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Quinta da Marinha. Guerra de imobiliárias em condomínio de ricos

Quinta da Marinha. Guerra de imobiliárias em condomínio de ricos

Maria Moreira Rato 21/11/2021 09:09

‘Desmando urbanístico’ é a expressão que a Quinta da Marinha SGPS usa para descrever a construção do empreendimento Bloom Marinha, num lote que já pertenceu a Miguel Champalimaud. Mas há quem não lhe dê razão nesta guerra.

Na Rua das Palmeiras, uma das principais artérias da Quinta da Marinha, há cartazes pretos com a inscrição «Opinião: Quinta da Marinha não é responsável por este desmando urbanístico» acompanhados de uma seta vermelha que aponta em direção aos edifícios em construção que constituirão a Bloom Marinha. Já nos avisos, lê-se sobre um fundo branco: «Quinta da Marinha detém, a todo o momento, o direito legal de preferência na transação destas casas/edificações».

Divulgadas pelas 7h do dia 1 de outubro, pela Quinta da Marinha SGPS, liderada por Miguel Champalimaud, estas mensagens serão, apurou o Nascer do Sol, uma retaliação pela sociedade promotora Zaphira Capital ter adquirido o terreno com aproximadamente 14 hectares depois de Champalimaud o ter perdido para a banca.

Inicialmente, foi anunciado que o Bloom Marinha disponibilizaria moradias de tipologias pequenas (6 T1 e 28 T2) e de tipologias médias ou grandes (30 T3, 12 T4, 6 T5 e 6 T6). Contudo, este número deverá diferente devido à elevada procura de habitações com espaços ao ar livre desde o início da pandemia, tendo em conta a necessidade de isolamento e os sucessivos confinamentos implementados em variados países. Assim, espera-se que o espaço que estaria destinado a duas casas, a título de exemplo, possa transformar-se num destinado a somente uma. Se, numa fase anterior, 50% dos compradores eram estrangeiros e 50% portugueses, atualmente já há mais dos primeiros que dos segundos. Todas as casas, inseridas em lotes com uma dimensão compreendida entre os 320 m2 e os 2.900 m2, terão piscina própria e jardim privativo. A Zaphira Capital tem igualmente o intuito de criar uma zona comercial – com, entre outros estabelecimentos, um supermercado gourmet – da qual poderão usufruir todos os residentes da Quinta da Marinha e não somente os do Bloom Marinha.

«Ele sempre foi litigante e este cenário não é surpreendente. Há muitas décadas que tem atitudes como a da colocação dos cartazes e a da destruição da arborização que se encontrava em redor do Bloom Marinha», explicita uma fonte, que prefere não revelar a identidade por temer represálias. A verdade é que, entre ciprestes e outras espécies autóctones, Champalimaud levou a que o Bloom Marinha – cuja empreitada idealizara «antes de ficar sem dinheiro para a mesma» e esta ter sido concretizada muitos anos depois à sua revelia – visse deitado ao lixo o investimento de 100 mil euros que fizera para tornar a zona mais verde e esteticamente apelativa.

Acordar ao som de motosserras

«A megalomania dá nisto. Basta pesquisarmos online para entendermos que este senhor sempre quis recuperar aquilo que acha que é dele por direito só porque já pertenceu à família dele e/ou até a ele em tempos. Como se a herança continuasse a existir e não tivesse havido nenhum problema monetário nem nenhuma venda», sublinha a fonte suprarreferida, recordando acontecimentos como aquele que foi relatado no artigo Árvores abaixo e críticas ao Parque Natural Sintra-Cascais, publicado no jornal Público a 16 de agosto de 2000.

«Miguel Champalimaud não perdoa ao Governo os entraves colocados aos projetos do grupo Quinta da Marinha e acha que campos de golfe e outros empreendimentos turísticos defenderiam muito melhor o Parque Natural de Sintra-Cascais. Ontem, o empresário passou ao ataque e avançou por conta própria com acções de limpeza e abate de árvores. A reflorestação pode esperar até amanhã. As críticas à gestão da área protegida é que não», lê-se no artigo do Público.

Há 21 anos, após o grande incêndio que deflagrou no Parque Natural de Sintra-Cascais, Champalimaud ordenou que «meia dúzia de operários da empresa de construção civil Jodofer – que habitualmente trabalha para o grupo Quinta da Marinha» andasse «no parque de merendas do Guincho, de moto-serra em punho, cortando algumas das árvores afectadas pelo fogo».

«Antecipando-se às acções a desenvolver pelo Governo para recuperar a área ardida no Parque Natural Sintra-Cascais, Miguel Champalimaud, presidente da administração do grupo Quinta da Marinha, assinalou ontem o arranque dos trabalhos preliminares de limpeza e corte de árvores na zona do Vale da Foz, junto ao Guincho», descrevia, à época, o Público, traçando o retrato parcial do homem que procedeu à «declarada manifestação de desconfiança quanto aos prazos a cumprir pelo Governo» quando não esperou que o mesmo iniciasse o processo de reflorestação.

«Conforme prometido no dia seguinte ao incêndio, cá estamos a dar início aos trabalhos de recuperação da área ardida», terá dito o empresário.

A situação descrita é muito semelhante àquela que teve lugar há poucas semanas e foi denunciada por hóspedes dos hotéis situados nas imediações que, ouvindo o som de motosserras ao início da manhã, fizeram questão de tentar entender o que estava a acontecer.

«Os maus fígados deste homem já são conhecidos pela maior parte das pessoas. Ele nem sequer quis que os bombeiros apagassem o fogo que estava a dominar o campo de golfe porque, na opinião dele, iam destruí-lo», narra uma das fontes contactadas pelo Nascer do SOL, deixando claro que «só alguém que não ama a natureza é que faz coisas como esta».

«É uma situação do foro jurídico privado»

Além da destruição e abate de árvores, Champalimaud mandou cortar os pilaretes de madeira que haviam sido colocados no passeio para impedir o estacionamento abusivo. Ainda hoje, os vestígios da sua existência prévia formam uma espécie de fila a escassos metros do local onde trabalhadores se esforçam por terminar de construir as duas moradias que, em princípio, estarão prontas a habitar no início do próximo ano.

«Na Quinta da Marinha há espaços (vias de acessos, bermas, canteiros, etc) públicos e privados. Estes em concreto são privados. Os munícipes não pagam pelo acesso/usufruto das vias públicas. Nem na Quinta da Marinha, nem em qualquer local do concelho. Na realidade, trata-se de uma disputa entre dois privados (Quinta da Marinha SA e a empresa Zaphira, responsável pelas obras do Condomínio Bloom Marinha), ou seja, é uma situação do foro jurídico privado, dado que não foi danificado qualquer espaço verde do domínio público ou dano em mobiliário urbano», esclarece, ao Nascer do SOL, a Câmara Municipal de Cascais. Outra fonte que também não quis que o seu nome viesse a público frisou que Champalimaud «insiste em continuar a cobrar dinheiro às pessoas». «Faz algum sentido os proprietários gastarem um balúrdio pelas casas e ainda terem de lhe pagar para se deslocarem na Quinta da Marinha?», questiona.

O Nascer do SOL quis perceber se este clima de tensão também existe entre a Quinta da Marinha Original e outros empreendimentos contíguos, como o Marinha Prime e o Marinha Garden Residences. «Quanto às questões que nos coloca, gostaríamos de nos abster de comentar. Na realidade, o Marinha Prime não tem nenhum envolvimento nas mesmas e gostaríamos de nos manter dessa forma», reagiu a administração do empreendimento.
Sabe-se que o Bloom Marinha já terá apresentado uma providência cautelar e espera por uma decisão favorável do tribunal.

Artigo corrigido no dia 23/11 às 22h30

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