23/01/2022
 
 
José Paulo do Carmo 07/01/2022
José Paulo do Carmo

opiniao@newsplex.pt

Sabor a casa

Por entre puritanos do vegetal e amantes da comida sempre igual “do bairro” ou “da esquina”, os restaurantes típicos de comida portuguesa, outrora presenças notadas e reconhecidas das ruas e ruelas do nosso país, tendem a acabar. Não há semana que passe que não veja um já de porta fechada ou em obras com imponentes letreiros neon. Uns vão-se pela idade avançada dos seus donos, outros por falta de clientela ou dificuldades em adaptarem-se “aos novos tempos”. Falo dos bons claro, dos que tinham qualidade e higiene, que compravam produtos portugueses e se forneciam em hortas muito mais saudáveis que o novo biológico que aparece como tema principal na publicidade de vários restaurantes.

Recordo-me do tempo em que era ainda uma criança e o meu avô se escapava meio às escondidas para a tasca do lado, mesmo contra vontade do médico e da minha avó, para comer aqueles petiscos que hoje em dia são quase proibidos. Lá em casa, por influência da família nortenha, comia-se comida de tacho e sempre as elegi como as minhas preferidas. O cozido era prato obrigatório pelo menos uma vez por mês, ao domingo, mas também a feijoada com couve, arroz branco e a farinheira (que fazia questão de procurar por entre os enchidos) ou o maravilhoso rancho que ainda hoje peço à minha mãe para fazer, com massa de cotovelo, grão de bico e as carnes, tudo com uma pitada de cominhos. Dobrada, fatias recheadas, rojões à moda do Minho, alheiras ou bacalhau de todas as maneiras e feitios. Couvinhas, que era um prato que a minha avó fazia com broa, couve, feijão branco e batata, tudo misturado tipo migas e que acompanhava as pataniscas de bacalhau. Já nem falo das sobremesas… Ali a refeição era um evento, um momento importante de convívio, um espaço de conversas e de relacionamentos.

Fui mal habituado, eu sei. É por isso que sinto saudades de tantos sabores. Ou que sinto nostalgia sempre que entro num desses espaços de bairro onde se cortam batatas caseiras e o perfume que sai da cozinha traz com ele memórias de outros tempos. Não que tenha alguma coisa contra quem só quer comer espinafres e rúcula, ou quem se habituou a comer sempre com o mesmo sabor independentemente do espaço, com batatas congeladas e tabasco em vez de piri-piri. Eu é que cada vez tenho mais dificuldades em encontrar esses pratos tão típicos e que me são tão familiares, porque hoje em dia o que se quer são hambúrgueres e pizzas de todos os feitios e sabores ou comida gourmet que vem muito bem empratada em ambientes muito modernos mas que não me satisfazem como me satisfazia abrir aquelas panelas de barro com a comida ainda a borbulhar, até porque eu ainda não como ambientes e dá-me imenso prazer comer bem.

Eu continuo a gostar de entrar numa tasca ou cervejaria e de me sentar sozinho ao balcão (enquanto bebo uma imperial e como um rissol ou um pastel de bacalhau) a ouvir as conversas e os piropos que se trocam entre empregados, patrão e clientes. Tenho pena que restaurantes como a Casa Aleixo no Porto (Campanhã) ou a Tasquinha d’Adelaide em Lisboa (Campo de Ourique) não possam continuar a fazer parte do imaginário de tantos que como eu gostam de pratos tradicionais, da comida da avó, do tacho de barro. E é uma pena que com cada vez mais turistas se percam estes espaços de portugalidade, que são bem demonstrativos da nossa essência e da nossa arte. Era bom que pelo menos alguns se mantivessem para que pudéssemos revistar a nossa infância e sentir aquele sabor a casa.

Os comentários estão desactivados.


×

Pesquise no i

×
 


Ver capa em alta resolução

iOnline