26/05/2022
 
 
José Cabrita Saraiva 10/12/2021
José Cabrita Saraiva
Opinião

jose.c.saraiva@ionline.pt

Um mundo sem fumo mas não tão bom quanto isso

 A intenção pode ser virtuosa, mas não podemos deixar de interrogar-nos que mundo é este que alguns dos países mais civilizados querem criar. Um mundo onde um adulto informado não pode fumar um cigarro, mas em que um adolescente pode exigir, contra a opinião dos pais, mudar de sexo.

Primeiro deixaram de ser permitidos os anúncios. As palavras Rothmans e Marlboro desapareceram dos carros de Fórmula 1 e dos outdoors publicitários. Depois carregou-se fortemente nos impostos. Em seguida, criaram-se uma espécie de aquários, espaços separados para fumadores nos restaurantes e aeroportos.

Até aí tudo bem, fui e sou favorável a quase todas estas medidas. Mas as imagens mórbidas nos maços de tabaco suscitaram-me dúvidas. E quando se começou a privar os fumadores de direitos elementares e a tratá-los como se fossem leprosos admito que não gostei.

Agora, a Nova Zelândia vai mais longe: segundo uma lei que entrará em vigor em 2022, todos aqueles que nasceram depois de 2008 nunca conhecerão o sabor de um cigarro, já que a lei vai ‘atualizar-se’ de ano para ano.

A intenção pode ser virtuosa, mas não podemos deixar de interrogar-nos que mundo é este que alguns dos países mais civilizados querem criar. Um mundo onde um adulto informado não pode (pelo menos legalmente) decidir fumar um cigarro, mas em que um adolescente pode exigir, contra a opinião dos pais, mudar de sexo. Um mundo onde tem de se assinar um termo de responsabilidade para comer um bife mal passado, mas onde as crianças podem viver agarradas a um tablet de manhã à noite (até às refeições). Um mundo onde temos constantemente de vigiar o discurso, não vamos por algum motivo ofender uma qualquer minoria, mas onde alguns proscritos – sejam eles fumadores, não vacinados ou, qualquer dia, heterossexuais – podem ser catalogados de homens das cavernas e tratados como cidadãos de segunda ou de terceira. Um mundo onde os automóveis são todos elétricos e a comida, os políticos e até os seios são de plástico. Um mundo onde não se pode lançar um piropo a uma mulher, mas onde é permitido despedir pessoas através de um ecrã de computador.

Esse mundo não é o mundo do futuro, é a realidade de hoje, com todas as suas incongruências e contradições. E pensar que começa sempre com uma pequena proibição, em nome do bem comum e do progresso. 

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