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Mimi Froes. "Eu não queria mais música"

Mimi Froes. "Eu não queria mais música"

DR José Miguel Pires 10/11/2021 13:53

Aos 23 anos, Mimi Froes tem em mãos o EP “E a Cantar”, segundo da sua carreira. Em Aveiro, encheu a sala estúdio do Teatro Aveirense, e falou dos mistérios dos seus dois EPs.

‘Alfacinha’ de gema, Mariana Froes, melhor conhecida por “Mimi”, alcunha que guarda desde a infância, é a orgulhosa autora do EP “E a Cantar”, lançado no passado mês de outubro. Depois de passar pelo palco do Teatro Tivoli, em Lisboa, e do Theatro Circo, em Braga, Mimi Froes rumou à sala estúdio do Teatro Aveirense, que se encheu para ouvir este segundo trabalho de originais da cantautora. Melancólica e alegre, apaixonada pelo mundo da música e tudo do que dele advém, e com muita influência “Sobral”, a dupla de irmãos que idolatra, cada um à sua maneira, aos 23 anos, Mimi Froes dá gás ao “recomeço” da sua carreira artística, depois de uma passagem pelo programa Factor X, quando tinha apenas 16 anos. Uma experiência rica, mas tão forte que fez a cantautora lisboeta afastar-se, pelo menos temporariamente, da música, seguindo vida no curso superior de Direito e, depois, em Jazz e Música Moderna. Isto apesar de acreditar que, se não fosse pela música, a sua profissão passaria… pela pedagogia. “Ou professora de português, ou de filosofia”, garantiu, sem hesitar nem gaguejar, ao i.

No momento de chegada a Aveiro para apresentar o seu novo EP – e, afinal de contas, também “Vamos Conversar”, o seu primeiro projeto de originais, datado de 2020 – o i sentou-se com Mimi Froes, em torno de uma caixa de ovos moles, e algo ficou imediatamente claro: Esta série de concertos não é só uma apresentação única e singular do mais recente EP, mas sim uma rampa de lançamento dos dois trabalhos originais de Mimi Froes, e de si própria como artista no panorama nacional. “Conseguimos montar um concerto que juntasse os dois EPs, que acho que é um desafio difícil, porque apesar de virem da mesma pessoa, vêm de fases diferentes”, explicou.

Não passava um minuto de entrevista quando Mimi Froes revelou a frase que tende a fazer parte das variadas entrevistas que já deu: “A Luísa Sobral uma vez disse-me que…” A realidade é que a artista portuguesa foi professora de Mimi Froes, ainda que por um breve período, e a influência parece ter chegado para ficar, tal é a ligação entre ambas. “De facto ela foi minha professora, eu apanhei muita coisa dela, e ela diz que cada disco é o reflexo, o espelho e a fotografia daquela pessoa, naquela altura, e eu acho que ambos os EPs vêm de alturas muito diferentes da minha vida”, continuou Froes, que não escondeu o efeito da introdução ao curso em Jazz e Música Moderna, na Universidade Lusíada, na sua música, com uma panóplia de sonoridades e novos conhecimentos que se revelam neste novo EP.

Mas não só Luísa Sobral inspira Froes. Também Salvador é “uma referência brutal”. “Eles [os irmãos Sobral] são uma influência brutal para mim. Ele como intérprete, e com a estética que oferece ao panorama musical, e a Luísa no sentido profissional e na composição”, explicou a mesma.

Mimi Froes apresenta-se em palco acompanhada por três músicos – um pianista (Manuel Oliveira), um contrabaixista (Rodrigo Correia) e um percussionista (Guilherme Melo) – que completam a experiência e dão o pano de fundo para os vocais da cantautora. A dupla entre Froes e Manuel Oliveira dura já há largos anos, e, através do pianista, foi aumentando com as chegadas de Rodrigo Correia e de Guilherme Melo. Uma tarefa nada fácil, conseguir que uma banda e uma cantautora entrem em sintonia sobre as suas próprias criações. “A ideia é minha, e o enredo das coisas acaba por vir de mim, mas eu tenho a consciência de que é preciso uma atenuação brutal de um EP para o outro, sendo eles diferentes. Através do virtuosismo, da paciência, da cabeça e da curiosidade deles [dos músicos], tentámos encontrar pontos comuns de equilíbrio. Não puxámos tudo para este EP. Puxámos, talvez, um centro mais para este EP, se tivermos um de cada lado”, explicou Froes.

O FACTOR NÃO E A SALVAÇÃO DE JOÃO SÓ “Quando era miúda, queria sempre chamar a atenção, e pensei ‘olha, eu até sou afinada, vou cantar até que as pessoas se cansem’.” Assim descreveu Mimi Froes o seu ‘início’ no mundo da música, do qual diz nunca mais se ter separado. Ainda assim, e confessando mesmo que a música faz parte da sua vida desde sempre – incluindo temas escritos nas idas à praia, no quarto e até nos intervalos das aulas – a artista não escondeu uma fase em que os sonhos de carreira musical estiveram “congelados”.

Mimi Froes lançou o seu primeiro EP em 2020, mas a música rodeia este nome desde, pelo menos sob os holofotes do público, 2014. Na altura, acabou eliminada do programa Factor X na sua oitava gala, e, hoje em dia, as memórias sobre aquele período são, no mínimo, conflituosas. Por um lado, ficaram os ensinamentos e as aprendizagens cruciais para estar “à vontade” nos palcos, e saber lidar imediatamente com críticas, julgamentos, dedos apontados e “negas”. Por outro lado, restou um sabor amargo na boca, e a ideia de que “definitivamente não era pela música” que Mimi Froes iria seguir, segundo a mesma revelou. Após o programa, seguiu-se um período de dúvidas e de negação em relação a uma possível carreira musical, que deixou um vazio na carreira da cantautora. “Na altura [depois do programa Factor X] a minha vida era estar em Direito. Depois de sair do programa, não queria mais música, e não queria nada a ver com música nunca mais”, contou, relembrando uma altura “de muitas dúvidas, que gerou uma autoestima terrível e uma incerteza brutal quanto a saber se seria por aí o caminho”. Hoje em dia, “não restam influências dessa experiência na vida musical, mas a nível profissional, na música, sim”. “Tive de crescer muito. Era muito nova e tive de lidar com muita pressão, com coisas que me eram muito mais alheias”, continuou, sem esconder a sua frustração, viajando na memória e confessando achar, na altura, que “não seria boa o suficiente”, o que “congelou” a sua carreira. 

Mas, eis que veio a salvação. Trabalhando em conjunto com João Só, Froes reencontrou a paixão pela música, e retomou o caminho. O músico e produtor “veio buscar”Froes, segundo a mesma contou, e deixou bem claros os contornos do mundo que os rodeava, após a experiência no programa televisivo em questão. “Olha, isso não é o mundo da música, isso é o mundo da televisão”, elucidou, então. “Foi aí que ele escreveu algumas canções para mim, acabámos por não trabalhar juntos, mas descongelou uma parte em mim que estava supercongelada e fechada. Depois estive em Direito, e nos intervalos escrevia canções... no segundo ano inscrevi-me numa escola de música, e dava por mim doida, sem tempo para nada”, adiantou a cantautora, que retomou o rumo musical naquele então, tirando um ano sabático no qual continuou a ter aulas de música – lá está a ligação a Luísa Sobral, que foi, nessa altura, sua professora – e culminando na inscrição no curso de Jazz e Música Moderna, na Universidade Lusíada.

Reflexos e relações em palco Quando Mimi Froes sobe ao palco, praticamente todas as canções são da sua autoria – retirando o encore com o tema O Navio Dela, da autoria de Manel Cruz. Com os três músicos que a acompanham, revelou-nos, a simbiose na criação das músicas é natural, mas desafiante, reforçando o nível de ‘controlo’ que necessita ter sobre as suas canções. Pelo meio, tentando explicar os já referidos ‘pontos de equilíbrio’ entre os seus dois EPs, Mimi Froes falou da “fase em que estamos todos” como um estilo de ‘cola’ no momento de subir ao palco e interpretar, junto da banda, os seus temas. “Dois músicos são os mesmos [de um EP para o outro], um deles gravou todas as músicas deste, e o contrabaixista gravou este e algumas do anterior. O baterista é diferente, mas fui buscar pessoas parecidas com a mesma linguagem”, explicou a cantautora, que revelou: “A maioria das músicas que escrevo não são sobre mim”, algo que, defendeu, “também une bastante os dois discos”, permitindo uma maior ‘margem de manobra’ na adaptação e na integração com os músicos que a acompanham.

“Em cima do palco, o que une os discos é a fase em que estamos. O meu contrabaixista, o pianista, eu, e o baterista… acaba por acontecer sermos um reflexo daquilo que somos, mesmo que interpretemos canções de outra altura. Principalmente neste tipo de música. Dou todo o valor à música que é feita com máquinas e em que todo o som já está gravado, mas aqui há sempre essa fragilidade humana que muda consoante o concerto. A abordagem nunca é a mesma”, concluiu a mesma.

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