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Da serena viagem de liteira ao espalhafato dos carros com bandeira

Da serena viagem de liteira ao espalhafato dos carros com bandeira

António Pinho Cardão 14/01/2022 09:25

António Joaquim era um conversador e a propósito de tudo e de nada lá soltava mais uma história. O povo até o quisera no Parlamento, pela sua “aptidão para estudos económicos e falar correntemente e ao nível do entendimento popular”.

Em viagem de Vila Real para o Porto montado num cavalo que à fraqueza congénita juntava inultrapassável desfalecimento pela longa jornada, Camilo Castelo Branco parou junto à estalagem de uma “póvoa escondida nos fraguedos do Marão chamada Ovelhinha”, perto de Amarante. Vendo uma liteira e perguntando se “ia de retorno”, o liteireiro respondeu que “levava patrão”.

Providencialmente logo soube que o patrão era o seu amigo António Joaquim, “proprietário, casado e residente numa das suas quintas nas cercanias de Braga. Estudara para Bispo. A sua santa mãe sonhara que seu filho havia de pôr mitra…”, que de imediato o convidou para passageiro, já que para o Porto também se dirigia.

Começam aí as admiráveis histórias do livro Vinte Horas de Liteira, sucessivamente encadeadas umas nas outras ao longo do percurso, Amarante, Penafiel, Valongo, ao estilo das Mil e Uma Noites, só que com personagens bem reais e que apenas a chegada à Boavista fez terminar.

São essas histórias um repositório vivo desse Portugal minhoto, transmontano e portuense, com as suas gentes, fidalgos e morgados, agricultores, feitores e trabalhadores rurais, comerciantes, abades e frades, funcionários, conselheiros e desembargadores, absolutistas e liberais, mulheres submissas ou arrojadas, conventos e casas de má fama, rezas e feitiçarias, costumes e lendas, autêntico tratado de etnologia e etnografia. E de relações sociais sempre incompreendidas nas teorizações dos actuais sociólogos, tão escravos do seu mundo virtual como os prisioneiros da alegoria da caverna de Platão.

António Joaquim era um conversador e a propósito de tudo e de nada lá soltava mais uma história. O povo até o quisera no Parlamento, pela sua “aptidão para estudos económicos e falar correntemente e ao nível do entendimento popular”.

Entretanto anos passaram, e modernas e velozes liteiras povoam as novas autoestradas do país, onde os ministros do reino, medindo a sua importância pelo limite de velocidade excedido, se fazem transportar em assumida contravenção para comícios eleitorais, inaugurações de guindastes ou eventos agendados ad-hoc, em busca de mais uma presença nos telejornais, pretexto de mascarar trabalho com exibição.

Mas se a liteira se desgoverna e fere alguém nas bermas do caminho, logo passam de patrões a passageiros com bilhete comprado na hora e se demitem de qualquer sentimento visível de solidariedade para com a angústia de vítimas e liteireiros, povo assim deixados à sua sorte.

Para eles falar correntemente e ao nível do entendimento popular é ter o povo sempre na boca, mas longe do coração.

E ainda tão longe que, na defesa de cega e intolerável ideologia, o abandonam em intermináveis filas de espera para consultas, internamentos e operações cirúrgicas e lhe vedam o tratamento num hospital disponível, ali ao lado.

E se as aptidões económicas de António Joaquim ficavam bem patentes nas histórias que contava, já o engenho económico de muitos dos políticos de agora tem a sua mais lídima expressão no esbulho dos contribuinte e nos atentados grosseiros à competitividade económica. Chegando mesmo a promover o encerramento de unidades industriais para confirmar Portugal como o campeão europeu da descarbonização e a festejar como “uma questão menor” o desemprego assim criado, reles demagogia num país que nada polui. Sempre o povo longe do coração!

Em contraste, nas bem humanas histórias de António Joaquim os personagens evidenciavam vivo compungimento para com os acidentados da vida ou para quem ela foi madrasta, ou até aproveitavam as lágrimas de chorar “com dores nos ossos…”, para expressar os seus sentimentos de compaixão…

Num momento de transição entre histórias, recordam António Joaquim e Camilo os rapazes que há anos foram a “aura da juventude desta terra”.

Também eu, ao olhar para muitos dos actuais governantes, recordo a aura de rapazes de há anos atrás, como Sá Carneiro, para quem “a política sem risco é uma chatice; sem ética, é uma vergonha”.

Bela evocação nos traz as Vinte e Quatro Horas de Liteira!

 

Empresário e Gestor

Subscritor do manifesto Por Uma Democracia de Qualidade

pcardao@gmail.com

 

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