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Rodrigo de Castro e a peste de Hamburgo

Rodrigo de Castro e a peste de Hamburgo

Carlos Fiolhais 18/11/2021 12:29

Acaba de sair na Afrontamento o primeiro livro de Rodrigo de Castro, médico de origem judaica obrigado a exilar-se na Alemanha devido ao ambiente inquisitorial que se vivia no reino de Portugal no século XVI.

Rodrigo de Castro (c.1546-1627) é um médico de origem judaica, nascido em Lisboa e formado em Salamanca que foi obrigado a exilar-se devido ao ambiente inquisitorial que se vivia no reino português no final do século XVI, tendo-se fixado em Hamburgo, na Alemanha. Pertence a uma elite de médicos portugueses desse século, que integra outros judeus emigrados, como Garcia de Orta (c. 1501-1568), que foi para a Índia, Amato Lusitano (1511-1568), que andou por terras das atuais Bélgica, Itália, Croácia e Grécia, Francisco Sanches (1550-1622), que se fixou em França, e Zacuto Lusitano (1575-1642), que emigrou para os Países Baixos. Tanto Castro como Sanches e Zacuto são contemporâneos de Galileu, Kepler e Descartes e, portanto, da Revolução Científica. De certo modo, Sanches, com o seu Que Nada Se Sabe (1581; edição moderna: Vega, 1991), precedeu Descartes.

Entre as obras de Castro, quase todas escritas em latim, só estava traduzida em português O Médico Político. Ou Tratado Sobre Deveres Médico-políticos (Colibri, 2011), publicada em Hamburgo em 1616, que é um extraordinário tratado de ética médica que ainda hoje é moderno em muitos aspetos como salientou o saudoso João Lobo Antunes, numa sessão na Ordem dos Médicos aquando do seu lançamento, na qual tive o gosto de participar. Deixo um excerto: “Pois se [o médico] exercer a medicina por qualquer outra razão [sem ser curar doenças], como o lucro, a honra ou por causa da glória, não será chamado simplesmente médico, mas, tirado da finalidade o nome, será designado médico ambicioso, presunçoso e interesseiro (…); aquele, porém, que se designa verdadeiramente médico é impelido a curar por bondade e humanidade.”

A obra maior de Castro, por ser fundadora da Ginecologia e Obstetrícia (conforme salientei recentemente numa apresentação que fiz a abrir o 22.º Congresso Português de Ginecologia e Obstetrícia, realizado no Porto), foi, porém, o seu tratado, saído em Hamburgo e Colónia em 1603, e que conheceu um total de nove edições: De Uniuersa Mulierum Medicina (A medicina completa das mulheres). 

Porém, o primeiro livro de Rodrigo de Castro intitula-se Tractatus breuis De Natura, et Causis Pestis… ou, em português, Tratado Breve Sobre a Natureza e as Causas da Peste, que neste ano de 1596 assolou a cidade de Hamburgo. A edição original foi publicada por Jacob Lucius Junior, nessa cidade, e a edição moderna em português acaba de sair na Afrontamento, do Porto, sob o título A Peste de Hamburgo. Tratado breve da sua natureza e suas causas. O volume contém o texto latino original e a tradução em português, além de introdução, edição e notas de Bernardo Mota, Cristina Pinheiro e Gabriela Silva, todos eles investigadores no Centro de Estudos Clássicos da Universidade de Lisboa. O livro tem um prólogo do historiador de medicina espanhol Jon Arrizabalaga. Sendo o n.º 171 da colecção “Textos”, trata-se de um trabalho académico, realizado no quadro do projecto “Gyneceu - Rodrigo de Castro e a tradição médica antiga sobre ginecologia e embriologia”, coordenado por Cristina Pinheiro, professora da Universidade da Madeira. Mas esta edição, muito bem editada e produzida, tem também interesse para todos os curiosos pela história da medicina, ou, mais em geral pela história e mais em particular, por todos aqueles que, motivados talvez pela pandemia que vivemos, queiram conhecer as epidemias passadas.

A bela capa exibe o quadro de Pieter Bruegel, o Velho, O Triunfo da Morte (c. 1562), exposto no Museu do Prado em Madrid, que retrata uma surreal paisagem apocalíptica.

O resumo de A Peste de Hamburgo está indicado no subtítulo: “Nele se mostra, de forma sucinta, mas exata, na presente enfermidade, que método de prevenção e de cura se deve observar, para que tanto a cidade no seu todo como cada um possa, do mal nascente, preservar-se, e, depois, a pernície já ocupante, mais facilmente, rechaçar. E ainda muitas coisas nesta matéria até agora difíceis de entender são explicadas de passagem.”

O autor começa com uma dedicatória ao Senado de Hamburgo, onde brilha a sua arte retórica: “Incríveis Varões de tão grande sabedoria e virtude! Perseverai a fazer o que sempre fazeis e guarnecei a florentíssima e opulentíssima República com este triplo nó, que, como se diz, não se desata facilmente: com os bens da fortuna, com a justiça e com as letras. (…) É verdade que há, nesta cidade, varões sapientíssimos e aprimoradamente versados na arte médica, que, com os seus muito eruditos e salutares conselhos, podem ajudar a República, e, por isso, esta nossa obra poderá parecer menos necessária. Considerei, no entanto, que também Vos devia ser oferecida alguma coisa sobre esta matéria, não tanto por dela terdes falta, mas porque desejava que a minha afeição e o meu respeito para convosco e para com o Magistrado fossem conhecidos e testemunhados. Espero que Vós, muito distintos e esplêndidos Varões, considereis esta oferta boa e justa.”

Depois deste empolgante intróito, o autor divide o seu texto em quatro partes: “A natureza das causas e os sinais desta calamidade”, “O método e preservação contra a peste”, “O método para curar a peste” e “O uso correcto dos remédios”. Sobre as causas da peste bubónica - sabemos hoje que ela resulta da bactéria Yersenia pestis - o autor escreve: “Ela provém de qualidade oculta, envenenada e perniciosa, oriunda ou de podridão maligna concebida pelos humores ou de alguma causa superior, que vem acompanhada, muitíssimas vezes, por febre maligna, pápulas ou manchas de diversas cores ou ainda bubões.” Apesar de a doença ter, em última instância, origem divina, cabe aos médicos fazer-lhe frente: “Com efeito, tal como lhes cabe a eles [os teólogos] ensinar o conhecimento de Deus e livrar a alma das suas afeções, assim cabe aos médicos perscrutar as obras da natureza e libertar o corpo humano das enfermidades.”

Encontram-se muitas coisas modernas no texto de Castro, designadamente as medidas de afastamento social, incluindo a cessação dos cumprimentos tradicionais: “Todos aqueles que se querem manter saudáveis devem fugir das aglomerações de pessoas, pois aí o ar não circula livremente e o hálito expirado é mais rapidamente comunicado aos presentes. Por isso, agirão muito corretamente os que conversam uns com os outros, se evitarem que o hálito da boca, que com extrema frequência infeta, atinja a pessoa que está próxima. Com efeito, noutras regiões, isto respeita-se com extrema diligência mesmo em tempos de saúde, por civilidade. Ainda que o costume de estender a mão seja óptimo e louvável, a mim, todavia, parecer-me-ia mais proveitoso se, enquanto durar o contágio, as pessoas usassem outro modo de cumprimento.”

Também atuais são outras medidas de saúde pública: “Penso que seria extremamente acertado e útil se, em cada paróquia, houvesse dois ou três homens (que, em outros lados, se chamam ‘Provedores da Saúde’ e são de grande autoridade) para diligentemente inquirirem sobre doentes semelhantes e os persuadirem a tomar, a tempo, medicamentos úteis à saúde, e não deixarem ninguém sair de uma casa infectada.”

Sendo a doença de grande letalidade, haveria que  enterrar os mortos com cuidado: “E se alguém morrer deste mal pernicioso, haja coveiros adscritos a esta função: de o sepultar. E mais: requeira-se um médico, um pastor, um cirurgião, ou cirurgiões assistentes, e guardiões indicados para esta tarefa: de os visitar, mas sem se aproximarem dos outros, para que o mal não alastre através das mãos e se dissemine.” E, haveria, tal como hoje, de se tratar das estatísticas da mortalidade: “De seguida, se, em cada semana, se enviar, de cada paróquia, o número dos doentes e dos mortos ao Magistrado, isso será de grande utilidade para se compreender mais facilmente a progressão da doença; para ela não levar mais vidas, a pretexto de outra enfermidade, ao espalhar-se às escondidas; para, pelo contrário, com um bom conhecimento da situação, podermos enfrentá-la melhor e os pacientes tomarem os seus remédios atempadamente.”

O livro indica um extenso rol de medicamentos a tomar para prevenir ou tratar o flagelo da peste - um rol que nos informa sobre o estado primitivo da medicina na época. O autor insiste que é possível tanto prevenir como curar: “A peste é, sem dúvida, de sua natureza, uma doença letal e que mata muitos dos mortais - exceto se, pela aplicação dos remédios convenientes, os seres humanos, com o auxílio da arte médica, resistirem de forma diligentíssima e rápida. Daí vermos que muitos, tendo tomado os remédios a tempo, se restabeleceram e salvaram.”

Rodrigo de Castro é autor de mais um livro, escrito em português, sobre o herém, a excomunhão judaica (a pena a que foi condenado o famoso filósofo judeu de origem portuguesa Bento Espinosa, 1632-1677, na Sinagoga Portuguesa de Amesterdão), Tratado de Herém, Em o Qual a Cerca Desta Matéria…, mas essa obra perdeu-se. Se e quando aparecer será interessante conhecer melhor as circunstâncias da excomunhão de um médico que tinha assumido a sua pertença ao judaísmo, sob o nome de David Nahmias.

Castro quis exercer o levirato, isto é, a faculdade de, mesmo sendo casado, fecundar a mulher do seu irmão, que tinha falecido sem descendência. A comunidade judaico-portuguesa de Hamburgo logo se opôs, apoiada pelo rabi, o que obrigou o médico a defender a sua posição num livro que, existente na biblioteca central de Hamburgo, desapareceu durante a Segunda Guerra Mundial. Ficou um enigma por deslindar…

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