26/01/2022
 
 
Campeonato. Jesus recrucificado e a sua águia de gesso

Campeonato. Jesus recrucificado e a sua águia de gesso

AFP Afonso de Melo 06/12/2021 09:46

Enquanto o FC Porto passeava em Portimão (3-0), o Sporting ia à Luz escaqueirar um Benfica mais frágil do 
que um pucarinho de Estremoz (3-1).

Há uns anos, no Brasil, um daqueles cronista de talento robusto que por lá proliferam mas cujo nome agora não me ocorre, dava razão a um treinador que não fazia outra coisa se não perder: “É preciso aceitar a realidade. O homem prometeu uma equipa ofensiva e eu, de facto, sinto-me ofendido”. Podíamos, facilmente, reproduzir, mutatis mutandis, esta visão alegre do apocalipse para o Benfica de hoje. Prometendo arrasar desde que chegou do lado de lá do Atlântico com o ego mais inflado do que nunca, Jorge Jesus tem arrasado por completo os adeptos encarnados que, de monco caído, sem resposta para a falta de qualidade de uma equipa cheia de jogadores de muita qualidade (pelo menos para a realidade nacional), já terão percebido que esta época vai ser o espelho da anterior, ou seja, sem um troféu, nem que seja de segunda apanha, para colocar nas vitrinas do museu.

Jesus é, neste momento, como o Cristo de Nikos Kazantzákis: uma figura recrucificada. Trouxe, nesta segunda passagem pela Luz, uma cultura de derrota que se propaga como cogumelos por todas as frinchas do clube. A forma como o Benfica foi batido por uma equipa de meninos que não contava, ainda por cima, com dois jogadores com o peso de Coates e de Palhinha, é apenas mais um passo nesta via sacra de achincalhos que além de ter tido os pavorosos episódios contra o Bayern de Munique (0-4 e 2-5), mete pelo meio um nunca mais acabar de partidas em que acabou dominado por equipas mais pequenas, já somando mais uma derrota em casa (Portimonense, 0-1) e vitória caídas do céu aos trambolhões.

Já não se trata, pelo menos para mim, que ando pelos jornais atrás do futebol há uns bons trinta e cinco anos, discutir a pessoa. Nem sequer o treinador. A visão tem de ser alargada a uma filosofia que se instalou na equipa do Benfica, uma filosofia de desleixo e de desresponsabilização, que faz com que os jogadores sigam na esteira do técnico, cometendo erros pior do que ridículos, grotescos, e que transforma a águia numa figura de gesso, mais frágil do que um pucarinho de Estremoz, tão naturalmente escaqueirada em plenoEstádio da Luz por um Sporting arrumado, fiel aos princípios criados por Ruben Amorim, e com o descaramento próprio de um rapazinho a apanhar papoilas num campo de gipsofila.

Sem futuro Doa a quem doer, a minha opinião (que já vem sendo aqui publicada desde o início do campeonato) é que o Benfica não tem condições para discutir o título frente a FCPorto e Sporting. Porque enquanto os seus adversários têm equipas, montadas com critério, com os seus defeitos e as suas virtudes, como quaisquer outras, Jesus Jesus vive numa espécie de delírio que não é carne nem é peixe e apenas um aglomerado de gente atirada para dentro de campo numa disposição inicial de 3-5-2 mas cujas dinâmicas a transformam numa confusão totalmente dependente do talento e da força de Rafa, Everton ou Darwin.

É tão evidente, tão cristalino como a água pura das fontes do planalto da Pedra Bolideira, que os adversários, na sua generalidade, controlam por completo o sistema posto em prática pelo treinador do Benfica. Entre o sistema do pontapé para a frente, tantas vezes directo do guarda-redes para os avançados e a incapacidade de manter a bola em posse por mais do que meros segundos, a águia afunda-se semana após semana. Com o campeonato hipotecado, com o futuro na Taça de Portugal a ser decidido nas Antas e a continuação na Liga dos Campeões a depender de terceiros, o Benfica tem tudo para chegar ao fim do ano civil fora da luta das principais competições. Não é preciso uma bola de cristal para se prever o descalabro que aí vem. Tal como se viu na época passada, Jorge Jesus já não é capaz de entusiasmar ninguém, a não ser talvez, os adeptos do Flamengo. Tem tudo para ficar para a história como o mais perdedor (e mais odiado pelos adeptos) dos treinadores encarnados. É só darem-lhe tempo. 

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