23/01/2022
 
 
Rui Patrício 07/01/2022
Rui Patrício

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1922, o tempo longo - I

Até temo que alguma coisa de 1922, em síndrome de tempo longo, se repita ou reviva em 2022. 

Em crónica inaugural de 2022, talvez fosse de esperar que escrevesse umas linhas sobre a covid longa (ou mesmo só sobre a covid e suas atrevidas variantes), sobre alguma outra coisa up to date, ou – como em tempos se dizia muito – sobre algo que esteja in. Ou, então, deveria alinhar desejos e votos para o novo ano, começando, bem entendido, pelo ambiente, passando pela inclusão e acabando, claro, na paz e nas crianças. Mas não estou para aí virado, embora, qual miss universo lacrimosa, queira sobre todos esses temas o melhor e o mais belo. Dá-me mais, por estes dias, para olhar para há cem anos, certamente sob a influência da leitura do segundo volume da obra de António Scurati sobre Mussolini.

Vou lendo, e ao mesmo tempo recordando o primeiro volume (lido há cerca de um ano), e não deixa de me bailar na cabeça que a maior mestra de todas é a História. Tanto em 2021 poderia ser, mais coisa menos coisa, de 1921 (e dos anos anteriores), que até temo que alguma coisa de 1922, em síndrome de tempo longo, se repita ou reviva em 2022.

Bem sei que o grande pensador grego dizia que nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio, mas há banhos que soam muito a déjà vu. Essa é que é essa, e, mais do que cidadania e outras importantes modernices, devíamos estudar História e colar no frigorífico ou no espelho do WC um post-it com meia dúzia de traços que sempre voltam, andam por aí e voltam, pois se é verdade que nada se perde, nada se cria, tudo se transforma, não é menos certo que, no que toca ao essencial da natureza humana (singular e coletiva), só há transformação na casca, o miolo tende a ser o mesmo. A inovação está na moda (innovation – soa melhor na língua franca), não há aliás coisa mais in, mas na polpa e sobretudo no caroço inova-se pouco ou nada, o essencial é sempre igual, por muito atavio e anglicismo que lhe possam pôr em volta - seja por parolice, por manha ou por verdadeira (mas ingénua) boa intenção.

M, Mussolini, O Filho do Século, e M, Mussolini, O Homem da Providência, de António Scurati (tradução para Português de Miguel Freitas da Costa), são, em meu juízo, ótimos livros. Discute-se se é ensaio ou ficção ou um misto de ambos, talvez outra coisa qualquer; mas pouco importa, creio. Vale a pena ler, e atentar bem. Escreve o autor, no segundo volume (providencialmente intitulado “o homem da providência”, tão apropriado a cem anos depois – o tempo longo, pois é –, quando gente providencial vai, outra vez, sendo tão querida e vai surgindo, aqui e ali, uns mais óbvios, outros mais sub-reptícios, e não sei se deva temer mais os primeiros ou os segundos): “Eis o que resta da liberdade, daquela ilusão verbal oferecida aos ingénuos de que tanto se fala em democracia. Mas a democracia, no fundo, não pode senão falar. Vive da palavra e pela palavra. Em tempos de crise, contudo, os povos não pedem propaganda, pedem ordens. O tempo das discussões inúteis deve dar lugar, então, ao tempo da obediência.” E, também no mesmo volume, escreve-se: “Ser o chefe dos descontentes. Eis o caminho. (…) Quando fundou os Fasci di Combattimento, em 1919, Benito Mussolini foi o primeiro a intuir que, na era das massas, escancarada diante dele como a porta de uma antiga mansão em ruínas, ia afirmar-se uma paixão política mais poderosa do que a esperança: o medo e, agarrando-se a ele, tinha-se içado ao poder. (…) … com o novo século a esperança tinha sido suplantada pelo medo. E, com ele, pela desilusão, pelo desconforto, pela desorientação, pela sensação de derrota, de terem sido traídos, de desqualificação, até à acrimónia, ao rancor, à fúria vingativa.” Pois é, pois é, convém estarmos com atenção, não vá o Diabo novamente tecê-las. (Continua)
 
Escreve quinzenalmente à sexta-feira

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