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Maria José Costa Dias. "Os enfermeiros devem ser os advogados dos doentes"

Maria José Costa Dias. "Os enfermeiros devem ser os advogados dos doentes"

Miguel Silva Gonçalo Morais* 16/11/2021 14:08

Enfermeira diretora do Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central defende que é preciso uma “aposta política na profissão”.

* Texto editado por Vítor Rainho

Maria José Costa Dias, enfermeira diretora do Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central (CHULC), contou ao i como o “espírito de missão” ajudou a combater a pandemia e como “gostava que a senhora ministra olhasse para os enfermeiros como seus aliados” e “seus parceiros estratégicos”. Defende que é necessário uma “aposta política na profissão”.

Quais foram as maiores dificuldades para os enfermeiros no Centro Hospitalar com a chegada da pandemia?
A pandemia causou-nos vários desafios que tivemos de ultrapassar. Nunca tinha havido uma situação idêntica, embora este Centro Hospitalar seja de referência, por exemplo, para questões do ébola. Estávamos preparados e tínhamos feito inclusive treino.

Mas nunca tínhamos sido confrontamos com uma situação de pandemia. Tivemos de fazer um percurso de aprendizagem desde início até aos dias de hoje. E as diferenças são notórias. Havia o conhecimento da pandemia através da literatura, da bibliografia e, teoricamente, sabíamos como ingressar nesta questão. Na prática, não. A primeira questão que se colocou foi de estratégia: como vamos dar resposta à pandemia?

E quais foram essas estratégias?

Identificar e treinar as equipas. A primeira grande estratégia que definimos foi quais eram os serviços e hospitais que iriam dar resposta aos internamentos por covid e quais aqueles que iriam dar resposta aos outros tipos de doentes. Para além disso, tivemos também, a nível das três urgências do CHULC – obstetrícia, pediatria e adulto – definir circuitos próprios para os doentes respiratórios e para os doentes não respiratórios. Treinámos as equipas e tivemos de investir fortemente na formação para lidar com esta situação – como na utilização de equipamentos de proteção individual. 

Os recursos humanos eram suficientes?

Não. Tivemos de fazer pedidos de autorizações junto da tutela para aumentar os nossos recursos humanos. Houve recrutamento e também mobilidade interna, ou seja, colocou-se em serviço outros profissionais para estas zonas especificas de covid – porque aqui a experiência anterior de trabalho é crucial, assim como a sua maturidade de resposta. Houve áreas que decresceram fortemente a sua atividade, como os blocos operatórios, e tivemos possibilidade de reforçar enfermeiros para apoiar as unidades de cuidados intensivos.

Houve, internamente, um espírito de missão, um espírito de propósito em termos dos profissionais de enfermagem e as pessoas compreenderam muito bem. Muitos perguntavam o porquê de sermos nós e não outros, a lidar com a covid, mas demos o nosso melhor. Acho que conseguimos dar uma resposta muito boa. Fizemos um planeamento, que foi fundamental para saber como aumentar a capacidade do hospital para dar resposta à pandemia.

Definiu-se indicadores que, face ao atendimento que tínhamos, obrigou à abertura de novas áreas de internamento. Os números são públicos. Acho que fomos bem-sucedidos.

Se pudesse voltar atrás fazia alguma coisa de diferente?

Acho que voltávamos a fazer da mesma forma. Isto porque definimos as estratégias necessárias e conseguimos dar resposta. Claro que temos o problema do número de recursos, que é um constrangimento. Não apenas porque é necessário a autorização para contratar, mas também porque não tínhamos números suficientes no mercado. 

As dificuldades de contratar podem estar relacionadas com a concorrência com o privado? 

Não. Para o ingresso na carreira de enfermagem, o privado talvez não seja muito atrativo para os profissionais. Para os que já tenham uma evolução da carreira o privado tem outros mecanismos de motivação e de remuneração que, infelizmente, a função pública não tem. O meu problema não é no ingresso, mas sim a posteriori conseguir reter aqueles que são os melhores. E eu gostaria muito que a função pública me dessas ferramentas para o fazer. E não as tenho. 

Em 2019, Portugal era o quinto país da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) que pior pagava aos enfermeiros. A covid-19 veio mostrar uma realidade dos enfermeiros que antes não era falada?

Se a pandemia teve algum benefício, foi o de dar maior voz aos problemas dos enfermeiros e colocá-los em cima da mesa. Desde logo, o fator remuneratório e uma carreira que não dá resposta as necessidades dos enfermeiros. Na minha opinião, não dá resposta ao que se pretende em termos conceituais de um desenvolvimento de carreira adequado. Nós praticamente não conseguimos abrir concursos para os profissionais, mesmo com a categoria de enfermeiro especialista – o que é fundamental. 

Por que é difícil? 

Desde logo porque passar para a categoria de enfermeiro especialista envolve questões financeiras, modificação e aumento dos vencimentos dos enfermeiros e não tem havido autorização por parte da tutela para abrir concursos. O problema também existe numa área que é estratégica: a do enfermeiro gestor – que são fundamentais para gerir os serviços. Sem serviços com bons gestores não conseguimos ter as equipas orientadas. Com as não aberturas de concursos para enfermeiros-gestores, neste momento temos enfermeiros em funções de chefia – que a antiga carreira permitia e a atual não. Além disso, muitos destes enfermeiros gestores estão próximos da aposentação e vamos ficar desnatados nos serviços caso não se abram os concursos. 

Cansaço extremo, falta de condições de trabalho, falta de recursos humanos, má renumeração, congelamentos das carreiras. O CHULC reporta estes problemas? 

Exatamente. E esses problemas são a nível nacional. Não somos diferentes. 

Como se torna a profissão de enfermeiro mais atrativa para os jovens? 

A profissão de enfermagem não vai ser passível de ser substituída por tecnologias de informação, como em outras profissões. Os enfermeiros irão ter o contributo dessas tecnologias, mas cuidar de uma pessoa é impossível de ser substituído. A profissão vai continuar a ter necessidade de ter profissionais.

Para que ela se torne mais atrativa tem que haver o desenho de uma carreira. É muito importante as pessoas perceberem como podem progredir de uma forma clara e concreta – precisamente aquilo que não tem acontecido. Nós não temos os recursos que o privado tem, em que em função da experiência da pessoa, da formação que vai fazendo, os profissionais têm carreiras próprias e conseguem ser mais bem remunerados.

Por outro lado, é estratégico para a profissão o desenvolvimento de novas competências. Acredito que é possível olhar para a nossa profissão e prestar melhor cuidados de saúde se houver um investimento na profissão. Podemos prestar melhor cuidados e com mais eficiência se houver uma aposta política na profissão. Os enfermeiros fazem a diferença na área da saúde. 

Qual é o balanço que faz do Governo? 

Penso que ninguém gostaria de estar no lugar da senhora ministra da Saúde neste tempo. Acredito que Marta Temido fez o melhor que conseguiu, como os meios que tinha ao seu dispor. Acho que Portugal deu uma boa resposta à pandemia. Mas gostava que a senhora ministra olhasse para os enfermeiros como seus aliados, como seus parceiros estratégicos e como uma profissão que pode dar mais qualidade a quem precisa de recorrer aos diversos setores da saúde. É preciso que haja uma nova estratégia para a área da saúde, como a possibilidade de desenvolvimento de novas competências que penso que são extremamente importantes para que os enfermeiros possam cuidar melhor das pessoas. 

Quais são essas competências?

Passam por uma redefinição da profissão como novas áreas para as quais obviamente têm de ser negociadas com a tutela e têm de ser inseridas nos currículos de formação dos enfermeiros. Assim, era possível dar uma reposta que nos dias de hoje não podemos dar. A estratégia da saúde em Portugal tem que ser pensada, e todos sabem qual é essa estratégia: desenvolver fortemente a área de cuidados de saúde primários. É um ponto crucial. Esta área tem de começar a dar uma resposta diferente da que tem dado e toda a gente sabe que temos de investir aqui. 

Isso significa o quê?

Não podemos continuar a ser confrontados com a vinda às nossas urgências de pessoas que podem ser atendidas nos cuidados de saúde primários – que deverá ter as competências necessárias para resolver as urgências básicas. A urgência hospitalar quer-se para áreas já especificas que não podem ser respondidas em outro nível de cuidados. E esta questão é importante, porque impacta todo o funcionamento de um hospital. A estratégia tem de mudar e todos sabem. Mas, na prática, não se criam essas condições. 

Acha eticamente correto os enfermeiros não aceitarem turnos extra? 

Os turnos extra estão relacionados com a carência de profissionais e com lotações não adequadas aos contextos. A somar a isso, existem ainda as situações inesperadas, como enfermeiros ficarem doentes ou ausentes por outros motivos pessoais. São nessas circunstâncias que se recorre ao chamado trabalho suplementar. No CHULC os enfermeiros gestores negoceiam com os outros enfermeiros os turnos que estão em falta e isso acontece para a segurança de todos. Para que haja equilíbrio. As pessoas percebem perfeitamente isso. 

O projeto “Mais próximo de ti” foi uma ideia do CHULC e possibilitou que uma doente assistisse ao casamento da filha por videoconferência. Como é que esta ideia nasceu? Ainda continua em ação?

Os enfermeiros devem ser os advogados dos doentes, como os ingleses muitas vezes dizem. É nesse sentido que eu vejo a profissão: defender os interesses e as necessidades das pessoas que estão internadas. Este projeto nasceu com os enfermeiros do CHULC.

Durante a pandemia, por questões de segurança, as visitas ausentaram-se e começámos a perceber que a ausência de visitas é muito complicada para as pessoas. Há quem saiba utilizar as novas tecnologias de informação, mas há outras que não. O projeto foi proposto, aprovado e divulgado. As pessoas inscreviam-se e a equipa de voluntários, na maioria enfermeiros, agendavam o momento com o doente e com a família para que houvesse a videoconferência.

Aprenderam alguma coisa com esse projeto? 

Sim. Aprender a utilizar estes meios tecnológicos para mesmo depois da pandemia possibilitarmos aos doentes que não possam estar presencialmente com as famílias que pelo menos as possam ver pelo ecrã. Quando era solicitado, também permitíamos que houvesse privacidade com o doente e a família. Neste momento tentamos junto dos serviços conceder iPad’s que possibilitem isso mesmo. E o projeto ainda continua. 

Nasceram outros tipos de projetos?

Sim. Tivemos uma linha de atendimento telefónico dedicada ao covid onde profissionais podiam recorrer sempre que tivessem dúvidas sobre o vírus. Implementou-se todo o processo de vacinação, que foi uma ótima resposta e, agora, no pós-pandemia, criámos uma clínica de atendimento de doentes pós-covid, destinada aqueles que ficam com sequelas da doença.

É um programa que tem o apoio da empresa Altice, que permite a tele-motorização das pessoas e o acompanhamento da equipa com as vídeo-consultas. Para os doentes covid que recorriam à urgência, mas que não careceriam de ficar internados, converteu-se ainda uma área de consulta pós-urgência. 

Como vê as manifestações e as greves? Acha que resultam em alguma coisa?

Compreendo que é um direito de quem trabalha. E que está consagrado. Mas não mais do que isso. Que lesa sempre quem precisa de cuidados, lesa. 

Como fica a saúde mental dos enfermeiros, e outros profissionais, com a pandemia?

O stress pós-traumático já acontecia antes e não desapareceu. Os enfermeiros são pessoas como quaisquer outras. Quando submetidos a situações de grande stresse, estamos sujeitos a ficar com danos. A questão da pandemia veio trazer a questão da saúde mental e acho que não se tem falado muito sobre isso. Os enfermeiros entendem a profissão como uma missão e com o propósito de cuidar das pessoas.

Preocupa-me muito o facto de já sermos um país com um grande consumo de psicofármacos – que nos últimos seis meses tem disparado nos mais jovens. Acho que vamos ter um problema em termos de saúde mental em algumas áreas, como na saúde, e que será necessário haver um debate.

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