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23 de novembro de 1954. Lollofrígida e as mulheres que arrancavam cabelos

23 de novembro de 1954. Lollofrígida e as mulheres que arrancavam cabelos

DR Afonso de Melo 23/11/2021 20:39

Na Lisboa das questões bairristas, a malta excitava-se porque Gina Lollobrigida ia passar umas horas no aeroporto a caminho de Buenos Aires.

A imprensa excitava-se: Gina Lollobrigida vinha a Lisboa! Quer dizer, vir não vinha. Passava por Lisboa. E isso já era motivo mais do que suficiente para deixar os jornalistas entusiasmados só pelo facto de a poderem vislumbrar no aeroporto onde faria escala no seu caminho para Buenos Aires. Gastaram-se parágrafos a gabar a beleza intrínseca da italiana e revelava-se que era convidada especial do general Perón. Já fora aos Estados Unidos jantar com Eisenhower e a Londres tomar chá com a Rainha Isabel. Sempre acompanhada pelo marido, o médico Mirko Shofic, chegara ao ponto de sofisticação de não assinar nenhum contrato de representação abaixo dos 35 milhões de liras. Nessa altura já tinha interpretado mais de 20 papéis em filmes como Outros Tempos, Pão de Amor e Fantasia ou Grande Ilusão, e esperavam-se alguns milhares de cinéfilos na Portela de Sacavém sonhando com um piscar de olhos (e que olhos!) daqueles lagos negros entre pestanas que faziam tombar apaixonados homens de todas as espécies.

Curiosamente, na coluna ao lado, acompanhando a excitação de Lollobrigida, o repórter começava assim a sua peça: “As mulheres que se enchem de ciúme são capazes de tudo...” Ciúmes era um termo que encaixava bem com Gina. Uma semana antes, em Veneza, fora de tal modo importunada pelo caçadores de autógrafos que soltou em voz alta o desabafo que lhe andava, há que tempos, preso na garganta: “Por favor! Deixem-me em paz! Quero estar sossegada com o meu marido!” Humphrey Bogart não perdeu a oportunidade de comentar: “É, na verdade, um belo espécime! Mas anda sempre com o raio do marido atrás...” E ganhou uma alcunha muito pouco agradável: Lollofrigida.

A mulher com ciúmes podia não ser um belo espécime, mas tinha as suas razões de queixa. Chamava-se Delmira, era casada e tinha filhos. Tal como Gina, queria estar com o seu marido, só que este, incapaz de resistir a um rabo de saias, pusera-se na alheta e fora viver amancebado com uma vizinha chamada Maria da Assunção. Por uma, duas e três vezes, Delmira pediu ao esposo para regressar ao lar. E ele, moita. Decidiu, então, chamar Maria à razão. Que o homem era pai de filhos, francamente, que o seu lugar era ao lado dela a educá-los e não andar por aí a flausinar. Que o largasse de uma vez por todas e o mandasse de volta. Maria não fez apenas orelhas moucas. Levou a questão a peito e jogou mãos aos cabelos da rival, explodiu um charivari, houve gritaria a puxar para o ordinário, enfiaram unhas uma na outra como gatas assanhadas, veio a polícia tomar conta do ocorrido, meteu esquadra e o diabo a quatro.

O magistrado Estava a Lollobrigida posta em sossego, na esplanada do aeroporto, à espera que enchessem os depósitos do avião e seguir para a farra de Buenos Aires, com o marido em redor, como um falcão, pronto a defendê-la dos inevitáveis maçadores, e estavam Maria da Assunção e Delmira no Tribunal de Polícia a serem ouvidas pelo magistrado de turno, o dr. Júlio Cabral. Realidades bem distintas na mesmíssima Lisboa. Maria tinha o crânio lenhificado por uma pancada forte que sofrera de pau de vassoura. Procurava explicar ao juiz a bondade da sua relação com o homem de mulher alheia. “Há tempos que ele fugira de casa, para longe dessa megera. Muito antes de nos conhecermos. Não roubei o marido de ninguém. Ele andava livre e agora andamos juntos. Foi isso que aconteceu e nada mais. Expliquem-me lá porque hei de arcar com as culpas? A culpa é dessa mulher que não foi capaz de o aguentar em casa, tal a má rês que é!”

O magistrado não estava muito interessado no discurso de Maria. Pregou-lhe um responso. Que procurasse homem solto e se deixasse de incomodar casais postos na vida, ainda por cima com filhos inocentes para cuidar. “Enfim, decoro, minha senhora, decoro!” E Maria, cada vez mais aflita: “Mas, senhor doutor, ele gosta de mim e eu gosto dele!”
Lei é lei: Maria da Assunção foi condenada a vinte dias de prisão, remíveis a 20$00 por dia, mais três dias de multa a 15$00 e 100$00 de imposto; Delmira apanhou oito dias de prisão, também remíveis a 20$00 por dia, três dias de multa a 15$00 e 50$00 de imposto. Não seria por isso que deixariam de se odiar uma à outra.

Falamos de tostões. O divórcio de Gina Lollobrigida, em 1971, arrastou rios de dinheiro e o médico Schofic foi aos arames como qualquer dona de casa de Lisboa. Disseram-se coisas feias, como é habitual, mas não se arrancaram cabelos. Gina esperou uns anos largos para voltar à vida de casada. Em 2006, já com 85 anos, resolveu trocar alianças com um fulano espanhol chamado Javier Rigau y Rafols, de apenas 45. Um pequenino escândalo sem consequências. Ou seja, enquanto Lollo esperava pacientemente no aeroporto de Lisboa, Javier estava ainda muito longe de ter nascido.

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