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Richard Feynman. O Nobel brincalhão

Richard Feynman. O Nobel brincalhão

Carlos Fiolhais 02/12/2021 10:45

Da sua oferta como voluntário em espectáculos de hipnotismo até uma briga ao murro num bar, o físico descreve em ‘Está a Brincar, Sr Feynman!’ episódios e peripécias de uma vida única.

O físico norte-americano Richard Feynman (1918-1988) foi laureado com o Prémio Nobel da Física de 1965 pelo seu trabalho de formulação da “electrodinâmica quântica” (em inglês Quantum ElectroDynamics, QED), a teoria física extremamente precisa que descreve a interacção dos electrões com a luz. Mas Feynman, além de outros trabalhos inovadores em várias outras áreas da Física e da Tecnologia (foi pioneiro da nanotecnologia e da computação quântica, duas áreas hoje em forte crescendo), foi também um grande pedagogo (escreveu as renomadas Feynman Lectures on Physics, três livros de capa vermelha que todos os estudiosos de Física apreciam pela sua originalidade e profundidade), e foi ainda um notável divulgador de ciência (os seus dois principais títulos nesta área são QED - A Estranha Teoria da Luz e da Matéria, saído na Gradiva, em 1988, com nova edição, revista, em 2015, que foi o Ano Internacional da Luz, e O Carácter da Lei Física, saído na Gradiva em tradução minha em 1989).

A Gradiva acaba de publicar uma edição completamente revista - na prática, uma nova tradução, pois a anterior, de 1988, deixava a desejar, ao contrário do que é norma naquela editora - do seu livro auto-biográfico, com histórias contadas oralmente ao seu amigo Ralph Leighton. O título é ‘Está a Brincar, Sr Feynman!’. Aventuras de um personagem curioso (original: W.W. Norton, 1984). Trata-se de uma obra que sempre recomendei e que não me canso de recomendar, tal como o fazem, em prefácios distintos, o escritor português Onésimo Teotónio Almeida e o empresário e filantropo norte-americano Bill Gates. Onésimo Almeida diz que o autor é “uma inteligência fulgurante a dimanar-lhe do corpo inteiro, superiormente descontraído e sem pose e com um sentido de humor sorridente a iluminar-lhe as palavras. Tudo menos o cliché do prémio Nobel”, ao passo que Bill Gates diz: “Mas Feynman foi mais do que apenas um cientista incrível e um professor estupendo. Foi uma das personagens mais interessantes da sua época. (…) As histórias neste livro são tão cativantes que o leitor vai querer partilhá-las com os amigos e a família”. Quem não conheça o livro, em particular os leitores mais jovens, vai adorar fazê-lo, porque o professor de Física é desconcertante, ao relatar histórias passadas consigo que vão desde a sua oferta como voluntário em espectáculos de hipnotismo até uma briga ao murro num bar. Mesmo para quem já conheça o livro valerá a pena relê-lo, pois é uma escrita bem-disposta que transmite boa disposição.

Feynman licenciou-se em Física no MIT em 1939 e doutorou-se em 1942 na Universidade de Princeton, um sítio onde a grande figura era na época Albert Einstein (que estava presente no primeiro seminário que Feynman lá deu). Como conta neste livro, Feynman queria continuar a estudar no MIT, por achar que era “o melhor sítio do mundo”, mas os seus professores não deixaram, pois achavam - e com razão - que ele devia conhecer o mundo antes de formar opiniões. Em 1943, Feynman foi recrutado para trabalhar em Los Alamos, no deserto do Novo México, no projecto Manhattan, que construiu as primeiras bombas atómicas. Foi nessa altura que começou a lenda a respeito da sua capacidade de abrir cofres, adivinhando os códigos que as pessoas usavam para proteger documentos ultra-secretos. A seguir foi professor na Universidade Cornell, onde realizou o trabalho que havia de lhe dar entrada na galeria dos prémios Nobel. No início dos anos 50 passou um ano no Brasil, onde aprendeu português, assim como a tocar frigideira e bongo. Depois aceitou uma oferta do Caltech, o California Institute of Technology, em Los Angeles, onde alcançou o cume da sua fama como professor, escrevendo as suas Lectures. Passou, portanto, pelas melhores universidades dos Estados Unidos e do mundo.

O livro que traduzi, O Carácter da Lei Física, compila um conjunto de palestras gravadas pela BBC em Cornell e destinadas ao público generalista, que dão um ‘cheiro’ da sua obra pedagógica maior. Os direitos dos vídeos foram adquiridos por Bill Gates, que os colocou na Internet em acesso livre, conforme ele informa no prefácio a Está a Brincar, Sr. Feynman! (Gates chamou a Feynman o “melhor professor que nunca tive”).

O livro agora reeditado dá conta tanto do génio como da excentricidade de Feynman, um novaiorquino de origem judaica. Existe uma sequela, Nem Sempre a Brincar, Sr. Feynman! Novos elementos para o retrato de um físico enquanto homem (3.ª edição, Gradiva, 2004), onde, entre outras vivências, expõe as suas posições como membro da comissão de inquérito ao desastre do vaivém Challenger da NASA, que vitimou, em 1986, os sete astronautas a bordo, incluindo a primeira professora civil a voar no espaço. Feynman já estava doente com cancro quando participou nessa comissão, na qual também estava Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar solo lunar. A sua situação de saúde não o impediu de mostrar, perante as câmaras de televisão, durante uma conferência de imprensa muito concorrida, como uma anilha do vaivém se tinha quebrado no lançamento devido às baixas temperaturas em Centro Espacial Kennedy, na Florida, no dia do seu lançamento, em Janeiro. Declarou, sem papas da língua, criticando as manobras da NASA de encobrimento de alguns seus procedimentos: “A realidade tem de estar à frente das relações públicas, já que a Natureza não pode ser enganada.”

Feynman é hoje um herói popular: vários filmes, peças de teatro, bandas desenhadas e até uma ópera representam-no. Numa das peças de teatro o físico é apresentado a querer ensinar física teórica a prostitutas de Las Vegas, uma cena que não será inteiramente inventada. Alguns dos aspectos mais pitorescos do livro em apreço são as histórias que o autor conta a respeito de companhias femininas, desde a sua primeira mulher, que morreu de tuberculose num hospital em Albuquerque, quando ele estava a trabalhar em Los Alamos, até às várias mulheres que conheceu em bailes e bares. Quando recebeu o Nobel, estava casado em terceiras núpcias com uma inglesa, com quem teve um filho e uma filha (esta adoptada), depois de um segundo casamento assaz tumultuoso.

As últimas palavras de Feynman no hospital onde estava internado com o cancro terminal, foram de extrema ironia: “Não gostaria de morrer segunda vez. É tão aborrecido”.

Outros livros de Feynman em português, além dos quatro já referidos, são, por ordem cronológica de publicação: 

- Uma Tarde com o Sr. Feynman. Que é a ciência?, Introdução, apresentação, notas e tradução de A. M. Nunes dos Santos e C. Auretta (Gradiva, 1991). Dois professores da Universidade Nova de Lisboa reuniram a tradução portuguesa da Conferência Nobel e outros textos breves. Recomendo, em particular, a lição “Que é a ciência?” que ele deu em 1966 na Associação de Professores de Ciência Americanos. 

- A Lição Esquecida de Feynman: O movimento dos planetas em torno do Sol, organizado por David Goodstein e Judith Goodstein (Gradiva, 1997). Um físico e uma arquivista de Cornell recuperaram uma lição das Feynman Lectures que não foi dada. O assunto são as conhecidas leis de Kepler do movimento planetário, mas Feynman conseguia ser original a respeito de qualquer assunto.

- O Significado de Tudo. Reflexões de um cidadão-cientista (2.ª edição, Gradiva, 2005). Este livro contém as conferências públicas que ele proferiu na Universidade de Washington em 1963. 

- O Prazer da Descoberta. Os melhores textos breves de Richard Feynman, organizado por Jeffrey Robbins (2.ª edição, Gradiva, 2011). Esta é uma colectânea dos melhores textos breves de Feynman, incluindo conferências, entrevistas e artigos. Destaco a palestra “Há muito espaço lá em baixo” dirigida à assembleia da Sociedade Americana de Física em 1959, e que marca o início da nanotecnologia, e a entrevista “O homem mais inteligente do mundo” dada em 1979 à revista Omnia. 

De entre as várias obras sobre Feynman, destaco a sua biografia, da autoria do jornalista norte-americano James Gleick: Feynman: A Natureza do Génio (Gradiva, 1993). Continua, passados quase 30 anos, a ser uma excelente fonte sobre a vida do físico, combinando a descrição da sua vida com a exposição da sua obra científica.

Para abrir o apetite para o livro deixo dois excertos. O primeiro explica o título. Feynman, inexperiente em eventos sociais, era convidado num chá dado pelo director da Faculdade em Princeton, o Professor Eisenhart:

“Entro e vejo algumas senhoras e raparigas. É tudo muito formal e estou a pensar onde me devo sentar, e se devo ou não sentar me ao pé de certa rapariga, e como devo comportar-me, quando oiço uma voz atrás de mim:/ ‘Quer natas ou limão com o chá, Sr. Feynman?’/ Era a Sra. Eisenhart a servir o chá./ ’Quero as duas coisas, obrigado, respondo eu, ainda a procurar um sítio para me sentar, quando, subitamente, oiço: ‘Eh eh eh eh eh. Deve estar a brincar, Sr. Feynman.’”

O segundo conta uma cena do seu primeiro baile na Universidade Cornell:

“Dancei com outra rapariga e vieram de novo as perguntas do costume: ‘É estudante ou está a doutorar se?’ (Havia muitos estudantes mais velhos que o habitual, porque tinham estado no Exército.) / ‘Não, sou professor.’/ ‘Oh! Professor de quê?’/ ‘Física Teórica.’/ ‘Suponho que trabalhou na bomba atómica.’/ ‘Sim, estive em Los Alamos durante a guerra.’/ ’Que grandessíssimo mentiroso!’, acusou ela, afastando-se.”

O “mentiroso” estava afinal a falar verdade! Para ter êxito com as mulheres tinha de lhes mentir…

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