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Rui Gomes da Silva. "Só a vontade de conduzir Sócrates ao poder levou à dissolução de 2004"

Rui Gomes da Silva. "Só a vontade de conduzir Sócrates ao poder levou à dissolução de 2004"

Miguel Silva Henrique Pinto de Mesquita 17/11/2021 14:12

Gomes da Silva parece querer afastar-se oficialmente do futebol. Volta, então, para a política, onde já escolheu o seu candidato.

Ministro de Santana Lopes, Rui Gomes da Silva dá esta entrevista como que parecendo estar a medir a temperatura das águas políticas antes voltar a mergulhar nelas. Está de gravata encarnada: o que não será por acaso. Embora diga que “sempre distinguiu o futebol da política” e tenha dado esta entrevista no âmbito da segunda, rejeita estar a voltar a ‘fazer-lhe olhinhos’. Assume que votará em Rangel no dia 27 de novembro: porque é ele quem terá mais “condições de ganhar eleições”. Na verdade, apesar da sua declaração de voto, fica-se com a ideia que move mais energias a desculpar-se de não votar em Rio do que a justificar o seu voto em Rangel. Não belisca Marcelo e até lhe traz à memória os tempos da “Nova Esperança”, de que confessa ainda ter guardada a conta do jantar da fundação. Numa entrevista que vai desde citações de Fidel Castro a filmes de Orson Welles, este é Rui Gomes da Silva a voltar – ou não - a namorar a política. Sempre pelo PSD – e nunca pelo Benfica. 

Era ministro de Santana Lopes quando a Assembleia da República (AR) foi dissolvida. Quase sempre que a AR é dissolvida dá-se uma inversão do ciclo político. Neste momento, considerando o atual estado do PSD e do CDS, acha que os portugueses procurarão essa inversão do ciclo político? 

Não sei. Um ato de dissolução não pode ser tomado em função daquela que é a previsão da próxima maioria. Acho que um ato de dissolução é tomado e tem que ser fundamentado não em função da expectativa de quais são os cenários políticos a seguir, mas em função da degradação e das razões que levaram a essa dissolução. E por isso é que a situação a pensar numa solução desse tipo – ou seja, que só poderá haver dissolução se a seguir o quadro político for diferente – é um raciocínio perverso que altera as regras institucionais e os próprios fundamentos constitucionais. Estes fundamentos determinam a estabilidade dos mandatos, que pressupõem maiorias estáveis, coerentes e que não contestam as lideranças como aquela que existia em 2004 – quando o Presidente Sampaio decidiu dissolver a Assembleia não em função de questões concretas (que, aliás, nunca as invocou), não em função de situações que tenham a ver com o regular funcionamento das instituições, mas única e exclusivamente com perspetivas e previsões políticas. Quando as instituições são reguladas não em função de questões de Estado, mas em função de questões de opções políticas, não é uma boa solução que estamos a prestar ao país. Neste caso há duas situações diferentes: em 2004 havia uma maioria estável que queria continuar a governar – que tinha todas as condições para continuar a governar – e o senhor Presidente da República decidiu interromper a legislatura. Agora, apesar de ser este o Governo minoritário que mais tempo esteve em funções, de alguma maneira havia regras de instabilidade e regras fixadas pelo senhor Presidente da República ab anteriori, ou seja, o Presidente da República disse quais eram as condições em que mantinha esta AR em funções e quais as condições em que optaria por eleições. Foi muito claro nisso. E, portanto, os partidos que compunham a maioria que apoiava o Governo optaram por fazê-lo cair, o que não foi o caso em 2004. Tendo soluções idênticas, o ponto de partida é completamente diferente: num havia um Governo minoritário que não conseguiu reunir a maioria na AR para aprovar uma questão fundamental como é um Orçamento, no outro havia uma maioria estável, coerente, unida em torno de um programa partidário e de um programa sufragado nas eleições em 2002. Só a vontade de conduzir ao poder uma pessoa como José Sócrates – que era, na altura, o líder do Partido Socialista – levou a que fosse tomada essa decisão. É uma decisão intencional de alterar o ciclo político. Não havia nenhum sinal dentro da maioria dos deputados. Não havia nenhuma votação que tivesse posto em causa a maioria parlamentar. 

Acha que Marcelo procura quebrar este ciclo político e iniciar outro? Há uma intenção da mesma maneira que, como diz, havia com Sampaio? 

Se fosse essa a sua intenção ele não teria entrado por onde entrou. Se houvesse uma leitura que não fosse a de dar de novo oportunidade aos portugueses para expressarem o seu sentido de voto, penso que o Presidente da República, até em função das sondagens, levaria a que houvesse uma tentativa de renovar a apresentação do Orçamento ou de fazer pontes no sentido de encontrar uma nova maioria ou apoios para o Governo. O PR foi bem claro: no momento em que estamos, depois de dois anos de pandemia, era importante que houvesse um orçamento. Não se trata, por isso, de um problema de mudar de ciclo político: ou seja, de ser agora um Governo de Esquerda e mudar-se para um de Direita. Acho que o PR não tem as mesmas intenções que tiveram Jorge Sampaio ou Mário Soares em 1987. 

Mas considera que os portugueses neste momento vão revalidar a sua confiança no PS? 

Não sou adivinho. Leio, como todos nós, as sondagens. 

Que estão erradas muitas vezes. 

Sim, é verdade. Há sempre uma espiral de silêncio em relação à Direita, nomeadamente em momentos de rutura. Vi essa espiral de silêncio nas eleições de 2001 com a vitória de Santana Lopes na Câmara Municipal de Lisboa. É uma das coisas normais nas sondagens: não diria vergonha, mas o voto à direita é sempre um voto mais cerceado, mais limitado, mais condicionado. Lisboa em 2001 é exemplo disso: na sexta-feira antes das eleições o Expresso anunciava que o Dr. João Soares iria ter uma maioria com 10 pontos de avanço e depois ganhou o Dr. Santana Lopes. Num quadro em tudo diferente do de hoje: na altura a Direita estava dividida – o CDS e o PSD iam sozinhos e agora foram juntos – e a Esquerda estava toda junta, sendo que hoje foi toda dividida. Portanto, há diferenças de conceptualização e há diferenças de capacidade de junções de vontades políticas. Ainda assim, aquilo que resulta, para o imaginário político e para a história, é que o Dr. Santana Lopes ganhou em 2001 e o Eng. Carlos Moedas ganhou em 2021 – 20 anos depois. 

Relativamente a essa espiral de silêncio, Marcelo falava da necessidade de “a Direita fazer oposição”, que é uma maneira de dizer, por outras palavras, que Rio não faz oposição. Serão agora as diretas do PSD dia 27 de novembro. Vai apoiar Paulo Rangel ou Rio? 

Durante alguns anos, pelas funções que exerci em termos desportivos e até pela candidatura que apresentei há um ano [a presidente do Benfica], estive ligeiramente afastado da política. Enquanto exerci cargos políticos não tive cargos clubísticos e quando me tornei vice-presidente do Benfica deixei imediatamente a política (era deputado e não entendi, sequer, concorrer às próximas eleições). Nos sete anos e meio que estive como vice-presidente do Benfica e depois no período de tempo em que decidi candidatar-me a presidente do Benfica não exprimi nenhuma vontade política. Acho que é uma questão de honra: quem está na política não pode estar no desporto e quem está no desporto não pode estar na política. Agora livre dessas situações, diria que votarei não tanto contra ninguém, mas em função daquilo que eu acho que é a melhor perspetiva para o PSD. E acho que a melhor perspetiva para o PSD – daquilo que eu que eu quero: o PSD a ganhar as eleições – passa pelo Dr. Paulo Rangel. Não é uma decisão contra o Dr. Rui Rio ou contra as pessoas que o apoiam (algumas das quais respeito muito). É, acima de tudo, aquilo que eu acho melhor para o país. Conheço Rui Rio desde os tempos da JSD – fim dos anos 70. Tivemos percursos comuns no movimento associativo, na JSD, em 1982 coincidimos nos Conselhos Nacionais, em congressos partidários, depois, em 2001, assisti com muito gosto a que ele tivesse ganhado a Câmara Municipal do Porto. Em 2004 e 2005, quando fui ministro dos Assuntos Parlamentares e depois ministro-Adjunto, falei algumas vezes com Rui Rio. Mas o meu voto será em Paulo Rangel – e penso, aliás, que ele vai saber desta minha decisão por esta minha declaração. 

Sendo que diz que sempre “separou bem a diferença entre futebol e política” e que estamos, neste momento, a conversar sobre política, quer isto dizer que está disposto a voltar às lides políticas? 

Não. Sou militante do PSD desde março de 1977. Isso significa que tenho uma visão social-democrata (tanto quanto a social democracia em Portugal é uma social democracia diferente da europeia, sendo que não vem de Bernstein ou de Kautsky). Já fui candidato a tudo: vice-Presidente, Conselheiro Nacional, membro do Conselho de Jurisdição Nacional, membro do Governo, ministro dos Assuntos Parlamentares, ministro-Adjunto, membro da direção do Grupo Parlamentar, presidente da delegação parlamentar à NATO, vice-presidente da mesma, membro durante 14 anos da Assembleia Parlamentar da NATO, porta-voz da área dos Negócios Estrangeiros na Assembleia. Tentei desempenhar estas funções nunca omitindo aquilo que pensava e com toda a frontalidade. Combatendo sempre aquilo em que não acreditava e defendendo sempre aquilo em que acreditava. Não sendo um homem da corte, embora sendo um homem de muitas cortes e de muita política durante estes anos todos. Sempre tentando ser um homem de uma só cara. 

E tem vontade de voltar a exercer funções ativas na política, nomeadamente no PSD? 

O PSD é uma paixão. Aí a citava o senhor Presidente da República (com quem estive muito tempo na Nova Esperança. Ainda tenho, aliás, a conta do jantar onde a Nova Esperança foi fundada): “Em política a última coisa que se faz na vida é sair de um partido”. Tomo essa máxima como minha até ao fim da vida e, por isso, das duas uma, ou o PSD acaba antes de mim, ou morrerei militante do PSD. Apesar disso, respeito muito quem, em determinado momento, tentou essa experiência – como Pedro Santana Lopes. Aliás, se eu fosse líder do PSD, a primeira coisa que faria nos próximos tempos era tentar ‘reconvidar’ o Dr. Pedro Santana Lopes. Sá Carneiro tem uma frase extraordinária quando viu a maioria do partido a sair do PSD: “Nunca estive tão sozinho, mas nunca tive tanta certeza de ter toda a razão na vida”. Esta é, para mim, uma frase de vida. Foi o que me aconteceu no Benfica: nunca estive tão sozinho na vida e nunca tive a certeza de que todas as outras pessoas que votaram nas outras listas estavam não uns contra os outros, mas contra mim. 

E na política já sentiu essa solidão? 

Muitas vezes. Quando fui ministro dos Assuntos Parlamentares, quando me candidatei a presidente da JSD e tive cerca de 40% dos votos em 1982, quando fui candidato a presidente da distrital e tive o partido todo – incluindo ministros – a combaterem-me. E, portanto, não me esqueço. Perdoo, mas não esqueço determinadas coisas. Apesar de ser humanista e personalista tenho bem presente as histórias do PSD. 

E voltando às saídas dos partidos, por que se dão estas no CDS? 

Por uma razão muito simples: começa um novo ciclo e há um conjunto de pessoas que são verdadeiramente defensores de convicções alheias – que nunca perdem e que continuam sempre lá – e há as pessoas que só estão para ganhar quando há interesses e quando há coisas a distribuir. 

Quem é quem? 

As pessoas saberão. 

Será a dita ala Portista que ‘tem sempre que ganhar’? 

Não sei se é a ala Portista. Não tenho nada a ver com o CDS e respeito todos. Não conheço o atual presidente do CDS, embora seja grande amigo de um colega meu de escritório. Tenho também uma grande admiração pelo Dr. Nuno Melo. Sem querer interferir no CDS, a única coisa que digo é que as regras são as mesmas, não é? Na política tem de haver legitimidade. E a legitimidade quer-se refrescada em relação a cada momento. Agora, as pessoas têm de perceber também por que é que agora se lembrou tudo de determinadas coisas: durante anos não se preocuparam com as regras internas, não se preocuparam com determinadas situações e de um momento para outro aparecem a discutir, falar, e mudar regras que estavam institucionalizadas quando as pessoas estavam no poder. 

Defende então que haja eleições internas antes das legislativas tanto no CDS como no PSD. 

Acho que Rui Rio fê-lo e fê-lo muito bem: porque é diferente ir com legitimidade reforçada – apesar de tudo – do que não ter legitimidade reforçada. Mas respeito as pessoas que não entendem como tal. Não tenho nenhuma legitimidade para dar opinião sobre o CDS, mas naquela situação iria sempre a votos. 

Acha que Rodrigues dos Santos tem medo? 

Não, acho que tem uma interpretação diferente em termos de legitimidade. Acho que ele tem toda a legitimidade para pensar como pensa. E repare que a tentação Rui Rio foi um bocadinho essa e a seguir percebeu que que isso o diminuiria muito. 

Voltando a Santana Lopes: este foi primeiro-ministro e agora é presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz. Há quem que diga desceu um degrau. O que acha disto? 

Para quem gosta da política, do exercício de funções públicas e de desenvolver a sua atividade em prol do bem público, todos os cargos são dignos. Mário Soares foi Presidente da República, depois foi deputado ao Parlamento Europeu e depois voltou a ser candidato à Presidência. O professor Mota Pinto foi primeiro-ministro e depois foi vice-primeiro-ministro de um Governo do Dr. Mário Soares. Tem a ver com a leitura que as pessoas fazem de cada uma delas. Acho que não há aqui regras estanques em relação à representatividade. Antes pelo contrário: acho que é um grande ato de humildade democrática alguém que foi primeiro-ministro, líder do PSD, que teve o mundo todo a seus pés (um bocadinho como o Orson Welles no Citizen Kane), perceber, de um momento para o outro, que pode ser útil noutras paragens. Já não sendo completamente um jovem, mas tendo disponibilidade para voltar 25 anos depois ao mesmo sítio fazendo a mesma campanha (que se provou hoje não ter sido um passeio). Quem o ouve falar, vê ali, de facto, um sonho para a Figueira como teve em 1997 ou em 2001 para Lisboa. É desses sonhos que é feita a política, que é feita a vida e que é feita a história dos povos. 

Na tomada de posse do XVI Governo Constitucional, em que participou, Paulo Portas parece ficar surpreendido por ter recebido a pasta dos ‘Assuntos do Mar’. Hoje, podemos saber se Paulo Portas sabia ou não que iria receber aquela pasta? 

Conheço a versão do primeiro-ministro e, não estando aqui a desvendar nenhum segredo, penso que Santana Lopes tinha comunicado a Paulo Portas que era aquela designação da pasta. Pelo menos sempre foi essa a história que ouvi dentro do Governo e, portanto, aquilo foi uma expressão facial talvez de surpresa pela designação, mas não de surpresa pelas funções. Paulo Portas sabia que essas eram as funções que iria ter. 

Surpresa pela denominação, então. 

Talvez surpresa pela denominação. Mas aconteceu tanta coisa naquele Governo, coisas estranhas. 

Como por exemplo? 

Aquilo tudo que fomos assistindo, de pessoas que provaram falta de caráter. 

Como por exemplo?

“A história encarregar-se-á”, como diria Fidel Castro. A história julgará Pedro Santana Lopes, julgará as pessoas que estavam de boa fé, julgará as pessoas que estavam de má-fé naquele Governo e julgará também as pessoas que, por aquilo que me garantem, tentaram fazer pontes com o inimigo para destruir na altura o PSD de Pedro Santana Lopes. 

Mantendo-nos à direita, mas indo mais para a direita, o que tem a dizer sobre o Chega? 

O Chega só existe por erros do PSD. O PSD sempre foi um partido da Direita sem ser um partido de Direita. Sei porque estou no PSD: o meu PSD é conservador nos valores e muito à esquerda na parte da economia, nas questões sociais, na saúde, na distribuição da riqueza, etc. Mas também com uma grande preocupação de criar riqueza antes de a distribuir, ou seja, não enveredar por regras de distribuição de riqueza que omitam a necessidade de criar essa mesma riqueza para depois a distribuir. O grande erro do PSD hoje em dia é confundir estas coisas: é economicamente à direita e, em termos de valores, muito à esquerda. Privatizar decisões significa cedências à esquerda em termos de valores. A partir do momento em que privatizo decisões e estas têm a ver com problemas de consciência, tenho as cedências de todo tipo de pressões e, portanto, tendo a confundir as próprias votações. Estas agendas mediáticas levaram o PSD para a esquerda. Francisco Sá Carneiro, Cavaco Silva ou Durão Barroso – que não era homens de Direita – cativaram votos à sua direita. Pedro Santana Lopes em Lisboa, mesmo com o CDS à sua direita, foi buscar os votos suficientes a essa Direita para ganhar na Câmara de Lisboa. Quando o PSD, envolvido por uma agenda mediática de esquerda, enveredou por ser um partido à esquerda nos valores e não na economia, deixou de ser o partido das pessoas da Direita – não sendo nunca um partido de Direita – para ser um partido em que estas tais pessoas da Direita deixaram de se rever. Isso criou a existência de uma zona vazia – e a política, como tudo na vida, tem horror ao vazio – que levou ao aparecimento do Chega. Através de alguém que percebeu que havia ali um grande espaço político que valeria a pena ocupar. 

Se a questão é que o PSD virou à esquerda a nível dos valores, por que motivo esses eleitores não se reviram no CDS?  O CDS continuou conservador nos valores. 

O problema não é esse. Independentemente do esforço, ninguém hoje percebeu aquilo que o CDS quer. O CDS dos fundadores, de Amaro da Costa, de Freitas do Amaral, de Lima Costa, mesmo até de Adriano Moreira ou Lucas Pires, tinha ali uma idiossincrasia com alguém que tinha um voto importante – que oscilou entre os 16% e os 4%, alterando e reduzindo a relação entre os votos do PSD e os votos CDS. Isso levava a um determinado projeto, um projeto diferente. O grande problema de Francisco Rodrigues dos Santos foi não ter dado conteúdo ao projeto que ele tem para o CDS. De fora não se percebe esse projeto e isso levou a que houvesse uma fuga e este debate (que nem sequer é ideológico, porque aquilo que estamos a assistir no CDS é um debate de personalidades). Já no PSD, percebe-se que Rio seja mais à esquerda que Rangel no campo dos valores. Percebe-se que Rio seja menos mediático – ou menos ‘bom de voto’, como diriam os brasileiros – e Rangel possivelmente ‘melhor de voto’. 

Passando a bola para outro lado, quais são as principais semelhanças entre a política e o futebol? 

Muito poucas. Apesar de tudo, na política há ideologia, há projeto. No futebol há pura e simplesmente Maquiavelismo. Se houvesse algo mais parecido com o Maquiavelismo seria o futebol, por uma razão muito simples: os fins justificam os meios. Tudo o que você faça é justificado em função da vitória. A vitória tudo justifica. Acima de tudo a diferença é essa: valores. Apesar tudo, as pessoas que estão na política não têm grande comparação com as do futebol. Em termos de pensamento, em termos de cultura, em termos de vivência, o futebol é uma grande desilusão. 

Acha que a política é um espaço mais civilizado? 

Não, civilizados são ambos – fazem parte da nossa civilização. O Vargas Llosa tem aqueles cadernos do Dom Rigoberto em que diz que o futebol é a pior coisa que há na vida. Depois há um filósofo – Carlos Zubieta – que diz que não perceber de futebol hoje em dia é a mesma coisa que não perceber de economia, cultura, energia ou questões ambientais. Uma pessoa que queira estar atualizada, queira intervir na sociedade, queira participar nas questões do dia-a-dia, não perceber de futebol, no mundo ocidental, é um erro tremendo, é auto mutilar-se em relação a uma zona de conhecimento importante. 

Já nos falou de duas paixões: o PSD e o Benfica. Se tivesse de escolher entre as duas, qual escolheria? 

A paixão é o Benfica. O PSD é uma opção racional. 

Ou seja, o coração está no Benfica e a cabeça está no PSD? 

Esse é o ponto de partida: o ponto de partida no Benfica é o coração e ponto de partida no PSD é a razão, embora muitas vezes chegue à defesa de questões no PSD pelo coração e queira sempre defender o Benfica pela razão.

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