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Márquez, Llosa e as suas solidões

Márquez, Llosa e as suas solidões

Carlos Fiolhais 25/11/2021 17:25

Livro regista o diálogo entre dois gigantes da literatura antes da amizade, ainda recente, dar lugar a uma longa inimizade que não deixou de ser marcada pela admiração.

São dois gigantes da literatura contemporânea: Gabriel García Márquez (Aracataca, Colômbia, 1927 - Cidade do México, 2014) e Mário Vargas Llosa (n. Arequipa, Peru, 1936), que foram laureados com os prémios Nobel da Literatura de 1982 e de 2010, respetivamente. O primeiro é o autor de Cem Anos de Solidão, saído originalmente em 1967 (edição portuguesa mais recente: Dom Quixote, 2017) e que já vendeu mais de 50 milhões de exemplares em 35 línguas. E o segundo é o autor de Conversa n’A Catedral, que saiu em 1969 (edição portuguesa: Dom Quixote, 2009), a obra que ele salvaria do fogo se só pudesse salvar uma. A última edição portuguesa do colombiano é O Escândalo do Século (Dom Quixote, 2019), uma seleção dos seus textos jornalísticos mais relevantes, e a última edição portuguesa do peruano é Cartas a um Jovem Jornalista (Dom Quixote, 2021).

Acaba de sair na Dom Quixote um livro de autoria conjunta de Márquez e Llosa: Duas Solidões. O Romance na América Latina. É a transcrição do diálogo que os dois travaram na cidade de Lima nos dias 5 e 7 de Setembro de 1967, com tradução de J. Teixeira de Aguilar. A edição foi preparada pelo escritor peruano Luís Rodrigues Pastor (n. 1988), que escreveu uma introdução intitulada “Uma vez e nunca mais”. Antes desse texto há dois outros, o primeiro do poeta e crítico português Pedro Mexia (n. 1972), com o título “Irmãos inimigos”, e o segundo do escritor colombiano Juan Garcia Vásquez (n. 1973, uma nova geração), autor do recente Olhar para Trás (Alfaguara Portugal, 2019), que tem por título “Palavras recuperadas”. Depois do texto de Pastor há ainda uma “Nota preliminar” da autoria do escritor peruano José Miguel Oviedo (1934-2019), que foi o organizador do evento realizado na Universidade Nacional de Engenharia, cujo teor foi publicado na capital peruana logo em 1968.

O diálogo entre Márquez e Llosa, na altura grandes amigos, é o “sumo” do livro. Ele encontra-se entre as páginas 41 e 110 de um livro de 175 páginas. Mas depois desse “sumo” foram dados à estampa três testemunhos de escritores peruanos que viveram o singular encontro: Abelardo Sanches León (n. 1947), Abelardo Oquendo (1930-2018) e Ricardo González Vigil (n. 1949). O livro inclui ainda excertos de uma entrevista relativamente recente (de 10 de Junho de 2017) de Llosa ao El Pais onde deixa algumas reminiscências do antigo amigo, entretanto falecido. O livro fecha com duas entrevistas de Márquez a jornais peruanos publicadas em 1967, um conjunto de fotografias desse ano e um útil índice onomástico.

Qual foi o contexto do diálogo que atraiu uma enorme audiência? Márquez tinha então 40 anos e estava de visita ao Peru no seu auge literário, com a recente publicação em Buenos Aires de Cem Anos de Solidão. Por sua vez, o seu anfitrião, Llosa, com 31 anos, tinha acabado de receber em Caracas a primeira edição do Prémio Rómulo Gallegos, pelo seu romance A Casa Verde (Dom Quixote, 2010). A segunda edição do prémio, em 1972, haveria de premiar precisamente Cem Anos de Solidão. Estava-se então no início do chamado boom dos romances da América Latina, o que em boa parte corresponde ao de um género literário que ficou conhecido como “realismo fantástico”. Márquez e Llosa tinham-se conhecido em Caracas, tendo ficado instantaneamente amigos. A sua amizade, bem visível no tom muito cordial dos diálogos, tinha na altura apenas cinco semanas, mas estavam verdadeiramente encantados um pelo outro.

É bem sabido que essa amizade não iria durar sempre. De início os dois alinhados à esquerda, acabaram por se distanciar politicamente, com Llosa a aproximar-se de posições liberais. Ele foi o candidato de uma coligação de centro-direita às eleições presidenciais do Peru de 1990. Perdeu para Alberto Fujimori. Um dos motivos da separação entre Márquez e Llosa foi a relação com o regime cubano, que em 1971 prendeu o poeta Herberto Padilla. Llosa não hesitou em colocar o seu nome num abaixo-assinado de protesto contra a atitude do governo de Fidel Castro (de facto, o nome de Márquez também lá aparece, mas ele não tinha autorizado o uso da assinatura). O escritor colombiano, sempre esquerdista, deixou-se depois disso fotografar ao lado de Fidel.

Em 1976, estavam Márquez e LLosa na Cidade de México para assistir à estreia de um filme, quando o primeiro se dirigiu ao segundo para o cumprimentar. Foi recebido com um violento soco (em castelhano, um “punetazo”), dado pelo punho direito no olho esquerdo, que ficou logo todo azul. Tendo sido na ocasião separados, o certo é que os dois nunca mais se relacionaram, tendo guardado só para eles as razões da altercação. Consta que Márquez terá consolado a mulher de Llosa, numa ocasião em que esta estava abalada por um caso de infidelidade conjugal.

A conversa é basicamente uma entrevista feita por Llosa a Márquez, embora a certa altura este tenha tentado inverter os papéis. Llosa, que fez o seu doutoramento na Universidade Complutense de Madrid com uma tese sobre a obra de Márquez, revela-se arguto nas suas questões, respondidas por Márquez de modo inteligente, embora exuberante, por vezes mesmo exibicionista. Vejamos alguns exemplos. 

Logo de início Llosa pergunta: “Para que achas que serves tu como escritor?” Resposta de Márquez: “Eu tenho a impressão de que comecei por ser escritor quando percebi que não servia para nada. O meu pai tinha uma farmácia e, naturalmente, queria que eu fosse farmacêutico para o substituir. Eu tinha uma vocação totalmente distinta: queria ser advogado. E queria ser advogado porque nos filmes os advogados levavam a palma nos tribunais defendendo as causas perdidas. Contudo, já na universidade, e com todas as dificuldades que passei para estudar, verifiquei que também não ia servir para advogado. Comecei a escrever os primeiros contos e, nesse momento, não tinha verdadeiramente noção daquilo para que servia escrever. A princípio, gostava de escrever porque me publicavam as coisas e descobri o que mais tarde declarei várias vezes e que tem muito de verdadeiro: escrevo para que os meus amigos gostem mais de mim.”

Llosa quis saber as influências de Márquez: “(…) Em Cem Anos de Solidão, além das coisas que aconteceram ao avô do Gabriel ou das coisas que o avô contou ao Gabriel, quando ele era pequeno, acontecem também coisas muito surpreendentes: há tapetes voadores que passeiam as meninas por cima da cidade; há uma mulher que sobe ao céu em corpo e alma; há que casal que faz amor, no momento de o fazer, propaga a fecundidade e a fertilidade à sua volta; acontecem milhares de coisas maravilhosas, surpreendentes, inverosímeis. Indubitavelmente, uma parte do material que o escritor utiliza nos seus livros são experiências pessoais; mas há outra parte que vem da imaginação e outro elemento que, digamos assim, é cultural. Gostava que nos falasses deste último elemento; quer dizer, que leituras influíram principalmente em ti quando escreveste os teus livros?” Responde Márquez: “Eu conheço muito bem Vargas Llosa e sei para onde é que ele está a tentar levar-me. Quer que lhe diga que tudo isso vem do romance de cavalaria. E de certa maneira tem razão por que um dos meus livros favoritos, que continuo a ler e pelo qual tenho imensa admiração, é o Amadis de Gaula.” Mais adiante, Márquez reconhece a influência do escritor norte-americano William Faulkner. E indica também como referência o inglês Daniel Defoe. Acrescenta que admirava o argentino Jorge Luís Borges pelo seu cultivo da forma, embora embirrasse com os seus conteúdos, que considera muito artificiais, isto é, desligados da vida.

Pergunta Llosa a Márquez a certa altura: “Achas que és um escritor realista ou um escritor fantástico, ou achas que não se pode fazer essa distinção?” Resposta: “Não, não. Eu acho que particularmente em Cem Anos de Solidão sou um escritor realista, porque acho que na América Latina tudo é possível, tudo é real.” Na vez em que Márquez obriga Llosa a emitir opinião, este diz: “Eu acho que há uma relação curiosa entre o apogeu, a atitude ambiciosa, ousada dos romancistas e a situação de crise de uma sociedade. Acho que uma sociedade estabilizada, uma sociedade mais ou menos móvel que atravessa um período de bonança, de grande apaziguamento interno, estimula muito menos o escritor do que uma sociedade que se acha, como a sociedade latino-americana contemporânea, corroída de crises internas e de alguma maneira perto do apocalipse.”

Um último exemplo: Llosa pergunta a certa altura sobre “a relação que existe entre a atitude literária e a atitude política”. Márquez responde: «Bom, antes de mais nada acho que o principal dever estilístico de um escritor é escrever bem. Não só escrever bem quanto a escrever numa prosa correta e brilhante, como escrever bem, já não digo sinceramente, mas de acordo com as suas convicções.”

Porque permaneceram tanto tempo os dois escritores tão isolados um do outro? Na entrevista de 2017 ao El País, Llosa, que entretanto adquiriu a nacionalidade espanhola (tanto ele como Márquez viveram longos anos em Barcelona), não quis falar da sua relação pessoal com Márquez, embora tivesse entretanto autorizado que um excerto da sua tese de doutoramento tenha servido de prefácio a uma nova edição de Cem Anos de Solidão. Vejamos como responde quando o jornalista lhe pergunta se voltou a ver o seu amigo?. “Não, nunca mais… Estamos a entrar em caminhos perigosos, acho que está na altura de pôr termo a esta conversa.” A vida é mais complicada do que os romances, mesmo os do realismo-mágico.

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