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José Paulo do Carmo 26/11/2021
José Paulo do Carmo

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O incrível Rúben Amorim

Sim, Rúben Amorim é incrível porque com muito menos investimento tem feito melhor do que os outros e mesmo com limitações evidentes no plantel nunca se queixa

Já sabemos que o futebol é volátil e a vida de treinador ingrata. Muitas vezes pouco importa se estão ou não a desempenhar bem o seu papel. Se a bola não entra, se o resultado é negativo ou se um jogador passa por uma fase pior quem leva por tabela é o treinador. É por isso que não há nenhum no mundo que tenha sempre sucesso. É o preço a pagar por uma profissão que obriga (como alguém disse), a que a mala tenha de estar sempre feita, perto da porta, para arrancar de um dia para o outro se for caso disso. Ainda assim, mesmo dependendo do rendimento e da vontade dos jogadores, existe evidentemente quem faça melhor o seu trabalho e se destaque, conseguindo dessa forma almejar o sucesso que se reflete em títulos e contas bancárias bem recheadas.

Independentemente de todas as variáveis que muitas vezes não dependem só de quem comanda a equipa há um fator que se vai tornando cada vez decisivo seja para tirar o máximo rendimento dos atletas como para ter a massa adepta deliciada. Esse fator que é transversal a todos os setores da nossa sociedade chama-se mensagem. A forma como se comunica para dentro e para fora. Para dentro no conseguir elevados índices de motivação e de satisfação sem que se perca empenho e espírito de sacrifício dos jogadores, para fora na forma como se conseguem evitar rasteiras e ratoeiras linguísticas puxando pela emoção e paixão dos adeptos e pelo respeito da comunicação social. É assim em todas as empresas e o futebol não foge à regra. Entender os recursos humanos como investimento e tratá-los com respeito ao invés de os ver como mero custo ou como uma récua de burros faz toda a diferença e é muitas vezes razão do sucesso ou insucesso de uma estrutura.

Antigamente, numa sociedade menos evoluída e num meio futebolístico que era quase sempre frequentado por pessoas com pouca formação, e vindas de meios mais humildes, tinha-se a ideia de que só se conseguia levar essa gente ao limite das suas forças quase à pancada. Era um tempo em que os berros, o linguajar agressivo e repleto de palavrões eram sinónimos de uma pressão positiva que representava uma mentalidade ganhadora. Hoje em dia o mundo mudou e com ele o desporto. Os jogadores são pessoas mais informadas e já não admitem ser tratados de qualquer jeito. Essa é a principal razão para tantos adeptos benquistas se sentirem defraudados quando olham para o banco do rival Sporting. Para além dos resultados e da forma como monta as suas equipas, dói especialmente por ser um adepto confesso do Benfica e porque parece encontrar sempre o melhor caminho para dizer o que quer dizer. Tem a ver com a postura, com a mensagem e com a mentalidade. A maneira como fala com os jogadores (ao invés, por exemplo, de JJ), como coloca invariavelmente o “nós” à frente do “eu”, a tranquilidade que transparece que se funde com uma evidente vontade de ganhar.

Sim, Rúben Amorim é incrível porque com muito menos investimento tem feito melhor do que os outros e mesmo com limitações evidentes no plantel nunca se queixa. Sim, é incrível porque aproveita e rentabiliza aquela que deve ser a melhor fonte de receita dos clubes portugueses, a formação e transmite aos jovens a ideia de que podem lá chegar e que se derem tudo terão a sua oportunidade. Mas é sobretudo incrível pela mensagem que passa. Não precisa de berrar nem de se andar sempre a vangloriar, não é arrogante nem usa a agressividade como alimento, não deixando de ser intenso, e faz os adeptos do clube que representa sentirem-se orgulhosos da pessoa que comanda o barco. E isso é super importante, como o é a mentalidade que consegue incutir nos atletas. A diferença que existe entre ele e outros treinadores da nossa liga é abismal nesse sentido. Se ele fosse cozinheiro diria que tem boa mão e que parece encontrar sempre o tempero perfeito. Como treinador parece talhado para o sucesso, não só pelas capacidades táticas que se lhe conseguem descortinar mas porque se assume em duas vertentes tão importantes nos dias que correm. Um brilhante gestor de recursos humanos e um excelente comunicador.


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