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Miguel Nicolelis e o verdadeiro criador de tudo

Miguel Nicolelis e o verdadeiro criador de tudo

Carlos Fiolhais 11/11/2021 12:15

A tese de Nicolelis, expressa nas 456 páginas de O Verdadeiro Criador de Tudo, é que o cérebro não é nem nunca será imitável por um sistema computacional. Inclino-me a concordar.

O neurologista brasileiro Miguel Nicolelis (n. S. Paulo, em 1961), professor de Neurobiologia, Engenharia Biomédica e Neurociências na Universidade de Duke, na Carolina do Norte, nos Estados Unidos, é um dos cientistas brasileiros mais conhecidos no mundo. Talvez só rivalize nesse aspecto com o físico Marcelo Gleiser (n. Rio de Janeiro, em 1959), professor de Física e Astronomia no Dartmouth College, em New Hampshire. Os dois são autores de vários livros de divulgação científica, nas respetivas áreas de especialidade. Mas, se o mercado português recebeu bem os livros de Gleiser, designadamente Criação Imperfeita (Temas e Debates, 2011) e A Ilha do Conhecimento (2015), não estava ainda publicado deste lado do Atlântico nenhum livro de Nicolelis. A falta acaba de ser colmatada com a publicação pela Elsinore (a chancela, do grupo 2020, que publicou Yuval Harari e Elizabeth Kolbert) da tradução em português do seu livro mais recente (Yale University Press, 2020). O título é O Verdadeiro Criador de Tudo e o subtítulo, que ajuda a esclarecer o título, é Como o Cérebro Humano Moldou o Universo Tal Como o Conhecemos. A tradução, boa, é de Paulo Tavares, autor de obras de poesia. A única nota negativa da edição é o tamanho minúsculo da letra da bibliografia e o facto de não estarem indicadas muitas das traduções existentes.

O livro começa assim: “No princípio existia apenas um cérebro primata. E, das profundezas dessa rede bastante emaranhada de 86 mil milhões de neurónios, moldada através de um percurso evolutivo cego e de múltiplos big bangs ao longo de um período de milhões de anos, emergiu a mente humana.” Para se perceber a divergência entre o português dos dois lados do “rio Atlântico” (expressão de Onésimo Almeida) vale a pena ver como começa a versão em português do Brasil (Crítica, 2020), decerto abalizada por Nicolelis: “No princípio, havia apenas um cérebro de primata. E de suas profundezas, graças às misteriosas tempestades eletromagnéticas - originárias de um emaranhado de dezenas de bilhões de neurônios moldado por uma tão inédita quanto única caminhada evolucionária - a mente humana emergiu.” A expressão “graças às misteriosas tempestades eletromagnéticas”, que deve apelar a um certo público brasileiro, não está na versão em inglês.

A tese do autor, expressa em 456 páginas, que por vezes são densas e exigentes de um esforço de concentração, é que o cérebro não é nem nunca será imitável por um sistema computacional. Inclino-me a concordar. Haverá faculdades do cérebro humano  -  se quisermos, da mente ou do espírito humanos - que não parecem estar ao alcance de uma máquina, pelo menos das máquinas computacionais tais como hoje as conhecemos. Nicolelis socorre-se não apenas da medicina, mas também da biologia, da química, da física e da matemática. O autor fala de informação gödeliana, do nome do matemático austríaco Kurt Gödel, companheiro de Albert Einstein no exílio em Princeton, aquela que não pode ser inferida por sistemas lógicos. O momento-chave do livro ocorre logo no início do capítulo 3 (“A informação e o cérebro. Um pouco de Shannon, uma mão-cheia de Gödel”), quando Nicolelis e um seu amigo, o matemático e filósofo suíço-egípcio Ronald Cicurel, se detêm, corria o ano de 2005, junto a uma árvore de aspeto retorcido nas margens do Lago Léman, perto de Montreux, na Suíça. Nicolelis teve então uma epifania e disse: “Viver é sobretudo dissipar energia de modo a incorporar informação em matéria orgânica”.

Porque é que os computadores não são seres vivos? Para Nicolelis os sistemas computacionais dissipam energia ao processarem informação, aquecendo o ambiente à sua volta, mas não a incorporam em matéria orgânica. Uma árvore, nós e os outros seres vivos transformamos a energia (que em última análise, não podemos esquecer, vem do Sol), para deixar informação gravada em matéria orgânica, que numa árvore pode ser em anéis concêntricos do tronco, mas no nosso caso são memórias cerebrais, que naturalmente desaparecem com a morte. Vale-nos o facto de ultrapassarmos a morte com memórias, que ficam guardadas noutros cérebros (já alguém disse que morremos duas vezes, uma quando efetivamente morremos e outra quando uma pessoa diz pela última vez o nosso nome) e em obras de todo o tipo (artigos, livros e outras marcas culturais). 

No capítulo 6 (“O porquê de o verdadeiro criador do tudo não ser uma máquina de Turing”), o autor esclarece a sua posição: “A ideia de que o funcionamento intrínseco do cérebro humano pode ser reduzido a um algoritmo computacional e reproduzido numa lógica digital tem de ser simplesmente considerada mais um mito pós-moderno, uma espécie de lenda urbana, ou um exemplo da era da pós-verdade, um tempo em que uma declaração falsa, por ser tantas vezes repetida e disseminada em tão larga escala no seio da sociedade, passa a ser aceite como verdadeira.”

É um bom exemplo do estilo do autor: as frases são, em geral, longas, ao contrário do que é usual nos cientistas que escrevem em inglês. A ideia de Nicolelis encontra fundamento, em última instância, nas ideias de Gödel, para quem existia uma barreira lógica que coloca limites à complexidade computacional. No capítulo 12 (“Como a nossa dependência da lógica digital está a alterar os nossos cérebros”) o autor afirma com convicção a singularidade do cérebro humano. Segundo ele, se continuarmos a imitar as máquinas, a ser “escravos” delas, correremos o risco de nos tornarmos iguais a elas, perdendo o melhor da humanidade: “Esta hipótese prevê que, quanto mais formos cercados por um mundo digital e quanto mais as tarefas simples e complexas das nossas vidas forem planeadas, ditadas, controladas, avaliadas e recompensadas pelas leis e pelos padrões da lógica algorítmica que caracteriza os sistemas digitais, mais os nossos cérebros tentarão emular esse modo digital de operação, em detrimento das funções mentais analógicas e dos comportamentos mais relevantes do ponto de vista biológico, gerados ao longo dos milénios pelo processo de evolução natural”. O autor continua, sempre em frases grandes e de grande estilo: “Esta hipótese do camaleão digital prevê que, à medida que o nosso obsessivo entusiasmo com os computadores digitais for assumindo um maior controlo na forma como percecionamos e reagimos ao mundo à nossa volta, os atributos humanos únicos como a empatia, a compaixão, a criatividade, a inventividade, a intuição, a imaginação, o pensamento inovador, a linguagem metafórica, o discurso poético e o altruísmo - apenas para referir algumas das manifestações de informação gödeliana não computável - sucumbirão e desaparecerão do repertório das capacidades mentais humanas.”

Não é que Nicolelis despreze as capacidades dos computadores. Ele tem até usado recursos computacionais para ajudar pessoas com handicaps severos, como os tetraplégicos. No posfácio descreve uma experiência que exibiu na Copa do Mundo de Futebol realizada no Rio de Janeiro em 2014. No jogo inaugural, um tetraplégico, de seu nome Juliano Pinto, deu o pontapé de saída, com o auxílio de um exoesqueleto. Um sistema informático captou a informação do seu cérebro para a transmitir ao pé artificial. Estive atento, mas achei que essa operação mediática, realizada brevemente numa lateral do campo do jogo, ficou aquém do que pensava que ia ser, com uma encenação mais demorada no centro do relvado. Muitos colegas de Nicolelis, especialmente no Brasil, foram bastante críticos do dinheiro que o governo brasileiro investiu para se produzir esse curto momento mediático.

É estimulante ler Nicolelis. Exige tempo e paciência, mas seremos recompensados com a visão abrangente de um cientista com experiência na interação homem-máquina (já ligou os cérebros de dois ratinhos, colocando-os em contato à distância, numa espécie de telepatia; nessa experiência participou o jovem neurocientista português Miguel Pais Vieira) a respeito das extraordinárias capacidade do homem que lhe permitem superar as máquinas. Elenco, por ordem cronológica inversa, os seus livros publicados no Brasil: Muito Além do Nosso Eu (Crítica, 2.ª edição, 2017); O Maior de Todos os Mistérios (Editora do Brasil, 2017), escrito em parceria com a sua mãe, uma autora de livros infanto-juvenis de grande sucesso, Giselda Laporta Nicolelis; Made in Macaíba (Criativa, 2016), sobre a criação de um centro de neurociências no estado de Natal, no Brasil, que originou forte polémica; O Cérebro Relativístico, com Ronald Cicurel (Createspace Platform); e Prazer em Conhecer: A Aventura da Ciência e da Educação (Papirus, 2008), escrito com Drauzio Varella, um médico muito conhecido no Brasil pelo seu trabalho de divulgação na área da saúde.

Nicolelis tem tido uma presença frequente na imprensa brasileira, incluindo uma coluna na edição em português do El País com comentários sobre a pandemia de Covid-19. As suas críticas ao governo brasileiro são justíssimas. Em março passado, dizia numa entrevista ao Expresso que “o Brasil perdeu o controlo da pandemia e é uma bomba-relógio para o mundo. A comunidade internacional deve intervir.” O cientista, que é um adepto do Palmeiras, pediu mesmo que os jogos de futebol parassem. Ora o futebol confunde-se, no Brasil, com a vida e a vida não pode parar, mesmo quando há uma ameaça tão grande como a atual pandemia, que já custou ao Brasil 610 mil mortos (a mortalidade diminuiu felizmente de março para cá). Não faltam ao Brasil cérebros, falta usá-los. 

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