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Os perigos do Instagram. "Comparamos os nossos bastidores ao palco dos outros"

Os perigos do Instagram. "Comparamos os nossos bastidores ao palco dos outros"

Dreamstime Maria Moreira Rato 06/12/2021 19:03

Quarta-feira, Adam Mosseri, líder do Instagram, vai responder perante o Congresso dos EUA devido aos efeitos da aplicação na saúde mental das crianças e dos jovens. Que lado menos bom é este?

Todas as manhãs, assim que abre os olhos, Clara (nome fictício) pega no telemóvel. Nem sequer precisa de procurar muito, pois o mesmo fica quase religiosamente pousado na mesinha de cabeceira que tem ao lado da cama. Faz um scroll lento, para “apreciar bem tudo”, pelas redes sociais, mas é o Instagram que capta a maior parte da sua atenção. Já não vive sem as notificações de likes e mensagens privadas. Afinal, apesar de ter estudado Direito numa instituição de Ensino Superior situada no Norte do país, é a moda que constitui a sua paixão e ainda tem a esperança de se tornar numa influencer. 

“Primeiro, comecei no YouTube e o meu canal tinha muitos subscritores. O problema é que quase todos aderiram ao Instagram e foram-se esquecendo dos espaços virtuais mais tradicionais. Ver um Reels ou uma Story no Instagram, por exemplo, é bem mais rápido do que aceder ao YouTube, procurar os canais que correspondem aos nossos interesses, ver um vídeo longo… Até entendo a mudança”, explica a jovem de 26 anos que partilha fotografias da indumentária que usa, sonhando com o patrocínio de marcas. “Ainda não cheguei a esse patamar, mas penso que não falta muito”.

Enquanto Clara verifica, com entusiasmo, se obteve mais seguidores durante a noite, Raquel (nome fictício) evita esta rede social desde que se levanta. “Sempre tive problemas de autoimagem e seguir determinadas contas não me faz bem. As pessoas podem perguntar: ‘Então, mas por que motivo ainda as segues?’, mas, honestamente, não consigo responder”, conta a jovem de 21 anos finalista de um curso na área da Saúde que teme revelar a identidade por quase ninguém saber as batalhas que trava. 

“Quando era mais nova, tinha excesso de peso. Estou a falar de cinco, dez quilos, nada que fosse grave para a maioria das pessoas. Só que comecei a levar isto ao extremo quando fiz 13 anos”, conta, confessando que, durante toda a adolescência, comeu pouco ou quase nada. “Os meus pais aperceberam-se porque as minhas roupas foram ficando cada vez mais largas. Nada me assentava como deve ser. E inventava todas as desculpas do mundo para não jantar com eles e com os meus irmãos mais novos. Dizia-lhes que tinha comido demasiado ao almoço e ao lanche, que estava mal disposta por causa do período… Enfim”, diz, suspirando e avançando que no Instagram encontrou numa comunidade que a apoiou, isto é, incentivou a ter uma relação conturbada com a comida.

“Existem hashtags [deliberadamente ocultadas com o objetivo de não prejudicar ninguém] através das quais é possível chegar até às pessoas que pensam exatamente da mesma forma que nós. Foi assim que conheci as minhas ‘amigas’ pró-ana e pró-mia”, afirma, referindo-se às restantes raparigas que, tal como ela, padecem de anorexia e bulimia, respetivamente. “Nos primeiros anos, quase não me alimentava. Chegávamos a ter desafios e a menina que passasse mais tempo sem comer durante x dias era adorada por todas. Agora, que já aprendi as técnicas para vomitar, costumo comer aquilo que me apetece quando estou em casa. Porque posso pôr os dedos na garganta à vontade”.

A naturalidade com que Raquel fala da forma como o Instagram contribuiu para o desenvolvimento dos seus distúrbios alimentares e deterioração da autoimagem contrasta com a felicidade que Clara evidencia. “Não vou mentir: cada like, cada comentário, cada partilha são quase como massagens ao ego. Penso que acreditaria muito menos em mim se não tivesse este meio de expor os meus gostos. Tenho uma comunidade composta, acima de tudo, por mulheres e raramente me sinto mal com as interações que temos. Ajudam-me a ter uma autoestima forte”. 

Contudo, reconhecendo que não quer realçar em particular os pontos negativos do Instagram, já passou por situações pouco agradáveis. “Como eu não tenho patrocínios e simplesmente partilho os meus looks, não tendo hiperligações diretas para as peças de roupa e para os acessórios, há pessoas que vão à procura de, imaginemos, determinada mala que uso ou um casaco com o qual apareço” e algo surpreendente acontece: se Clara opta por um conjunto mais económico, perguntam-lhe como é que pensa que chegará a influencer sem ter hipóteses para adquirir produtos mais caros.

Por outro lado, se há alguma peça com um preço considerado elevado, acusam-na de mostrar a construção de um estilo que a maior parte das jovens portuguesas não tem por falta de recursos financeiros. “Já estou habituada. Não tenho milhares e milhares de seguidores como as verdadeiras influencers, mas alcancei um número considerável e, por isso, quando estou cansada de ser bem-educada, apago os comentários e nem sequer leio a maioria dos pedidos de mensagem. De outra forma, seria demasiado tóxico”.

“Há um mundo virtual que não corresponde àquilo que acontece” As histórias de Clara e Raquel assumem uma importância particularmente relevante a dois dias de Adam Mosseri, líder do Instagram, responder perante o Congresso dos EUA. Segundo informação veiculada pelo New York Times, esta convocação prende-se com o efeito desta plataforma na saúde mental das crianças e dos jovens. Sobretudo, do género feminino. Tal acontece porque esta foi uma das questões frisadas por Frances Haugen, antiga funcionária do Facebook, quando deu a conhecer documentos internos da empresa à equipa do Wall Street Journal. 

A primeira peça foi publicada em setembro e toda a investigação assenta no facto de que o Facebook conduziu estudos internos sobre como o Instagram tem afetado os utilizadores mais novos nos últimos três anos. Embora as descobertas apontem para que o Instagram seja prejudicial para uma grande parte da população mais jovem, importa salientar que as adolescentes estão entre as mais prejudicadas. “Afetamos a imagem que uma em cada três raparigas tem do seu corpo”, lê-se, sendo que se percecionou igualmente que 14% dos rapazes norte-americanos também foram afetados, enquanto a percentagem de raparigas é muito mais elevada: 32%.

Um dos casos relatados vai ao encontro do de Raquel. Anastasia Vlasova, de 18 anos, começou a usar o Instagram aos 13 anos e, ao passar até três horas diárias no mesmo, desenvolveu um distúrbio alimentar. “Quando ia ao Instagram, só via fotografias de corpos esculpidos, abdominais perfeitos e mulheres que conseguiam fazer 100 burpees em 10 minutos”, explicou. “Apercebi-me de que o Instagram estava a amplificar o meu distúrbio alimentar. Foi aí que fiz a ligação entre as redes sociais e a minha saúde mental” e, por isso, atualmente, não usa as redes sociais e é acompanhada por um psicólogo. 

Este panorama não surpreende Carolina Lemos, mestre em Psicologia pela Universidade de Lisboa. “Na altura em que ia começar a fazer a tese, queria algo que se relacionasse com as necessidades psicológicas e que suscitasse interesse. E como, agora, a internet e as redes sociais estão tão presentes na nossa vida achei que podia o caminho a seguir. Que impacto é que isto vai ter na saúde psicológica das pessoas? Fazia todo o sentido entender”, começa por esclarecer, em declarações ao i, adiantando que “na investigação científica, o uso problemático não é muito abordado em Psicologia, ainda não existe um consenso acerca do que é” e, consequentemente, elaborar a dissertação “Uso Problemático da Internet e das Redes Sociais: Relação com a Regulação da Satisfação das Necessidades Psicológicas e a Saúde Mental”, defendida em 2019, constituiu um desafio.

“Tentei fazer uma compilação do que já existe e há perspetivas diferentes e até contraditórias. Foquei-me mais no uso problemático porque não existem critérios para definir isto no DSM-5 [Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais 5.ª edição]. Isto pode ter implicações em áreas distintas da nossa vida. É algo que tem de ser mais explorado, mas os resultados que obtive demonstraram que, no geral, níveis mais elevados de uso problemático da Internet e das Redes Sociais estão associados a menos bem-estar psicológico e a uma menor capacidade para regular a satisfação das necessidades psicológicas e, por outro lado, a mais distress psicológico e sintomatologia e a uma maior quantidade de tempo passada nas plataformas online”, acrescenta a jovem de 25 anos que, quando terminou o segundo ciclo de estudos, regressou à Ilha Terceira, de onde é natural, e estagiou no Centro de Saúde de Angra do Heroísmo.

“O que no futuro será importante perceber é se as pessoas que têm à partida alguns problemas psicológicos podem ficar mais dependentes ou se as pessoas ficam efetivamente com distúrbios devido a este uso”, remata, adicionando que, ao serem usadas como escape de modo excessivo, as redes sociais podem conduzir à ansiedade, à depressão, ao isolamento social, a problemas de autoestima, a distúrbios alimentares e até a comportamentos autolesivos. 

“Há a idealização da vida das outras pessoas, mas quase sempre só é mostrado aquilo que é positivo. Contudo, penso que se vai publicando aquilo que é real aos poucos”, observa, indicando, porém, que se os utilizadores forem também criticados por serem autênticos, poderão sofrer ainda mais psicologicamente.

“Os likes, os comentários, todas estas funções, têm vantagens e desvantagens. E geram uma certa alienação da realidade porque há um mundo virtual que não corresponde àquilo que acontece. E cada vez mais as crianças começam mais novas a mexer nas tecnologias e há cada vez menos vontade de estar fora dos ecrãs”, finaliza a futura profissional que se encontra em preparação para começar o estágio da Ordem dos Psicólogos. 

“Queremos passar o belo e o perfeito, mas nunca as fragilidades” “Eu uso as redes sociais por gosto a nível de fotografia, da estética e para levar alguma coisa que seja mais do que uma imagem até às pessoas. Posso mostrar que ser padre não me impede de estar nas redes sociais. Não tenho de andar vestido de preto. Sou normal”, afirma Pedro Sousa, de 31 anos, admitido à Ordenação Presbiteral em junho de 2018, em Fátima. 

“Há quem me agradeça e diga que os ajudo e isso dá-me mais alento. Por exemplo, quando vou a uma missa, há idosos que dizem ‘Gostei imenso das suas fotografias’, mas os mais novos têm uma mente mais quadrada e enviam-me textos enormes a dizer que um padre não deve ser assim”, deslinda o jovem que foi crismado, em 2007, na Paróquia da Sé Nova de Coimbra, e frequentou o Seminário Missionário Padre Dehon de 2002 a 2005, completando o 3º Ciclo do Ensino Básico. De seguida, ingressou no Instituto Missionário Sagrado Coração, em Coimbra, e lá permaneceu entre os anos de 2005 e 2008.

“Existem pessoas às quais não respondo porque me provocam, mas quando me enviam aquelas mensagens longas reflito muito acerca das mesmas. Não sei quem está do outro lado. Se eu estivesse numa depressão, poderia acontecer uma tragédia, por isso, tento ser o mais empático possível no sentido de tentar mostrar acolhimento”, continua, assumindo que, como partilha fotografias em que aparece com o afilhado, recebe perguntas como “Como é que um padre tem um filho?”.

“Há os dois lados da moeda: rasgamos perspetivas, preconceitos e queremos ir muito mais longe, mas também há o lado negativo. Parece-me que são as pessoas mais novas que usam estas plataformas para difamar. São críticas baratas sem qualquer aprofundamento ou conhecimento das realidades”, expõe, sublinhando que “estamos num mundo em que queremos aceitar tudo e todos, mas de facto precisamos de caminhar muito mais, pois é tudo muito bonito na teoria, mas na prática é diferente”.

“No Instagram, queremos mostrar o melhor; o Facebook já foi assim e mudou. Houve uma evolução. Temos de procurar ser o mais honestos possível. Todos nós devemos, sobretudo, tentar não julgar. Magoa-me ouvir relatos de pessoas nesse sentido. Já tive seguidores que me disseram que tentaram suicidar-se ou continuam com essa ideação. Digo de imediato: procura alguém. Porque, através destas plataformas, estamos próximos sem estarmos próximos, até porque não se consegue dar a mesma atenção a toda a gente. Por vezes, digo para me ligarem, combinarmos um encontro, dar outro tipo de acompanhamento”, constata Pedro que, segundo informação disponível no site dehonianos.org, “iniciou o ano de Noviciado, na Casa Sagrado Coração de Jesus, em Aveiro, a 20 de Agosto de 2008, realizando a sua Profissão Religiosa a 13 de Setembro do ano seguinte, na Igreja Paroquial de Santo André de Esgueira, na Diocese de Aveiro”. “E há quem me peça para fazer os casamentos e batizados porque se identifica com o meu perfil. É também uma porta para mostrarmos que é possível pensar e viver de modo diferente”. 

“Quando se começa a ter uma certa projeção, recebe-se mensagens de todos os tipos. Estamos atrás dos ecrãs e é muito mais fácil apontar o dedo, criticar, enviar algo… Porque estou escondido, ninguém sabe quem eu sou! Todos tentamos encaixar-nos num molde, queremos ser mais bonitos. Até a Medicina com os seus avanços na estética, por exemplo, prova isso. Queremos passar o belo e o perfeito, mas nunca as fragilidades”, menciona, explicitando que tem acompanhado o perfil de uma rapariga brasileira que tem excesso de peso, é baixa e sofre de problemas visuais. “Poderíamos dizer ‘Coitada’, mas toda a gente gosta dela! Quando as pessoas estão bem consigo próprias, não procuram agradar a todos”. 

Mas a “massagem ao ego”, como Clara mencionou, que advém da exposição pública pode ser sedutora e Pedro não esconde que, tal como todos os seres humanos, também se sente bem quando é elogiado. “Eu próprio antes não partilhava fotos minhas, mas depois percebi que tinha mais likes. Depois de ter ido ao programa da Cristina Ferreira, pus o meu perfil privado porque já era uma exposição demasiado grande”, justifica o sacerdote que, quando estava no Seminário Nossa Senhora de Fátima, em Alfragide, frequentou o Mestrado Integrado em Teologia na Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, tendo concluído a lecionação há cinco anos.

“Eu também tenho de ser feliz. Tento ver o mundo que me rodeia, não estou fechado. Vou a festivais, saio com malta amiga à noite… isso realiza-me enquanto pessoa. Se estivesse fechado, não seria tão feliz. Se tiver um dia mau, não vou dizer que aconteceu x ou y, mas tento ser o mais transparente possível. Não nos podemos esquecer de que ver o perfil de uma pessoa sorridente não significa que a pessoa esteja sempre assim. É tal e qual como quando se aplica maquilhagem para disfarçar as rugas”, realça.

“Se pudesse dar conselhos, diria que devemos ser autênticos e não julgar ninguém. E lembraria que, quando aponto um dedo, tenho três a apontar para mim. E não conheço a história da outra pessoa só porque vejo fotos e vídeos dela. Enquanto não mudarmos isto, e se não tivermos cuidado, estamos a criar ‘monstros’”, conclui o padre que, no Instagram, é o utilizador @petrussousa, tendo mais de 6 mil seguidores. 

Quem vai ao encontro da perspetiva de Pedro é António Cerveira Tavares, formado em Medicina pela Universidade de Lisboa com a tese “Impacto do uso da internet e redes sociais na saúde mental”. “Queria algo dentro das dependências e enveredei pela internet. Procurei vários estudos e, especificamente, tentei ver se havia alguns que encontrassem uma associação entre o uso da internet e sintomas psiquiátricos como ansiedade, depressão, etc.”, explica o rapaz que, apesar de ter passado os anos de faculdade a pensar em seguir a especialidade de Psiquiatria, acabou por escolher Oncologia Médica há duas semanas.

“Estas redes sociais acabam por ter um algoritmo, embora seja de forma inconsciente, dando às pessoas aquilo que consomem mais. Aquelas que já estão predispostas a desenvolver distúrbios acabam por ficar doentes mais rapidamente. Estes problemas são mais prevalentes entre 15 e 23% dos utilizadores, principalmente, homens”, revela, descrevendo que tal acontece porque são tidos em contra outras vertentes como a dos videojogos. “Existe uma relação bidirecional entre o uso excessivo de internet/redes sociais e os sintomas de ansiedade depressão. Ou seja, a hipótese de as pessoas com esses problemas também poderem usar a internet como mecanismo de coping para fugir a essas mesmas emoções”.

“Há uma expressão que é ‘Comparamos os nossos bastidores ao palco dos outros’. No Instagram, em particular, isto acontece diariamente e, no meu estudo, entendi algo: se a pessoa só absorver os conteúdos dos outros, tem mais sintomas psiquiátricos do que quem tem uma postura ativa e também divulga fotografias e vídeos”, diz o profissional de Saúde de 28 anos.

“Vemos aquilo que as pessoas escolhem mostrar e publicitar. Ficamos numa espécie de antro que criamos”, reconhece com tristeza, ressaltando que “a inteligência artificial só faz aquilo que queremos”. “Quem criou isto espero que, não conscientemente, acabou por criar um monstro. A pessoa pode facilmente perder-se em conteúdos violentos”, lamenta, asseverando que os líderes das diversas plataformas deviam “ter uma atuação mais direta”.

“Eu percebo que seja difícil, não sei como é que o controlo pode ser facilmente implementado, mas temos de, pelo menos, proteger a saúde mental das pessoas. Acho que devem ser responsabilizados e, como líderes, têm de responder pelos algoritmos e pelos resultados do uso, mas não são eles que estão a instigar as pessoas a fazer determinadas coisas. Têm é de ser fortemente incentivados a mudar a forma como os algoritmos”.

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