03/12/2022
 
 

Será Rio o Verstappen da política portuguesa?

Na decisiva corrida de janeiro, o líder do PSD pressiona um Costa desafinado, mas que parte à frente.

1) O congresso do PSD decorreu sob uma aparente pacificação. Os discursos foram formalmente de unidade, mas percebeu-se que a divisão habitual entre PSD e PPD (dicotomia simplista, mas real) está lá. Os resultados dos atos eleitorais internos confirmaram-no. Rio venceu, mas não convenceu todos. Só será o líder indiscutível se ganhar a 30 de janeiro. Até lá, não tem maioria direta no Conselho Nacional (tem de contar com apoios de listas de subordinados que ele próprio gerou). Mota Pinto ficou-se por 57% de votos para a mesa do congresso, face a um combativo Pedro Rodrigues. Significativa da divisão foi a vitória do plebeu Paulo Colaço (o ódio de estimação de Rio e Adão Silva). Voltou a ganhar o conselho de jurisdição. Bateu Morais Sarmento, destacado membro da aristocracia rioísta e social-democrata. No encerramento, Rio foi contundente. Fez críticas bem estruturadas aos governos de Costa. O diagnóstico foi realista, arrasador e arrepiante, ainda que haja aspetos negativos no nosso desenvolvimento que não podem ser apontados a qualquer governo como os que resultam da nossa periferia natural. Em relação ao futuro, Rio serviu ao país um discurso genérico, sem objetivos concretos. Deixou de fora o reformismo estrutural que é matriz do PSD. Percebe-se porque, como sucedeu com Moedas em Lisboa, sempre que anunciar uma medida concreta vai enfrentar uma onda de críticas vindas de todas as oposições e comentadores. Rio optou pelo discurso “miss mundo” do qual, neste espaço, se falou negativamente há oito dias. Talvez por isso cada um interpretou o que ele disse à sua maneira. O Chega ficou radiante. O CDS acha que ele se aproximou do PS. O PS refere que Rio se chegou a Ventura. E o Bloco considera que o PSD está agora mais perto da extrema direita. Provavelmente era isso que o orador queria.

2) Tudo somado, Rui Rio está agora numa boa posição na grelha de partida para as legislativas. Segundo as sondagens, que ele acha manipuladas e encomendadas, está colado a António Costa. A ser assim, vamos ter uma corrida louca até ao dia das eleições. O duelo Costa/Rio trava-se a dois, com “teams” fortes na afinação das máquinas. Costa é o campeão em título, o que lhe confere vantagem aparente. Rio é uma espécie de Verstappen. Rápido, irrequieto, com manobras arriscadas, pouco afável, mas com muitos fãs. Costa tem a escola toda e não hesita em ser agressivo quando acossado. Qualquer um deles pode sagrar-se campeão individual. Já no jogo das equipas pode não ser bem assim. Como se viu na Fórmula 1 e na geringonça, ganhar não é sinal de que se consiga o título de construtores de soluções. Costa perdeu e formou governo há cerca de 6 anos. Hamilton perdeu, mas a Mercedes foi campeã do mundo de construtores, batendo a Honda. Na corrida de janeiro, haverá também que ter em conta o papel do comissário de pista Marcelo Rebelo de Sousa. Vamos ver se, face aos resultados, vai condicionar a subida ao pódio governativo. Hamilton da Costa ou Rui Verstappen? Logo se verá! Uma coisa é certa: a corrida vai valer a pena, mesmo que haja poucos espetadores a comprar bilhete.

3) Quanto ao PS, as contas estão feitas antes da prova. As sondagens mantêm-no à frente, embora apertado pelo PSD. Costa terá, fatalmente, de esclarecer qual será a sua posição se tiver de viabilizar ou chumbar um governo do PSD. É um tema recorrente, mas permite-lhe gerir as respostas a conta-gotas, evitando comprometer-se e falar de coisas concretas da governação futura, refugiando-se na propaganda do que fez, designadamente quando o seu ministro das Finanças era um trunfo chamado Centeno.

4) Como aqui se escreveu, eventualmente em primeira mão, há mais de dois meses, Edite Estrela é a figura que António Costa tenciona propor para Presidente da Assembleia da República. Edite é uma estrela do PS e, dentro dele, do socratismo. Era íntima de Pinto de Sousa e foi até sua madrinha de casamento. Nada de mal, a não ser que com tamanha proximidade (ver o artigo de sábado passado de João Miguel Tavares, no Público) era praticamente impossível não estranhar certas coisas que hoje levam a que o afilhado esteja sob um rol de acusações jamais visto. Mesmo que Costa disponha de uma maioria de esquerda na assembleia e o PS seja o partido mais votado (duas coisas que estão hoje longe de estarem garantidas), é de apostar dobrado contra singelo que Edite Estrela vai ter dificuldade em ser eleita pelos seus futuros pares no parlamento. Já bem basta ter sido longo tempo presidente da câmara de Sintra, eurodeputada, deputada e vice-presidente do parlamento. Tudo cargos onde deixou como legado político uma mão cheia de nada.

5) A Certa altura do congresso laranja, as tvs anunciavam freneticamente a hipótese de Santana Lopes aparecer por lá. Era o boneco político do ano! O regresso do filho pródigo! Dava um jeitão a Rio. Apesar de ser um homem emotivo, Santana não apareceu. É verdade que o PPD não saiu dele. Mas uma coisa é voltar, outra é sujeitar-se a ser apresentado como um troféu. Goste-se mais ou menos do ex-líder, a verdade é que este não seria o momento para o inevitável regresso. Além disso, a Aliança não foi objetivamente um cisma. Foi uma divergência pontual. A seu tempo tudo se resolverá como deve ser.

6) A total desolação e abandono a que a segurança social pode sujeitar uma pessoa está tragicamente expressa na notícia de um filho, cuidador informal, que se suicidou depois de uma tresloucada tentativa de matar a mãe de quem cuidava, sozinho, sem apoios, dia e noite, na Maia. A mãe, quase centenária, sobreviveu. O filho tinha 59 anos e estava desempregado. Terá ficado desesperado quando soube que a nonagenária não ia passar o Natal a casa de outro filho e que, portanto, ele não iria descansar uns dias. Era um cuidador informal! Mais um entre muitos milhares, que andam à espera de apoio e atrás de promessas de boca há dezenas de anos. Quando se sabe que há gente saudável que vive à conta da segurança social e com bom corpinho para trabalhar, percebe-se que haja quem transforme em voto a sua indignação.

 

Escreve à quarta-feira

 

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