28/06/2022
 
 
Reino Unido. O que sobra do império britânico?

Reino Unido. O que sobra do império britânico?

AFP João Campos Rodrigues 07/12/2021 14:10

Isabel II continua a ser chefe de Estado de 14 antigas colónias britânicas. Mas o legado do império vai muito mais fundo. Está vivo nas relações dos países colonizados com o norte global, na perseguição aos LGBT+ e no saudosismo que levou ao Brexit, diz a historiadora Deana Heath.

Quando nos lembramos que a Rainha Isabel II ainda é a chefe de Estado de 15 países – só na semana passada, 55 anos após a independência, é que os Barbados finalmente se tornaram uma república, com Sandra Mason a tomar posse como Presidente e a cantora Rihanna a ser declarada heroína nacional – parece que estamos perante um artefacto de um passado distante.

Se hoje EUA e China lutam pelo papel de potência mundial, numa corrida tecnológica e espacial, há pouco mais de um século eram os britânicos que governavam as ondas, mantendo sob o seu jugo mais de 400 milhões de pessoas, então equivalente a mais de 20% da população mundial.

Desse império sobrou a Commonwealth, sombra do antigo poderio britânico. Ficaram laços formais, com a Rainha a exercer o papel cerimonial de chefe de Estado, através dos seus governadores-gerais nos chamados reinos da Commonwealth, como a Austrália, Canadá, Nova Zelândia e uma série de pequenas nações caribenhas ou do Pacífico.

Mas o grande legado do império vive nas relações desiguais das antigas colónias com o norte global, na separação de povos e territórios, numa espécie de subjugação cultural à antiga metrópole, na perseguição aos homossexuais recorrendo a velhas leis coloniais. Bem como na nostalgia que ainda impregna a elite britânica, o saudosismo dos tempos de grande potência que levou ao Brexit, argumenta Deana Heath.

“A Commonwealth definitivamente não é, política ou economicamente, o mesmo que um império formal. Mas, apesar disso, garante que o império continua vivo de muitas maneiras”, diz ao i a investigadora de História Colonial na Universidade de Liverpool, autora do livro Colonial Terror: Torture and State Violence in Colonial India (Oxford University Press, 2021).

Ou seja, a Commonwealth “perpetua a noção, que é influente no Reino Unido e em algumas antigas colónias (particularmente as antigas colónias ‘brancas’, de colonos), de que o império britânico era relativamente benigno”, continua a historiadora britânica. “Nem que seja porque a relação entre o Reino Unido e as suas antigas colónias é apresentada como sendo uma ‘parceria’, não de exploração, e de ‘história partilhada’, em vez de conquista e colonização”.

“Império não acabou quando os britânicos fizeram as malas” “Os sinos do templo, eles dizem, volta soldado inglês”, entoou distraidamente o então ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, Boris Johnson, dentro do pagode de Shwedagon, o mais sagrado templo budista de Rangun, no Myanmar, em 2017.

Tratava-se da Estrada para Mandalay (1892), um nostálgico poema de Rudyard Kipling sobre um antigo soldado inglês, e as saudades que tinha de uma rapariga birmanesa que beijara. “Provavelmente não é uma boa ideia”, avisou o embaixador britânico ao seu ministro dos Negócios Estrangeiros, perante as câmaras do Channel 4, calando-o. É que, no que toca ao período colonial, muitos birmaneses recordam sobretudo os massacres cometidos pelos britânicos, suprimindo sucessivas rebeliões.

No entanto, nem sempre a memória se mantém tão viva e o sentimento anticolonial tão forte, salienta Deana Heath. Por um lado, “para garantir que os crimes coloniais ficavam por punir, os britânicos usaram táticas que iam da destruição de documentos a colocar outros num arquivo secreto no Reino Unido, que o Governo britânico só admitiu que existia em 2011”, lembra a historiadora.

Por outro lado, “as ligações culturais entre o Reino Unido e as suas antigas colónias são muito profundas. O que tem sido ajudado pelo facto de as lideranças nacionalistas, os grupos que receberam o poder dos britânicos, serem maioritariamente falantes de inglês e terem uma educação ocidental”, explica. Aliás, para muitos autores, a literatura inglesa foi usada com “máscara de conquista”, uma maneira de “afastar a atenção da brutal natureza do controlo colonial”, reflete. “Este é um exemplo de porque é que o império não acabou quando os britânicos fizeram as malas e partiram”.

Mas esse não é o seu único legado, continua. “Os sistemas políticos e económicos globais certamente replicam as dinâmicas de poder coloniais”, continuando o norte global amplamente dependente das matérias-primas do sul, enviando de volta produtos – financeiros, tecnológicos, industriais – de valor acrescentado.

Os mecanismos que os britânicos deixaram para trás para manter controlo sobre as suas antigas colónias – como a partição de territórios “produto das políticas coloniais de dividir para reinar”, descreve Heath, para “garantir que mantinha, ‘aliados’ com quem podiam trabalhar – não ajudam. No caso da partição da Irlanda, causou uma brutal guerra civil, que durou intermitentemente até ao final dos anos 1990. E ainda houve partição da Índia e do Paquistão – que virariam potências nucleares rivais, deixando o mundo à beira do abismo – e da Palestina, que continua a ser fonte de instabilidade no Médio Oriente.

Outros legados coloniais são menos óbvios, como a generalização da perseguição a pessoas LGBT+. Ao contrário do que se costuma imaginar, não era norma em todos os territórios colonizados antes da chegada dos britânicos. Na Índia, por exemplo, as hijra – hoje chamar-lhes-íamos mulheres trans – tinham um papel respeitado em certas culturas do subcontinente, funcionando quase como sacerdotisas. Mas tudo desapareceu com a introdução da moral Vitoriana, “os britânicos exportaram as suas normas de género por todo o mundo, tornaram-nas lei, porque o género era crucial para o projeto colonial”, explica Heath. “Era, em parte, por outras palavras, a chamada missão ‘civilizadora’ britânica”.

Agora, não são só os Barbados a quererem livrar-se da Rainha Isabel II, símbolo de um império morto mas por enterrar. Na Jamaica, um ponto focal do tráfico negreiro e produção de açúcar que enriqueceu o império, à semelhança dos Barbados, o tema é cada vez mais discutido. Já na Austrália, chegou a haver um referendo em 1999 – 54.9% dos australianos votaram a favor de manter a rainha como sua chefe de Estado.

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