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Resultado dos Debates: Democracia - 0 Abstenção - 1

Resultado dos Debates: Democracia - 0 Abstenção - 1

Sónia Leal Martins 14/01/2022 09:37

Os mais distraídos podem até ter-se questionado se de facto estavam a assistir a um debate sério, entre líderes políticos ou se estavam a assistir a uma discussão digna de reality show

No dia 2 de janeiro iniciaram-se os debates para as eleições legislativas, que se realizam no próximo dia 30, entre os líderes dos partidos com assento parlamentar. São 30 debates que foram sendo transmitidos ao longo de quinze dias nos diferentes canais de televisão.

O formato escolhido resultou da negociação entre os partidos políticos e as estações de televisão. Estamos na véspera do último debate e isso permite-nos dizer que em nada engrandeceram a democracia.

O tempo definido para cada debate, ronda os 25 minutos, sendo que cada candidato toma a palavra no máximo 12 minutos, repartido entre 5 ou 6 intervenções. O tempo destinado a cada um dos intervenientes é claramente insuficiente para expor uma ideia sobre temas complexos da governação do país, tais como, saúde, segurança social, justiça, economia, entre muitos outros. É impossível em dois minutos conseguir esclarecer os cidadãos de uma proposta em concreto, durante esse tempo, nem a proposta consegue ser explicada, quanto mais concretizar como será colocada em prática.

A curta duração dos debates evidência algumas caraterísticas próprias de um líder, tais como, o pensamento rápido, o desembaraço, o repentismo e a capacidade de argumentação, mas impede que se transmita de uma forma coerente e clara, para que todos os que estão me casa possam compreender, o que diferencia cada um dos partidos políticos em temas determinantes para a vida das pessoas.

Este formato privilegia a forma de comunicação de cada candidato, em detrimento da qualidade do conteúdo da mensagem e beneficia a linguagem de ataque quase bélica e ofensiva, onde na maioria das vezes as tricas partidárias e os ataques pessoais se sobrepõem às propostas de cada líder para o país.

Os mais distraídos podem até ter-se questionado se de facto estavam a assistir a um debate sério, entre líderes políticos ou se estavam a assistir a uma discussão digna de reality show – onde o principal desestabilizador foi André Ventura.

Pela sua personalidade e forma de estar, André Ventura foi o que mais beneficiou deste formato, talvez também pela sua experiência em debates futebolísticos, que o habituaram ao confronto irracional tão caraterístico no mundo do futebol.

Mas porquê um tempo tão reduzido para os debates? Como sabemos tempo é dinheiro em televisão. Os debates são transmitidos em direto, na maioria das vezes, em horário nobre, onde o valor dos espaços publicitários são mais elevados. Estar a transmitir durante uma hora um debate político, pode representar perdas alguns milhares de euros para as estações televisivas.

Conseguimos compreender que esta lógica seja defendida pelas televisões privadas, onde o lucro prevalece muitas vezes sobre o interesse público. O que é difícil de perceber e aceitar é onde está o serviço público que a RTP tem a obrigação de prestar. A RTP é financiada por todos os portugueses, não pode ter uma conceção igual à dos privados, o que significa que o serviço público tem de ser a sua maior preocupação.

Para além disto, a RTP deveria ter uma postura diferente sobre esta matéria, porque não existe informação mais nobre para a democracia que o esclarecimento dos projetos que os partidos apresentam às eleições, até porque a maioria dos portugueses não lê nenhum programa eleitoral, o que vem evidenciar a necessidade da RTP contribuir para o esclarecimento de todos os eleitores.

Este formato não defende a democracia, essencialmente, porque não esclarece/informa devidamente os eleitores e deteriora ainda mais a imagem dos políticos porque o “espetáculo” protagonizado pelos candidatos não é digno do lugar que ocupam o que faz com que as pessoas se afastem ainda mais da política.

Entenda-se que não queremos defender o formato do célebre debate entre Álvaro Cunhal e Mário Soares, em 1975, que durou quase quatro horas, mas sim um formato mais equilibrado, como aconteceu no debate de ontem, entre Rui Rio e António Costa, onde os intervenientes tiveram a possibilidade de apresentar algumas das suas propostas e concretizá-las.

Com o formato adotado ficou a perdeu a democracia e ganhou a abstenção e o populismo. Que se aprenda com o passado para não repetir no futuro!

 

 

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