ‘libertado e emancipado’ de modo a ser racionalmente explorado para fins produtivistas”. 

Em linha com esta perspectiva, no ano passado foi publicado o livro “The End of Love: A Sociology of Negative Relations” (“O Fim do Amor: Uma Sociologia das Relações Negativas”, numa tradução literal). A autora, Eva Illouz, nascida em Fez, Marrocos, em 1961, é professora de Sociologia e Antropologia na Hebrew University of Jerusalem e na École des Hautes Études en Sciences Sociales em Paris, e defende que a preponderância do sexo casual, a cultura do engate, das relações de uma só noite, as quais não deixam história nem têm seguimento, a trivialização da linguagem romântica, a banalização dos afectos, e fenómenos como o ghosting, a sologamia (ou seja, mulheres que se casam consigo próprias), a facilidade dos casais romperem como se nada fosse, os divórcios que se impõem como algo natural, as famílias monoparentais, tudo isto são formas de dissolução e de decadência moral.

Se Balzac afirmou que queria ser o historiador do coração humano, esta socióloga franco-israelita poderia reclamar o título de historiadora dos efeitos da falência amorosa que caracteriza a nossa época. Porque se houve lugar a uma rejeição dos velhos tabus e da censura e das inibições de “uma sociedade empecida pelo remorso, que determinou que só pudesse desfrutar-se “envergonhadamente o irresistível gozo do proibido” (Natália Correia) no que toca aos comportamentos sexuais, a um certo puritanismo sucederam outras formas de censura ou de banalização. Como regista Julian Barnes em “O Ruído do Tempo”, um romance dedicado às atribulações vividas por Chostakovich, ao mesmo tempo o mais celebrado compositor da União Soviética e o mais coagido e intimidado pelo Estado, naquela altura, mesmo debaixo da repressão de um aparelho brutalmente conservador, assumiu-se que “a questão do sexo tinha de ser repensada – agora que os velhos costumes tinham desaparecido para sempre e alguém se lembrara da ‘teoria do copo de água’. O sexo, defendiam os jovens sabichões, era exactamente como beber um copo de água: quando tínhamos sede, bebíamos, e quando sentíamos desejo, fazíamos sexo. Não estivera contra esse sistema, embora ele dependesse de serem as mulheres tão livres e desejosas quanto eram desejadas. Algumas eram, outras não. Mas a analogia não nos levava longe. Um copo de água não prendia o coração.”

Em certo sentido, o amor tornou-se o próprio obstáculo a superar na forma como, hoje, lidamos com a sexualidade. E a censura que a nossa sociedade institui na sua hiperestesia sexual actua agora no plano dos próprios fantasmas e da função simbólica, como nos diz Baudrillard, isto porque “toda a publicidade e a erótica moderna são feitas de signos, e não de sentido”. Este autor diz-nos que “é possível admitir sem risco de engano que todo o material erótico que nos circunda se encontra inteiramente culturalizado. Não é material fantasmático ou simbólico, é material de ambiência. Não exprime o Desejo ou o Inconsciente, mas a cultura e subcultura psicanalítica transformada em lugar-comum, que entrou no repertório e na retórica de feira. Por sua vez, Eva Illouz analisa a forma como evitar o amor se tornou a marca registada das relações contemporâneas. Segundo ela, “a valorização económica do corpo feminino foi tornada possível pelo facto de se ter transformado numa unidade visual passível de ser negociada e vendida”.

Já em 1970, no livro “A Sociedade de Consumo”, Baudrillard notava que “a mulher moderna surge ao mesmo tempo como vestal e como ‘manager’ do próprio corpo, intentando sempre conservá-lo belo e competitivo”. Segundo ele, “o estatuto do corpo é um facto de cultura”, e, “após uma era milenária de puritanismo, sob o signo da libertação física e sexual, a sua omnipresença (em especial do corpo feminino) na publicidade, na moda e na cultura das massas – o culto higiénico e terapêutico com que se rodeia, a obsessão pela juventude, elegância, virilidade/feminilidade, cuidados, regimes, práticas sacrificiais que com ele se conectam, o Mito do Prazer que o circunda – tudo hoje testemunha que o corpo se tornou objecto de salvação. Substitui literalmente a alma, nesta função moral e ideológica.” E é neste contexto, com o corpo enquanto objecto de prestígio e de salvação e enquanto valor fundamental, que o médico se transforma em “confessor, dispensador da absolvição e oficiante”. “O funcional e o sagrado mesclam-se aqui de modo inextricável”, sublinha Baudrillard, “e o médico acumula em si a reverência devida ao especialista com a que se tributa ao sacerdócio”.

No entender de Eva Illouz, durante o século XX, os movimentos de libertação sexual viram-se subsumidos pela economia de consumo, e surgiram as “novas formas de atracção”, nas quais se misturam diferentes estilos de vestuário, juntamente com novas atitudes em relação ao corpo e à sua forma ideal, tendo estas sido codificadas enquanto imagens que circulam hoje com um valor próprio, enquanto signos, os quais operam de forma independente em relação à identidade ou ao estatuto das mulheres retratadas. Mais uma vez, a leitura do que nos diz esta socióloga ganha em ser complementada com a lição de Baudrillard, que, décadas antes, notava já como, para lá das determinações da moda, é na “ascese dos regimes alimentares que se descortina a pulsão agressiva em relação ao corpo”. Ele refere que, quando se pensava que o corpo fora libertado em todas as suas virtualidades de satisfação, julgando-se que assim se abria caminho a uma relação harmoniosa que preexistia naturalmente no homem entre ele e o corpo, na verdade descobriu-se que havia sido cometido um erro fantástico: “Toda a pulsão agressiva também então libertada e não canalizada pelas instituições sociais, reflui actualmente no próprio seio da solicitude universal pelo corpo.” Assim, a beleza e a elegância que eram visadas na origem, foram reduzidas a alibis para o exercício disciplinar quotidiano, obsessivo. “Por reviravolta completa, o corpo transforma-se em objecto ameaçador que é preciso vigiar, reduzir e mortificar para fins ‘estéticos’, com os olhos fixos nos modelos emagrecidos e descarnados da revista Vogue, onde é possível decifrar toda a agressividade inversa de uma sociedade da abundância em relação ao próprio triunfalismo do corpo”.

Eva Illouz leva mais longe esta análise, e reflecte sobre a forma como as redes sociais vieram normalizar mais ainda os esforços de cada pessoa para fazer de si mesma uma mercadoria para o regime do espectáculo, e como ali se efectivou a tal tarefa privada de cada um reproduzir a sua imagem de acordo com os códigos estéticos do que vigora como valor sexual. Assim, a mulher, outrora escravizada enquanto sexo, neste novo regime surge “libertada” enquanto moeda deste câmbio sexual. Para Illouz isto é a consequência de uma ideologia que impende sobre a sexualidade e que faz dela uma forma de mercadoria que se estende e apropria também da auto-imagem que cada um tem de si e projecta. No seu entender, são os jovens, e particularmente as jovens mulheres, que cedem a este regime do “corpo privatizado e personalizado para o qual convergem todas as espécies de condutas sacrificiais de auto-solicitude e de conjuração maligna, de gratificação e de repressão – toda uma rede de consumos de segunda classe, irracionais” (Baudrillard). Assim, a saúde deixou de ser um imperativo conexo com a sobrevivência e reveste apenas um imperativo social ligado ao estatuto. E é fácil identificar nesse espectáculo que cada um faz da sua própria exibição, como dos seus consumos, a produção de signos e imagens altamente artificiais de si mesmos, numa espécie de reality show de curto alcance, em que se vê cada vez mais pessoas a posarem e a iluminarem-se como se estivessem a participar num anúncio publicitário a um produto qualquer. Segundo Illouz esta irracionalidade difusa que, de algum modo, todos observamos e alguns condenam, é apenas a expressão da tal ideologia de consumo a produzir efeitos na esfera privada, a qual, precisamente se vê anulada, cedendo aos tropos de uma pretensa projecção na vida pública. Deste modo, cada um se entrega à ilusão de estar a conquistar um estatuto mediático, auto-objectificando-se alegremente, desfrutando das satisfações de ritualizarem todos os aspectos do quotidiano de maneira a que as suas vidas, e eles mesmos, pareçam itens de luxo.

“Parece que uma colectividade gravemente dissociada, porque cortada do passado e sem imaginação para o futuro, está a renascer para um mundo quase puro das pulsões, mesclando na mesma insatisfação febril as determinações imediatas do lucro e do sexo”, anunciava Jean Baudrillard em 1970. “O enfraquecimento das relações sociais, a colusão precária e a concorrência encarniçada que fazem a ambiência do mundo económico repercutem-se nos nervos e nos sentidos e a sexualidade, deixando de ser factor de coesão e de exaltação comum, torna-se frenesi individual do lucro. Por meio da obsessão, isola cada indivíduo. O mais interessante é que, ao exacerbar-se, se torna também ela ansiosa.” Este pensador assinalava, assim, a forma como o regime económico em vigor nos afunda numa relação narcisista, “um narcisismo dirigido, da maneira que se aplica ao corpo como em ‘território’ virgem e colonizado, da maneira como explora ‘ternamente’ o corpo como jazigo a pesquizar com o fim de dele extrair os signos visíveis da felicidade, da saúde, da beleza, e da animalidade triunfante no mercado da moda”.

Baudrillard nota que se o reinvestimento narcisista implica uma visão do erótico como encarecimento sexual, na relação do indivíduo consigo mesmo, à luz deste novo regime, tudo participa num esquema de competição. Em consequência, tudo deve ser pensado como elemento de táctica e de ritual social, pois “importa que o indivíduo se tome a si mesmo como objecto, como o mais belo dos objectos e como o material de troca mais precioso, para que, ao nível do corpo desconstruído, da sexualidade desconstruída, venha a instituir-se um processo económico de rendibilidade”. Para Baudrillard, o corpo, da maneira como o estabelece a mitologia moderna, não é mais material que a alma. “Constitui uma ideia, ou antes, já que o termo de ideia não significa grande coisa, constitui um objecto parcial hipostasiado, um duplo privilegiado e investido como tal, tornou-se como a alma no seu tempo, o suporte privilegiado da objectificação – o mito director da ética do consumo”

Em “The End of Love”, Eva Illouz propõe-se traçar uma história da forma como estamos todos a virar costas ao amor, e como isso significa um alinhamento com os princípios de competição da lógica capitalista, e o surgimento de uma cultura em que os laços afectivos e sexuais se dissolvem com base em “motivos emocionais e hedonistas puramente subjectivos”. E se o território romântico tem de contender cada vez mais com este regime espectacular em que cada vez mais pessoas se conformam com atitudes e comportamentos que se adequam a uma estética altamente sexualizada, a verdade é que há cada vez menos disponibilidade ou interesse para assumir relações íntimas que possam extrair-se ao esquema geral de afirmação de um certo estatuto social. Tudo funciona cada vez mais como um simulacro, e o amor deixa de ser vivido e passa a ser uma mera representação, encenada e dirigida com vista a regulares apresentações públicas nas redes sociais. Daí que os afectos em privado sejam manifestações cada vez mais pensadas como treinos ou ensaios para o momento da estreia da peça frente a uma audiência.

A socióloga argumenta que, se a certa altura houve uma tentativa de libertação sexual como forma de se entrar em vínculos sexuais e emocionais de acordo com a vontade e a escolha pessoal, o amor contemporâneo passou a ser caracterizado por práticas de não-escolha, e funciona cada vez mais como uma liberdade em sentido negativo, uma forma de irresponsabilidade, de não ter de oferecer quaisquer justificações, sendo possível afastar-se dos relacionamentos sem mais. Illouz chama a este processo pelo qual os relacionamentos a todo o momento se desfazem, evaporam ou dissolvem de “unloving” (desamor). E se a sociologia tradicionalmente se focou na formação de laços sociais, “The End of Love” faz uma inversão radical, estabelecendo uma análise absorvente dos motivos porque os laços sociais tão facilmente colapsam nos nossos dias.

Assim, se a cultura ocidental desde há séculos está decisivamente ligada à própria noção de amor romântico, e se tantas das suas obras fundacionais representam as variadas formas como o amor irrompe milagrosamente na vida das pessoas, e a própria noção de uma existência plena não prescinde do momento mítico em que se sabe que alguém está destinado a nós, sendo que cada um de nós anseia por se entregar a essa fresca febre de se desfiar lentamente à espera de um telefonema, de um e-mail, ou, até, de uma mensagem privada nalguma rede social, se há um fervor que nos atravessa só de pensar na pessoa amada nos momentos mais altos da paixão, Illouz questiona porque razão uma cultura obcecada com o amor, que não se cala na hora de o celebrar, na hora inversa, se mostra praticamente muda face a esses momentos não menos misteriosos em que evitamos apaixonar-nos, ou em que, sem que nada pareça justificá-lo, subitamente o feitiço amoroso parece quebrar-se, e aquela pessoa que há dias nos fazia passar a noite acordados agora não consegue senão provocar-nos indiferença ou mesmo uma certa repulsa.

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