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José Paulo do Carmo 19/11/2021
José Paulo do Carmo

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As "historinhas" de Lisboa

Uma amiga que vive em Madrid teve um comentário curioso acerca desta forma de estar. Quando há poucos dias num almoço se começou a falar deste e daquele, ela saiu-se com um “ lá vêm as historinhas de Lisboa”. 

O nosso país predispõe-se muito a relações próximas, a vizinhos e amigos e a meios onde toda a gente se conhece. Mas mesmo aqueles que se acham o máximo cá dentro e que se consideram estrelas ou VIPs basta apanharem o avião para Madrid para perceber o quão insignificantes podem ser perante o mundo (à excepção de meia dúzia). Se sofremos na pele o facto de termos um mercado de consumo reduzido este facto traz-nos também muitas outras coisas.

A proximidade, os espaços de bairro, as relações humanas assentes no conhecimento que temos uns dos outros, a dificuldade em passar despercebido, o comercio local, a relativa facilidade em chegarmos a alguém, ou até o facto de (tirando as ilhas) conseguirmos percorrer toda a costa de carro num só dia.

Isso leva a que muitas das vezes sejamos pequeninos também no pensamento, algumas vezes mesquinhos e bisbilhoteiros. Vivemos muito a vida dos outros e esse conhecimento chega-nos através de simples conversas de café. Estamos sempre dispostos a saber um pouco mais da vida dos outros. Dizemos que é pura curiosidade mas muitas vezes é só inveja e a tentação de enchermos o ego com o mal de quem nos rodeia.

Uma amiga que vive em Madrid teve um comentário curioso acerca desta forma de estar. Quando há poucos dias num almoço se começou a falar deste e daquele, ela saiu-se com um “ lá vêm as historinhas de Lisboa”. De facto, as pessoas por vezes nem têm noção, mas passam a vida a falar, especialmente dos que não estão presentes. Normalmente começa com um “nem imaginas o que aconteceu ao João, à Mafalda ou ao Artur” e depois fazem dissertações e teorias, acrescentam um ponto e tal e para finalizar dizem que não têm nada a ver com isso... Falam como se fossem uns santos.

Como o meio é pequeno a história vai de boca em boca e segue o seu próprio caminho até prejudicar alguém. É o que se chateou com o sócio, aquela que se meteu com o outro que é casado, o namorado duma que passa a vida a mandar mensagens à outra e o vizinho que tem dívidas mas anda montado num carro topo de gama. Tudo serve para a conversa.

Fazemos disto vida. Há quem diga que é por isso que a ETA e outras organizações terroristas nunca se conseguiram instalar em Portugal. O meio é tão pequeno que quando aparece uma cara nova logo é motivo de falatório e tenta-se escrutinar tudo e mais alguma coisa para se tirarem ilações e se produzir um retrato. E há sempre uma ponta de inveja subjacente. Em certas cidades com sociedades mais sofisticadas e evoluídas vemos mulheres a elogiarem outras e um tipo de conversa mais positivo.

Por cá começamos normalmente a conversa com um desconhecido com um “o que é que fazes?”, como se tivéssemos alguma coisa a ver com isso ou como se o emprego fosse importante para definir o caráter ou o grau de interesse de alguém. Olham-se uns para os outros de alto abaixo e existe sempre alguma coisa para criticar, nem que seja a própria beleza em si. “Não é por mal” mas…

São as telenovelas da vida real a que alguns reality shows se associaram. Basta ver o sucesso dos mesmos para chegarmos à conclusão que de facto o que as pessoas gostam mesmo é de viver a vida umas das outras. Percebo que exista muita gente com pouco para contar, com um dia a dia desinteressante e chato mas daí a meter rótulos ou a arranjar confusão vai uma grande distância. É por isso que de certa forma é difícil para quem tem sucesso e dinheiro poder usufruir dele por cá. Ou vem da droga, de negócios ilícitos ou de família. Nunca é mérito e raramente elogiamos.

Sobra uma aristocracia falida que gosta de manter as aparências e de “armar ao pingarelho”. É o ver e o ser visto, o mostrar para contar. São as “historinhas de Lisboa” que no fundo não são mais do que o retrato do país. Para o bem e para o mal.


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