28/01/2022
 
 
Afonso de Melo 14/01/2022
Afonso de Melo

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A noite, minha irmã

Quantos são os filhos que a noite, minha velha irmã, deixa ao abandono? É apenas meia-noite e o Bairro Alto está vazio. Saio com o Ricardo Regal do Calcutá, canto esquerdo de quem entra vindo da Rua do Norte, e um silêncio estranho toma conta do que penso. Há vinte anos, havia à porta do restaurante, em qualquer dia da semana, mais de vinte pessoas espalhadas pela rua, de copo de cerveja na mão, à espera que vagasse um lugar para se sentarem a jantar. Nós tínhamos sempre a nossa mesa pronta. Éramos da casa, como continuamos a ser. Ou frecheiros, como costumava dizer o meu velho amigo António Florêncio No caminho para casa, encontro-os. Os filhos abandonados da noite. Uns encolhidos debaixo de folhas de cartão canelado, outros embrulhados em mantas chupando cigarros até à conjunção amarela dos dedos, outros ainda em tendas de campanha, encaixadas por baixo de viadutos ou de recantos ínfimos à entrada de prédios onde há quem durma bem no conforto dos lençóis e cobertores. Eu sei, desde há muito, muito tempo, que a noite é ingrata. Vivi nela e continuo a viver paredes meias com ela porque me transformei num morcego que tropeça nas palavras enquanto voa à toa na mais profunda das escuridões. Acreditem: a noite fascina, intriga e trai. Com o passar do tempo vai-nos derrotando, mesmo que não consigamos, jamais, fugir do seu canto enegrecido de sereia. Há um céu de estrelas sobre a cidade. Cada qual vai, certamente, conseguir encontrar a sua. Mas, como escreveu Orwell, também há alturas em que é preciso dizer basta. Nem que seja baixinho, para nós próprios. E fazer, finalmente, o que é correcto. Os edifícios vão desaparecendo para lá das vidraças do automóvel. Regresso a casa onde ninguém me espera. Volto ao lugar onde me encontro, apaixonado, com a minha solidão. E, sozinho, escuto os sons que desaparecem na cidade. “Hello darkness my old friend...”

 

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