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Júlio Machado Vaz: "Bombardeados por estímulos, tornamo-nos animais que reagem em vez de agir"

Júlio Machado Vaz: "Bombardeados por estímulos, tornamo-nos animais que reagem em vez de agir"

Marta F. Reis 01/01/2022 13:51

Dispensa apresentações como psiquiatra e sexólogo, leva mais de 40 anos de consultório, cedo a quebrar tabus, e é presença diária na Antena 1  na rubrica o Amor é, onde ao lado de Inês Meneses navega pelo quotidiano das relações. 

Numa conversa de balanço do ano, o psiquiatra e sexólogo Júlio Machado Vaz fala das emoções e das culpas que não se podem assacar só à pandemia. Estará a ficar mais otimista? Pelo menos a saborear ‘cada naco’ da vida, sim. Numa entrevista publicada este fim de semana na edição do semanário Nascer do SOL, diz que os mais novos sofrem mais com a ansiedade do presente e os mais velhos sentem que a pandemia lhes vai tirando tempo. Mas se há um registo de vida frenético, e outros problemas latentes no país, as responsabilidades não são só do vírus.

O Presidente da República escreveu há dias que 2021 foi um ano muito estranho. Concorda?

Não sei se foi só o ano. Já vínhamos de trás com um sentimento de estranheza. Para muito de nós o que aconteceu foi pensarmos que isto seria uma situação desagradável, trágica, mas que seria de curta duração se tomássemos as devidas precauções, aqueles que decidiram tomá-las. E 2021, e dentro de 2021 esta última parte, foi de desencantamento. Primeiro percebemos que as coisas não iam voltar àquilo que se convencionou chamar de normal tão depressa quanto isso e, agora, tivemos esta má notícia de uma nova variante, que aparentemente embora seja muito mais transmissível pode ser menos grave mas ainda não sabemos. Isto chega numa altura em que a sociedade está muito cansada e os profissionais de saúde estão exaustos. Faz lembrar quando era miúdo aquela ideia dos carrinhos de choque: ‘Vamos lá dar mais uma voltinha’. Acho que neste momento ninguém se atreve a dizer que este foi o último Natal sem problemas. Há para muitos a sensação de que isto nunca mais acaba.

Foi um problema de gestão das expectativas ou é a nossa dificuldade em lidar com a imprevisibilidade?

As duas coisas. Não deixa de ser curioso porque esta reação inscreve-se naquilo que os psiquiatras e psicólogos dizem acerca do stresse. Muitas vezes um stresse violento mas de curta duração em termos de consequências psicológicas acaba por se suportar melhor do que um stresse menos intenso mas de longa duração, e foi nisso que isto se tornou. Já não estamos perante uma crise de curta duração.

Para a maioria de nós, é uma crise inédita no nosso tempo de vida. 
É. Em 2020 ainda ouvimos alguns sobreviventes da pandemia de gripe espanhola, mas para a maioria de nós é. Desde o início tem sido verificado pelos colegas que fazem investigação que essa ansiedade e desencanto tem dimensões diferentes nas diferentes faixas etárias e parece afetar mais os mais novos. No início, até por se salientar que eram o maior risco, havia talvez a expectativa de que fossem os mais velhos a manifestar mais problemas de ansiedade e depressão, mas não foi isso que vimos, o que de certa forma tem lógica. Os mais novos estão muito ansiosos com o presente. Não falo sequer das crianças pequenas, para quem não estar na escola e com os amigos foi muito mau, mas daqueles que já têm uma maior consciência de si e que sentem roubados no presente e no futuro. Pensam como vou planear o meu futuro assim? Têm muito mais razões para um fundo ansioso do que nós, os mais velhos, que para todos os efeitos já vivemos a nossa vida. O que tenho ouvido dos mais velhos é mais aquele ‘caramba’, ainda que no Porto não se diga caramba, mas ‘caramba, estão a roubar-me os últimos anos da minha vida, quem sabe o último’. E é curioso que, para alguns de nós, isto fez olhar para trás e desenvolver uma certa dose de culpa, nomeadamente os workahólicos, que vinham a adiar o abrandar do ritmo porque ainda era preciso isto e aquilo. E agora pensa-se: ‘E se já não vou a tempo?’

Leia a entrevista completa no Nascer do SOL.

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