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Transportes. De norte a sul, de carteira leve e mochila às costas

Transportes. De norte a sul, de carteira leve e mochila às costas

Facebook José Miguel Pires 02/12/2021 13:50

Numa altura em que os combustíveis atingem valores proibitivos, os autocarros são uma opção mais económica para quem procura viajar. Seja pelo país, seja para a Europa.

Portugal viu, nos últimos meses, os preços dos combustíveis disparar, com a gasolina a atingir, praticamente, os dois euros por litro. Valores impraticáveis para a maioria dos portugueses, que se viram obrigados a procurar alternativas mais económicas ao automóvel próprio, tanto para deslocações profissionais como para viagens lúdicas. Em resumo, ter um carro em Portugal, na atualidade, é um luxo a que muitos não se podem dar, apesar de a vontade ou necessidade de viajar não desaparecerem.

É aqui que surgem os transportes coletivos como principais alternativas, mais amigas da carteira e, nalgumas ocasiões, do ambiente. Aviões, barcos, comboios, autocarros... há, em Portugal, uma panóplia de opções para quem quer deixar o automóvel na garagem, e cada uma vem com as suas vantagens e desvantagens.

Aviões, comboios, autocarros? Com os seus escassos 90 mil quilómetros quadrados de área, o uso do avião para viagens ‘domésticas’ em Portugal só se justifica em casos muito pontuais (Porto-Lisboa, Porto-Faro, bem como rotas regionais que ligam Trás-os-Montes ao Algarve, com paragens em Viseu e Tires)... De resto, Portugal é um país demasiado pequeno para justificar o investimento em voos domésticos como alternativa.

Passamos, então, aos comboios. A rede nacional ferroviária atinge as principais cidades... do litoral. Mas, quando se quer chegar ao interior do país, ou ao resto da Europa, os comboios portugueses ficam aquém das expectativas. Isto para não falar do facto de, pelo menos na Linha do Norte, se estar a viajar a velocidades mais baixas do que acontecia no passado. Entre Aveiro e a estação de São Bento, no Porto, por exemplo, um comboio suburbano está a demorar entre 1h20 e 1h30, quando, há sensivelmente três anos, esta viagem demorava apenas entre 1h e 1h10. Aliás, como o jornal Público noticiava, em fevereiro de 2020, as viagens de comboio no país só ultrapassavam os 100km/h, em média, nos trajetos entre Lisboa e o Porto, e entre Lisboa e Guimarães. O tema é debatido há décadas, e o país luta desde então pela alta velocidade na ferrovia nacional, mas a ideia é, ainda, exatamente isso: uma ideia.

Assim, que outras opções de mobilidade têm os portugueses, tanto dentro do país como para fora dele? É aqui que chegamos aos autocarros. Está a desenvolver-se uma revolução silenciosa, um fenómeno por baixo da mesa, que está a mudar a forma como os portugueses se movem, tanto internamente como para o resto da Europa.
O meio de transporte não é novidade no país, mas, nos últimos anos, começaram a surgir nas autoestradas portuguesas grandes e chamativos autocarros verdes, com o logo “FlixBus”de lado. A empresa, que entrou em Portugal em 2017, é alemã, e tem presença um pouco por toda a Europa. Por cá, veio para ficar, e faz uma concorrência feroz aos restantes meios de transporte. 

Segundo a própria empresa confirmou ao i, a rede da FlixBus em Portugal cobre atualmente mais de 170 destinos, com linhas nacionais e internacionais a ligarem cidades como Faro, Lisboa, Porto, Fátima, Braga, Viana do Castelo e Coimbra a países como Espanha, França, Alemanha, Luxemburgo, Suíça e Bélgica, entre outros. São 37 linhas domésticas e internacionais que ligam 82 cidades em Portugal (40 na rede doméstica) a 92 cidades na Europa.

Os números não mentem: desde 2020, e até ao Verão deste ano, a FlixBus tinha já transportado um milhão de passageiros de e para Portugal, nas linhas domésticas e internacionais. E a empresa tem planos ambiciosos para o futuro: “Neste momento, a nossa rede doméstica já ultrapassou os 40 destinos em Portugal, e o objetivo para o próximo ano é aumentar pelo menos 25%, ou seja, alargar a rede a cerca de 50 cidades. Este verão ligámos Portugal a 190 cidades europeias, e no próximo ano a nossa expectativa é aumentar em cerca de 10% o número de destinos, para mais de 200.”

Preços apelativos são chave Se uma viagem de comboio entre Aveiro e o Porto custa, pelo menos, 3,55 euros, e na Rede Expressos começa nos 5 euros, o mesmo trajeto custa apenas 1,99 euros, quando feito sob a bandeira da FlixBus. Isto se não contarmos com eventuais descontos de lealdade e promoções, em que o preço pode descer até aos 0,99 euros. Valores surreais, quando se tem em conta que, de carro, só o custo em portagens entre estas duas localidades acende aos 4,75 euros.

Falemos agora do tempo que demora o trajeto. Como se referiu anteriormente, uma viagem entre estas duas cidades, de comboio, poderá demorar até 1h30 nos comboios da CP. Na FlixBus, o mesmo trajeto faz-se em cerca de 1 hora. Estes são detalhes que fazem pensar, e que têm feito os autocarros ganharem popularidade no país.

A tabela de preços é, sem dúvida, o maior chamariz. Na passada sexta-feira arrancou o período Black Friday da empresa, que colocou 10 mil bilhetes a 0,99 euros. Mas mesmo fora dessas campanhas, é possível fazer Aveiro-Lisboa por 5,99 euros, quando a mesma viagem, na CP, quase nunca fica abaixo dos 8 euros, e tende a custar por volta de 16 euros. Estes valores, no entanto, são também aplicados pela própria Rede Expressos que, em várias ocasiões, disponibiliza bilhetes entre Aveiro e Lisboa por 5 euros.

Mas afinal, como é possível uma empresa praticar valores tão baixos, e manter-se rentável? Pablo Pastega, director-geral da FlixBus em Portugal e Espanha, explica ao i que é um processo “bastante simples”. “Basicamente, tentamos perceber as necessidades e a procura dos consumidores e adaptamos as nossas rotas e horários a estas necessidades, e em conjunto com a nossa tecnologia e força comercial, conseguimos dessa forma maximizar a taxa de ocupação dos nossos autocarros, e isto é o que nos diferencia dos operadores tradicionais”, argumentou Pastega, defendendo também que “o fator antecipação é o que tem mais peso no preço final do bilhete”.

De Portugal para o mundo A FlixBus trouxe novas opções na mobilidade interna do país, mas também faz a conexão entre localidades portuguesas e cidades pela Europa fora. A mais ‘óbvia’ é a conexão com Madrid, que tem uma ligação praticamente diária com Portugal, com bilhetes que chegam a custar tão pouco como 9,99 euros (Aveiro-Madrid). A viagem demora um total de 9 horas, num percurso que começa no Aeroporto Francisco Sá Carneiro, passa pelo centro do Porto, Aveiro e Coimbra, seguindo depois viagem por Salamanca e Ávila até ao Aeroporto de Barajas, em Madrid, parando ainda perto da estação de comboios de Atocha, a mais importante da capital espanhola.

Mas essas 9 horas não chegam nem perto das mais longas ligações entre Portugal e a Europa oferecidas pela FlixBus. No limite do mapa de ligações estão, por exemplo, os autocarros para a Suíça. É verdade. É possível viajar desde Lisboa até Zurique. Aqui, os preços ficam um pouco mais altos, mas o viajante beneficia da maior disponibilidade para levar bagagem (1 mala pessoal e 1 mala de 20kg), comparativamente às regras das companhias aéreas low-cost, que cobram a bagagem de porão. Isso sim, o caminho é exaustivo: são cerca de 42 horas de viagem, parando quase 30 vezes pelo caminho. O preço de uma viagem só de ida ronda os 100 euros.

Genebra, Luxemburgo, Nice e até Dortmund são alguns dos destinos que a FlixBus oferece, a partir de várias cidades portuguesas. As horas de viagem são longas, mas são também objeto de preferência para vários passageiros, como aqueles que têm medo de voar, ou para quem viaja com grandes bagagens.

E madrid aqui tão perto O i partiu numa das viagens organizadas pela FlixBus, à procura de perceber, afinal, que vantagens e desvantagens oferece este serviço. O relógio marcava as 23h05 quando o autocarro verde chegou ao Terminal Rodoviário de Aveiro. À sua espera, nesta cidade portuguesa, estava unicamente uma pessoa. No interior, porém, eram poucos os lugares livres, e não ficou outra opção a não ser sentar-se no lugar designado automaticamente pela empresa. 

Partida. Antes de cruzar a fronteira em Vilar Formoso, foi necessário ainda fazer mais uma paragem: Coimbra. Só este desvio custou à viagem, comparativamente ao trajeto feito em automóvel, cerca de 1 hora, mas percebe-se a razão pela qual a empresa o faz, assim que se encosta o autocarro nas imediações da estação de comboios de Coimbra B.
É nesta cidade que embarca a maioria dos passageiros que seguem viagem até Madrid. Se, em Aveiro, apenas uma pessoa entrou no autocarro, em Coimbra foi outra história: pelo menos dez pessoas entraram no veículo.

Chegados a Vilar Formoso, finalmente cruza-se para o lado espanhol da fronteira, e, pouco a seguir, o autocarro encosta numa colossal estação de serviço, dedicada a transportes pesados, com um simpático café aberto 24 horas por dia. Por lá, o espanhol e o português misturam-se, e os empregados do estabelecimento já conhecem de cor e salteado os motoristas dos autocarros, bem como os seus horários.

Esticar as pernas, ir à casa de banho, comer qualquer coisa, e seguir viagem. É essa a palavra de ordem. Na frente, o motorista vai atento à estrada, com uma destreza que só um profissional que conhece de cor o trajeto pode demonstrar. A madrugada entra, e o silêncio domina o autocarro. Por volta das 5 da manhã, é hora de encostar na estação de autocarros de Salamanca. Um espaço moderno, iluminado, e com serviços abertos praticamente 24 horas por dia. Uma realidade muito diferente da do espaço de embarque em Aveiro, e, especialmente, de Coimbra, onde o “terminal” rodoviário se resume a um par de lugares de estacionamento para autocarros nas imediações da estação Coimbra B, sem cafés nem quiosques. O cansaço começa a chegar, e eis que, por volta das 7h30 da manhã, o autocarro faz a sua paragem mais importante: Madrid Sur, a cerca de um quilómetro da estação de comboios de Atocha.

Três dias depois, o i faz a mesma viagem de regresso, por entre a forte neve que caía em Salamanca, causando um atraso de uma hora na viagem. E quem melhor para saber isso do que os senhores da estação de serviço à beira da fronteira? “Então? Hoje chegaram bem tarde... uma hora?”, perguntava o empregado de balcão ao ver a cara familiar do motorista português, que pouca graça achou à chamada de atenção. Afinal de contas, às 5 da manhã, a maioria dos passageiros nem se tinha apercebido do atraso com que viajavam.

Finalmente, após cerca de 8 horas de viagem, mau tempo, e uma primeira paragem em Coimbra, o autocarro chegou a Aveiro às 6h50, com a tal hora de atraso. A viagem ficou em cerca de 50 euros.

Money, money, money Como já foi referido nesta peça, uma das principais razões que leva os portugueses a escolher viajar de autocarro - ou em qualquer outro transporte coletivo - é a aplicação de tarifas mais económicas nestas viagens. E que o diga Ricardo Matias, de 22 anos, que aproveitou os apelativos preços da FlixBus, recentemente, para realizar uma viagem entre Aveiro e o Porto. Jjunto da namorada, o carpinteiro de profissão foi à descoberta do país e, no troço entre estas duas cidades do Norte, percebeu que a melhor opção seria mesmo o autocarro. “Eu disse logo, nem pensei duas vezes, porque era uma pechincha. Vi esta viagem que demorava cerca de 1 hora, e cada bilhete foi 1.99 euros. No total, os bilhetes custaram 3,98. O autocarro nem sequer ia cheio, e nem fez paragens. Se tinha 10 pessoas, a contar connosco, era muito”, confidencia ao i. A escolha do autocarro foi simples e direta, principalmente por causa “da diferença de preços”. “O único problema foi a nível de horários. Só havia um de manhã e um ao final da tarde… queríamos aproveitar, e só conseguimos sair de Aveiro a meio da manhã. Foi a única pedra no sapato, que é mínima”, realça.
Matias e a namorada deixaram o carro para trás, e partiram numa viagem pelo país em transportes coletivos. Entre Aveiro e o Porto, ainda se colocou a hipótese de apanharem o comboio, uma vez que é um serviço regular e frequente entre as duas cidades. Mas “o fator preço foi determinante”, revela, antes de defender que “o carro nem se equacionava, porque valia sempre mais a pena ir de transportes do que de carro, até porque a gasolina está a um preço absurdo”.
 

Desconforto? Nem por isso Muitas vezes a opção de viajar de autocarro é posta de lado por questões de “comodidade”. Aliás, Pablo Pastega fez desta uma das bandeiras em defesa da FlixBus. “Em Portugal há uma ideia errada de que viajar de autocarro não é uma opção para viajar de forma confortável, muito por causa dos autocarros antigos que muitos operadores têm ao serviço. E é preciso desmistificar isso, porque não só são confortáveis e sustentáveis, como têm custos significativamente mais baixos do que o comboio ou o carro particular”, explica o director-geral da FlixBus em Portugal e Espanha, ao i.

Matias concorda: garante que, nesta experiência específica, “a viagem foi muito confortável”. “Tinha internet a bordo a funcionar, e havia muito pouca gente no autocarro. Isso ajuda a que não haja um ambiente muito perturbador e dá para descansar na viagem. É algo que voltaria a fazer porque é um preço acessível, que se junta ao conforto total e à internet a bordo, o que é que eu quero mais?”, brinca ainda, deixando “claro” que é uma opção que tomará novamente no futuro.
Aliás, foi exatamente isso que fez. Semanas depois desta viagem entre Aveiro e o Porto, e aproveitando os descontos da Black Friday, Matias e a namorada partiram novamente pelas carreiras de autocarro do país. Desta vez, o destino foi Chaves, em Trás-os-Montes, num percurso que demorou quase seis horas, e que custou cerca de 50 euros, ida e volta, no total.

“Se quiséssemos ir de comboio tínhamos de o apanhar em Lisboa até ao Porto, depois aí apanhar o autocarro da RENEX ou Rodonorte, ou Rede Expressos… não faço ideia do quão dispendioso seria, mas da forma como fomos acabou por ficar 54 euros ida e volta… quatro bilhetes… porque tivemos um desconto de Black Friday, mas é uma viagem de quase seis horas”, explica o jovem, que faz ainda a comparação com uma eventual viagem de automóvel.

“De certeza absoluta que, com 54 euros, mesmo não usando o carro dentro de Chaves, íamos gastar o dobro. No mínimo seria 100 euros de gasolina… sem contar com portagens. Tudo junto dava para ir e voltar a Chaves pelo menos mais uma vez, se calhar até duas.”

O facto de a viagem demorar 6 horas é, sem dúvida, uma desvantagem, mas Matias desvaloriza. “É um esforço que compensa absolutamente, não há necessidade de fazer uma viagem tão cara quando se pode fazer por este preço tão acessível”.

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