26/01/2022
 
 
Pinto da Costa e Pedro Pinho usam 'saco azul' para comprar imóveis de luxo

Pinto da Costa e Pedro Pinho usam 'saco azul' para comprar imóveis de luxo

Entre os imóveis que Pinto da Costa e Pinho planeavam comprar estavam apartamentos de luxo construídos nos célebres terrenos do caso Selminho. Negócios de Jorge Mendes e Deco também contribuíram para o ‘saco azul’. 

O dinheiro desviado da SAD do Porto e que alimentava o ‘saco azul’ criado por Pinto da Costa e pelo seu testa-de-ferro Pedro Pinho serviu para vários negócios imobiliários na zona do Grande Porto. O Ministério Público reuniu indícios de que um dos negócios planeados era a compra de apartamentos de luxo no empreendimento construído nos célebres terrenos da escarpa da Arrábida que estão no centro do caso Selminho, a imobiliária do clã de Rui Moreira, que o presidente da Câmara do Porto é acusado de favorecer.

Aqui, porém, não é a Selminho nem Rui Moreira que estão em causa, mas sim o empreendimento que entretanto ali foi construído: o Panorama-Douro Residences. Trata-se de um investimento na ordem dos 32 milhões de euros, da imobiliária Arcada, que será constituído por nove lojas comerciais e 81 apartamentos, desde T2 a T5. O administrador e sócio da Arcada era um velho conhecido do FC Porto, o antigo jogador Manuel Caetano.

O empreendimento, situado em plena cidade do Porto, junto da Ponte da Arrábida, «goza de uma vista panorâmica única sobre o rio e uma paisagem classificada como património da UNESCO», gaba o site da Panorama Douro Residences, lembrando que os apartamentos estão «a igual distância da Foz e do centro Histórico e da Boavista». Os preços condizem com a localização e o luxo dos acabamentos: 870 mil euros por um T3, segundo listado no site da Castelhana Real Estate, ou 1,3 milhões de euros por um T4, que pode chegar a 2,65 milhões de euros, segundo anteviu Caetano ao JN, no ano passado.

Mas eram vários os negócios imobiliários em que Pinto da Costa e Pinho queriam apostar, recorrendo a dinheiro retirado do FC Porto – através de comissões de jogadores e da venda de direitos televisivos à Altice – que foi parar a uma empresa imobiliária onde ambos são sócios. Esta empresa dedicou-se à venda e compra de imóveis, vários dos quais em zonas privilegiadas em Leça da Palmeira e no Porto, sendo um deles mesmo em frente ao Estádio do Dragão.

A investigação do Ministério Público está passar estes negócios a pente fino, para provar que o dinheiro que foi desviado em comissões do FC Porto (em cujo processo de decisão o presidente teria um enorme poder) e através de Pedro Pinho foi parar aos bolsos de Pinto da Costa, a figura central da Operação Prolongamento. Daí que, entre as várias instituições alvo de buscas na semana passada, tenham estado várias imobiliárias ligadas a Pinho, como a Imonevogilde Imobiliária e a Rebelriver - Imobiliária, segundo contou ao Nascer do Sol uma fonte próxima do processo.

Dinheiro escondido no Banco Carregosa

Para esconder o paradeiro do dinheiro movimentado para fora do FC Porto, que deixou um buraco de 40 milhões na faturação do clube, Pinto da Costa, apoiado por elementos da SAD, recorreu a uma extensa rede de intermediários, empresários e entidades, que ia descartando quando pareciam estar demasiado expostos.

O dinheiro ia parar a uma conta em nome de Pedro Pinho no Banco Carregosa (em cujo capital este empresário teve uma participação de 5%), mas cujo principal beneficiário era Pinto da Costa. Além dos negócios imobiliários anteriormente mencionados, esse capital de origem ilícita servia para os gastos mais diversos: desde pagar as rendas de casa da sua ex-mulher, Fernanda Miranda, até ao pagamento de serviços de uma bruxa de Matosinhos que encaminharia amores fora do trilho e a bola para a baliza dos adversários por 60 mil euros ao mês.

Além disso, o presidente do FCP também terá feito chegar 100 mil euros a Fernando Madureira, líder dos Superdragões, mais conhecido como ‘macaco’, quando este se lhe queixou de não ter dinheiro para terminar uma casa que estaria a construir. Estas generosidades eram compensadas por Madureira com a cobrança de dívidas do presidente dos Dragões.

Madureira, que tem sido recorrentemente acusado de intimidar, ameaçar de morte ou agredir quem não lhe agrada, ainda recentemente mostrou lealdade a Pinto da Costa: «Não estamos atrás de si. Estamos atrás de si, ao seu lado e à sua frente. Para chegarem até si terão de nos matar a todos», prometeu esta semana, durante a assembleia-geral do FC Porto, citado pelo Record.

Pedro Pinho foi sócio de Alexandre Pinto da Costa

Ao longo dos últimos oito anos, o denominador comum na rede montada por Pinto da Costa tem sido sempre Pinho, um empresário desportivo nascido no mundo do futebol: é filho do antigo presidente do Rio Ave, José Maria Pinho. É, de resto, um homem muito bem relacionado - por exemplo, é casado com Sara Peneda, filha de José Silva Peneda, antigo ministro de Cavaco Silva -, tendo entrado na vida do presidente portista através de uma amizade de adolescência com o seu filho, Alexandre Pinto da Costa.

Inicialmente, em 2013, ele e o filho de Jorge Nuno trabalharam de braço dado, recebendo comissões oriundas do FC Porto através de uma empresa em que eram sócios, a Soccer Energy. Ao longo dos três anos seguintes, conseguiram meter o dedo nas transferências dos jogadores Casimiro, Brahimi, Ricardo Quaresma e Vicent Aboubakar, a grande fonte de receita da Soccer Energy.

As irregularidades no caso de Casimiro são um bom exemplo do seu modus operandi. O médio brasileiro brilhou quando foi emprestado pelo Real Madrid ao FC Porto, o que levou o clube madrileno a resgatá-lo, rasgando a opção de compra pelos dragões, no final de 2014. «Vir para o FC Porto foi uma decisão muito importante na minha vida», considerou então o jogador, que chegaria a ser declarado ‘pulmão do Real Madrid’ pelo El País, somando centenas de jogos por esta equipa.

A SAD portista encaixou 7,5 milhões de euros com Casimiro. Menos 1,26 milhões de euros, pela intermediação de uma empresa desportiva, e que depois teve de entregar 700 mil euros à Soccer Energy, de Pinho e Alexandre - que não teve nenhum papel real no negócio, presumivelmente recebendo o dinheiro para que revertesse para o círculo próximo de Pinto da Costa.

O esquema da dupla Alexandre e Pinho - que também incluía equipas como o Sporting Clube de Braga, o Vitória de Guimarães e o Tondela, que na semana passada foram alvo de buscas - sofreria uma fratura com os desentendimentos que se geraram por o líder dos Dragões ter começado a privilegiar Pinho em detrimento do filho. Os ciúmes foram demais e Alexandre saiu da Soccer Energy em 2017.

Desde então, ainda recebeu algumas comissões suspeitas do clube do pai, mas nada comparável ao que recebia Pinho. Alexandre criou depois a SerialSport, que entre 2019 e 2020 receberia uns meros 650 mil euros vindos do FC Porto, ocultados na faturação de outra empresa desportiva.

Já Pinho estava em voos mais altos. Contudo, à semelhança de Alexandre, ficara ‘queimado’ no Football Leaks, sendo mencionado pelo hacker Rui Pinto como alguém muito próximo de Pinto da Costa, e passou a precisar de ter mais cuidado em esconder o dinheiro desviado do FC Porto através das suas empresas, a Pesarp, a PP Sports – antiga Energy Soccer – e a N1 - Gestão de Carreiras Desportivas.

Jorge Mendes, outro aliado

Aí, Pedro Pinho foi buscar os préstimos de Bruno Macedo, um agente desportivo muito próximo do presidente do Braga, António Salvador, e que se envolveu em negócios com os três ‘grandes’, mas que viria a ser apontado como testa-de-ferro do presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira, na Operação Cartão Vermelho.

Se hoje o nome de Macedo desperta suspeita imediata, não era o caso na altura. Como tal, Pinho ainda conseguiu tirar dinheiro à SAD portista a pretexto das transferências de jogadores como Éder Militão ou Felipe, em 2019. O truque era usar as empresas de Macedo, como a BM Consulting, que, apesar de não atuar como intermediário real de jogadores, faturava esses serviços ao FC Porto, indo o dinheiro parar às mãos de Pinho.

No entanto, Macedo poderia criar problemas à rede montada por Pinto da Costa. Quando deram conta, foram apanhados no meio da Operação Cartão Vermelho, tendo a investigação a dirigentes portistas começado com um processo da Inspeção Tributária de Braga relacionado com um pedido de reembolso da sociedade de Macedo em 2018.

Assim, a rede montada pelo presidente do FC Porto teve de ir buscar mais aliados. Juntou-se o famoso agente desportivo das estrelas, Jorge Mendes, e Deco, histórico jogador dos dragões virado empresário. Pinho, mais uma vez, continuou a servir de ligação a Pinto da Costa nessas operações, segundo terão revelado as escutas telefónicas feitas logo no início da Operação Prolongamento.

O modus operandi de Jorge Mendes, agente de Cristiano Ronaldo, é diferente do engendrado por Macedo e seus parceiros. Até então conhecido nos meios desportivos como ‘Mr. 10%’, Mendes inflacionou a sua comissão para 15 por cento, sendo o restante encaminhado para o ‘saco azul’ de Pinto da Costa.

Passaram pelas mãos de Mendes os jogadores portistas Óliver Torres, Danilo Pereira e Fábio Silva. No caso deste último, vendido pelo FC Porto ao Wolverhampton por 40 milhões de euros, em 2020, foram subtraídos à SAD dez milhões de euros – aqui, chegaram a uma incrível comissão de 25% do valor do negócio –, dos quais 3,275 milhões de euros foram parar a empresa de Pedro Pinho. E, presumivelmente, ao ’saco azul’ de Pinto da Costa no Banco Carregosa.

 

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