23/01/2022
 
 
Pedro Vaz 11/01/2022
Pedro Vaz

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Escolhas

Após uma semana de debates entre os líderes dos partidos com representação parlamentar em modo “speed dating”, infelizmente direcionados no essencial para o “soundbite” e cuja análise, por parte das televisões e jornais, se detém num estilo desportivo de vencedor/derrotado, o escrutínio das propostas políticas apresentadas aos eleitores é bastante reduzido.

Apesar disso, estes debates têm sido úteis para constatar a abissal diferença entre o que move os partidos de esquerda e os da direita política.

Já se sabe que para muitos a diferença entre esquerda e direita é coisa do passado e que se vive numa espécie de mundo pós-ideológico em que a ação política é determinada pelo mediato e desconexa de uma qualquer visão de sociedade e sua evolução. Eu tendo a refutar tal visão, considerando-me, neste particular, uma espécie de conservador ideológico, que continua a encontrar diferenças substanciais nesta dicotomia direita-esquerda de inspiração Bobbiana e, em consequência disso, nos seus programas políticos, ainda que muitas das vezes ocultados ou escondidos atrás dos arbustos, com o intuito de granjear mais alguns votos, mesmo que por engano.

Quando discutimos, em Portugal, as propostas dos partidos políticos para a saúde, a economia, a tributação, a educação, o ambiente, elas encontram-se enformadas desta visão de sociedade em que para a esquerda “os homens são mais iguais do que desiguais” e para a direita em que “os homens são desiguais apesar da sua semelhança”, pelo que as soluções preconizadas quer por uns, quer por outros, são bastante diferentes, pois partem de pontos de partida distintos. Para uns (esquerda) as desigualdades radicam particularmente na construção social e para outros (direita) as desigualdades resultam da essência das coisas.

Apesar de ser de esquerda e considerar que as políticas a aplicar na sociedade devam ser direcionadas em primazia para a redução das desigualdades, por via da intervenção da comunidade socialmente organizada (Estado), não deixo de considerar que outros, com toda a legitimidade, poderão pensar de forma diferente, desde que dentro do quadro democrático de um Estado de Direito, sem que isso os torne, imediatamente, más pessoas, neste mundo exageradamente maniqueísta do sectarismo político-partidário e das hordas das redes sociais.

Portanto, das parcas discussões que vamos assistindo sobre as funções sociais do Estado e daquilo que já é conhecido dos programas eleitorais dos principais partidos candidatos nas eleições legislativas, a discussão é mesmo que tipo de sociedade queremos no futuro.

Se acreditamos que o setor privado assegura de forma melhor e com menos custos para o cidadão a prestação dos cuidados de saúde e um sistema educativo que permite as mesmas oportunidades a todos independentemente de quem são os pais ou os avós, um pouco como o que existe nos Estados Unidos, votamos num dos partidos da direita portuguesa. Se acreditamos que o Estado é quem melhor garante saúde universal, tendencialmente gratuita e acessível a todos independentemente da idade ou do sítio onde more, votaremos num dos partidos de esquerda.

Se acreditamos que os nossos descontos para a reforma devam ir para fundos de investimento e capitalização, como aqueles que foram à falência aquando da crise financeira de 2008, deixando milhões sem reformas um pouco por todo o mundo, votaremos na direita, se, por outro lado, achamos que um sistema público de pensões e reforma fazem parte do contrato social de uma comunidade decente, votaremos à esquerda.

Por fim, se achamos que os impostos são um esbulho ou espólio inaceitável, votaremos à direita, se entendermos os impostos como a contribuição progressiva daqueles que mais têm e podem para a construção de uma sociedade mais digna, votaremos à esquerda.

Em suma, ao contrário do que a direita quer fazer crer, não é indiferente ao português comum quem presta os cuidados de saúde ou que escola frequenta ou para onde faz os descontos para a reforma. No presente dia poderá até parecer que é. No entanto, amanhã é que a questão será outra e nem todos poderão pagar tratamentos oncológicos dispendiosos se não houver uma comunidade que através dos seus impostos ajudem aqueles que não podem pagar. Se o Estado deixar de ter receitas para pagar as funções sociais, se ele (Estado) as não as exercer e as “concessionar” a privados, todos sabem como acaba a estória… e é quase tão antiga quanto a humanidade.

Pedro Vaz 

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