28/01/2022
 
 
São Martinho. Uma tradição com muitos anos que não passa de moda

São Martinho. Uma tradição com muitos anos que não passa de moda

Dreamstime Daniela Soares Ferreira 11/11/2021 14:03

Finais de outubro e inícios de novembro trazem as castanhas. Nesta altura também o vinho novo está pronto a provar. Foi o suficiente para associar – há muitos, muitos anos – estes dois produtos ao São Martinho que hoje se celebra.

A 11 de novembro, dia de São Martinho, o mundo celebra a data em que este santo foi enterrado, corria o ano de 397. Por cá, juntam-se as pessoas, faz-se o magusto, bebe-se o vinho novo, a jeropiga ou a água-pé, e comem-se as castanhas assadas, e por vezes chouriço.

Os ditados são conhecidos de Norte a Sul do país: “No dia de São Martinho, pão, castanhas e vinho” ou “no dia de São Martinho, vai à adega e prova o vinho”. Reproduzimo-los desde crianças, principalmente na escola, muito antes de conhecermos o sabor desta bebida. Mas para perceber de onde veio a tradição de juntar castanhas e vinho ao São Martinho é preciso recuar no tempo.

Não se consegue estabelecer a data de começo da tradição de São Martinho com as castanhas e o vinho, tal como a conhecemos. Sabe-se que deverá ser herdeira de festas pagãs, romanas, como os Bacanais, altura do ano em que se bebia o vinho novo. 

A ligação entre o São Martinho e as castanhas em Portugal terá vindo da tradição do magusto de Todos os Santos, que é celebrado a 1 de novembro, ou seja, não muito longe do dia de São Martinho. Antigamente assinalava-se o dia de finados à volta da fogueira com castanhas e a tradição terá passado também para São Martinho.

“Em Portugal, e sobretudo no Norte e Centro do país, o dia 11 de novembro é, de um modo geral, festejado com ‘magustos’ de vinho e castanhas em todas as partes onde estes ocorrem no dia de Todos os Santos, tomando assim o aspeto de um prolongamento especial destas celebrações, a ponto de se falar em ‘Magustos dos Santos’ e ‘Magustos de São Martinho’”, começa por explicar Ernesto Veiga de Oliveira no livro Festividades Cíclicas de Portugal.

O etnólogo lembra que, em muitas regiões, principalmente de Trás-os-Montes, Beiras ou Douro, a tradição coincide com a matança do porco. “Contudo, o significado mais fundo e original do S. Martinho”, prossegue, “deve procurar-se nas suas relações com o vinho. No Minho diz-se correntemente: No dia de S. Martinho / Mata o teu porco /E prova o teu vinho”. É que “é tradicionalmente no dia de S. Martinho que se inaugura o vinho novo, que este se prova e se atestam as pipas; de acordo com a nossa velha legislação municipal, era mesmo proibido, em muitas partes, vender o vinho novo antes do S. Martinho, sob pena de multa”, como diziam as leis municipais do Cadaval de 1859 a 1891.

Então e as castanhas? Mas porquê que associamos a castanha a este dia? Talvez por uma questão de calendário agrícola. “Em Portugal, a produção de castanhas dá-se, em especial, nas Terras Frias de Trás-os-Montes, Beira e Nordeste Alentejano, havendo diversas castanhas DOP: as da Terra Fria, da Padrela, dos Soutos da Lapa e de Marvão”, começa por explicar ao i Isabel Drumond Braga, professora da Universidade de Lisboa, doutorada em História.

E acrescenta que a produção “está documentada desde a Idade Média. Sabemo-lo pela análise das Inquirições de 1220 e dos contratos agrários, uma vez que as castanhas, tal como o vinho, não raramente apareciam como integrantes dos foros das terras de cultivo”.

A historiadora explica ainda que “a castanha substituía o pão e ficou associada ao vinho, desde a Idade Média, uma vez que eram entregues aos donos das terras em conjunto”. Por isso, “a associação entre os dois produtos é resultado do calendário agrícola: época de apanha da castanha e de prova do vinho novo. Esta realidade está patente em espaços que produziam os dois géneros”.

E até uma análise às compilações de provérbios poderá, na opinião de Isabel Drumond Braga, “dar-nos uma perspetiva interessante”. Apesar de “os provérbios serem difíceis de datar há compilações dos séculos XVII e XVIII”.

Pelo país Passem os anos que passarem, o São Martinho não passa de moda: continua a celebrar-se em Portugal de Norte a Sul do país, ainda que a tradição seja mais vincada no Norte e Centro, onde existem mais castanheiros e produção de vinho. A título de exemplo, em Monchique e em Pocinho, existe a tradição de os rapazes passearem-se pelas aldeias com chocalhos de gado. 

Em Vila do Conde, juntam-se às castanhas a broa. Na Lousã junta-se o mel serrano à festa da castanha. Na Serra do Açor, em Castelejo, é tradição abrirem-se as portas para que todos possam entrar.
E nem mesmo mais perto de Lisboa a tradição se perdeu: Sintra vive-a com o Vinho de Colares e, na Golegã, o destaque vai para a Feira do Cavalo.

Este ano temos como exemplo a Feira Franca de São Martinho, da Mostra Gastronómica das Freguesias e do Tradicional Magusto, em Alijó, que decorre hoje. Também de hoje a domingo decorre a 20.ª edição da Feira-Mostra de São Martinho nas Terras do Gerês, em Terras de Bouro.

Em Oeiras celebra-se a data com oferta de castanhas assadas, vinho de Carcavelos “Villa Oeiras” e muita animação entre hoje e sábado. Em Marvão o destaque vai para a Feira da Castanha – Festa do Castanheiro que tem início no sábado.
No livro Festividades Cíclicas de Portugal, Ernesto Veiga de Oliveira dá vários exemplos de como era antigamente. “O costume destas ‘Procissões’ é geral no Norte. No Minho, em Fafe, elas vão em rusgas pelas ruas, com música de harmónios, cavaquinhos, pandeiretas e ferrinhos. Em terras de Barroso, no concelho de Montalegre, os homens, nesse dia, levam para o monte castanhas e vinho, e fazem brincadeiras ruidosas; aquele que apanha a maior borracheira é nomeado ‘Juiz de S. Martinho’”.

Já na região das Beiras, “os rapazes, no dia de S. Martinho, andam em fila pela aldeia a ‘furar as adegas’, para provarem o vinho novo”.

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