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Facebook. Uma bomba atómica no ecossistema da informação

Facebook. Uma bomba atómica no ecossistema da informação

Diogo Vaz Pinto 04/11/2021 15:27

Vencedora do Prémio Nobel da Paz deste ano, a jornalista que criou o site filipino Rappler, depois de uma parceria com o Facebook, percebeu a forma como esta plataforma explora as nossas fragilidades biológicas para nos manipular e elevar os seus lucros.

As piores catástrofes, de início, nem as sentimos. Nada senão um estranho gosto no ar, uma espécie de horror contido e ao mesmo tempo difuso, algo que não cessa de nos dilacerar. O círculo vicioso aperta-se sobre nós, tudo nos recomenda a actos gratuitos, a confissões degradantes. Fica cada vez mais difícil perceber como se aparece ou desaparece, e as nossas existências parecem resvalar para um estado cataléptico. “É que, na era dos que se deixam arrastar, o acto é mais forte do que a palavra, mas mais forte do que o acto é o eco”, escreveu Karl Kraus. “Vivemos do eco e, neste mundo às avessas, é o eco que desperta o grito.”

O satirista vienense aplicou toda a impetuosidade raivosa do seu génio na denúncia da imprensa e descerrou sobre esta alguns dos seus mais virulentos golpes. Ao dar-se conta de que, “na organização do eco, a fraqueza é capaz de uma metamorfose extraordinária”, Kraus viu como esta procedia a uma erosão lenta, mas inexorável, no interior da nossa capacidade de interpretar o mundo. Viu como o jornalismo, munindo-se de factos, empurrava com eles a sua representação, e se ia sobrepondo ao discernimento dos leitores, fazendo com que o discurso se subtituísse à própria vida.

Para ele, nesse mecanismo que nos tortura com detalhes e pormenores, com o descritivo registo de minúcias que parecem afinar a própria realidade através das suas constantes repetições, as notícias na verdade apagavam a sensação da realidade quando não fosse lida nesses termos. E depois os jornais ainda arrastavam atrás de si “um séquito de personalidades informadas, a par dos acontecimentos, iniciadas e notáveis, que têm por função dar-lhe o aval, dar-lhe razão”. A estes que correspondiam então aos actuais comentadores políticos, classificava-os como “parasitas importantes do supérfluo”.

E Kraus dava um passo decisivo ao reconhecer que a imprensa não era apenas um mensageiro, mas o próprio acontecimento. “É um discurso? Não, é a vida. Ela não só reinvindica que os verdadeiros acontecimentos são as suas notícias sobre os acontecimentos como também provoca essa sinistra identidade que gera sempre a ilusão de que as acções são relatadas antes de executadas”, vincava, para logo depois concluir: “Colocámos a pessoa a quem incumbe anunciar o incêndio, e que, no Estado, deveria desempenhar o papel mais subalterno, acima do mundo, acima do incêndio e da casa, do facto e da nossa fantasia.” Desde que esse texto (“Nesta grande época”) foi publicado nas páginas do Die Fackel, em Dezembro de 1914, meses depois do início da Primeira Guerra Mundial, à superfície muitas coisas se alteraram, mas, como Kraus notou, o que caracteriza o tempo em que vivemos é a forma como a “superfície está bem funda e agarra-se à raiz”.

Mas se, nos nossos dias, a imprensa se vê remetida cada vez mais a uma posição subalterna, como ele parecia desejar, a verdade é que esta foi já substituída por uma outra fórmula de organização do eco bem mais insidiosa e eficaz ao consumir e arregimentar os nossos esforços e atenção, subordinando os fins da existência aos meios de subsistência e tornando-nos parafusos das nossas ferramentas. Pense-se que denúncias faria Kraus se lhe fosse dado respirar o ar dos nossos dias, deter-se sobre a forma de funcionamento das redes sociais, como em pouco mais de uma década estas produziram uma cópia da realidade de tal modo nociva que nos leva a suspeitar de que tudo o que ali não se inscreve, escapando aos seus códigos, de algum modo não chega a existir. O que está fora das redes é cada vez mais apenas matéria por processar.

Se, da imprensa, Kraus dizia que esta tinha levado a humanidade àquele estado de falta de fantasia que lhe torna possível uma guerra de extermínio contra si própria, o que diria do Facebook? Certamente, veria como caminhámos para uma hipérbole devastadora do cenário que ele descreveu, ao considerar que a vida moderna estava colocada sob o signo de uma quantidade que já nem sequer é medida. Se então se apercebeu de que a imprensa se tinha imposto como um simulacro que capturava a humanidade, “já que, com a rapidez desmedida das suas engrenagens, lhe poupou toda a capacidade de ter vivências e de as prolongar intelectualmente”, é fácil supor o pavor que as redes sociais lhe provocariam.

Kraus vaticinou que toda esta aceleração, todos estes ecos, acabariam por gerar uma tal quantidade de informação que esta não teria outra solução senão engolir-se a si própria. Mas se não temos para já uma voz que assuma uma crítica esmagadora destes processos, a atribuição do Nobel da Paz no início do mês passado à jornalista Maria Ressa, a par do jornalista russo Dmitri Muratov, foi entendida como uma tentativa de amplificar a denúncia que esta tem vindo a fazer do Facebook, sendo uma plataforma que está a erodir as condições da vida democrática, dando prioridade às mentiras sobre os factos, e ajudando à sua difusão através de um regime odioso que contamina tudo.

A directora e fundadora do site filipino Rappler, tem provado ser uma das vozes mais esclarecidas ao falar sobre a forma como as redes sociais estão a transformar as nossas vidas, a nossa percepção da realidade, e o modo como nos relacionamos uns com os outros. “Parece que uma bomba atómica explodiu no ecossistema da informação”, diz a jornalista. Para Ressa do que se trata é de fazer da internet uma arma, e uma vez que esta vai operando sobre o comportamento humano, de tal modo que os ecos passam a orientar os actos e definir o contexto em que estes podem ser interpretados, a realidade apenas importa na medida em que corresponda ao regime previamente programado. Assim, as acções só existem a partir do momento em que são ecoadas e exacerbadas. E Ressa recorre às palavras de E.O. Wilson neste ponto para nos dizer que a maior de todas as nossas crises é esta combinação entre as nossas emoções que são ainda relíquias do Paleolítico, as nossas instituições medievais e a nossa tecnologia que oferece a uns poucos o poder dos deuses.

E no que toca à realidade enquanto uma noção partilhada, sem a qual descendemos a essas tantas convulsões odiosas que tomaram conta das redes sociais, Ressa explica que quando uma mentira é contada dez vezes, a verdade ainda tem alguma hipótese de se lhe adiantar e interrompê-la, mas quando uma mentira é repetida um milhão de vezes através desse sistema de distribuição algorítmica e das escolhas que estas plataformas fazem conscientes de que essas emoções mais violentas prendem os usuários, então a verdade não tem a menor hipótese. Assim, e no que toca às recentes revelações que abalaram a imagem do Facebook (que entretanto mudou o nome da empresa-mãe para Meta), depois de serem divulgados documentos internos que provam que o gigante da tencologia estava consciente de que as suas plataformas criam um ambiente tóxico para os utilizadores mais jovens, Ressa garante que isto não acontece porque os adolescentes são mentalmente vulneráveis, mas porque as fragilidades dos seres humanos são precisamente aquilo que os algoritmos exploram para nos capturarem no imenso labirinto das redes sociais.

Depois de ter sido escolhida pela revista Time como uma das personalidades do ano, em 2018, e de, já em 2021, ter sido distinguida com o Prémio UNESCO/Guillermo Cano para a liberdade de imprensa, agora, ao ser questionada sobre o significado que atribui à decisão do Comité Nobel Norueguês, Ressa notou que a última vez que um jornalista recebeu esta distinção foi em 1936, ressalvando que Carl von Ossietzky se encontrava na altura num campo de concentração nazi e que não foi autorizado a aceitar o prémio, “por isso, parece-me que esta foi a forma do comité assinalar que estamos uma vez mais num momento de ameaça existencial em que podemos perder os nossos direitos. Podemos perder a democracia se abrirmos mão dos factos.”

Esta jornalista filipino-americana foi uma das co-fundadoras do mais importante site de jornalismo independente nas filipinas, isto em 2011, após ter trabalhado ao longo de vários anos como repórter da CNN no sudoeste da Ásia. Quando Rodrigo Duterte chegou ao poder nas Filipinas em 2016, mimetizando em muitos aspectos a campanha de Donald Trump, recorrendo ao Facebook para se dirigir directamente aos eleitores acicatando os ódios latentes naquela sociedade, o Rappler assumiu a dianteira ao expor as tácticas de “violência e intimidação” usadas por aquele regime, focando-se em particular na guerra às drogas que, segundo entidades de direitos humanos, fez já mais de 12 mil mortos desde 2016. O site denunciou inúmeras instâncias em que o regime recorreu ao Facebook não apenas para disseminar a sua propaganda, como ainda para lançar uma campanha de perseguição aos seus rivais políticos e detractores, fabricando falsas acusações. Nos últimos dois anos, Ressa foi alvo de 10 processos criminais, tendo sido condenada por “ciberdifamação”, chegando a ser detida na redacção, em 2019, devido a constar numa notícia do Rappler um link para um artigo saído anos antes numa outra publicação, sobre um empresário filipino e as suas ligações a um juiz. Ressa arrisca passar seis anos na prisão, tendo sido detida à luz de uma lei aprovada quatro meses após a publicação da notícia, e isto por um artigo que nem foi ela que escreveu ou editou. O certo é que o seu trabalho à frente daquele site fez dela um dos principais alvos do regime, que se revelou muitíssimo eficiente na campanha de desacreditar a imprensa, recorrendo aos seus apoiantes, os chamados “trolls patrióticos”, que “disseminam ódio online patrocinado pelo Estado, num esforço para mutilar o jornalismo, levando o público a suspeitar da motivação dos jornalistas”. Isto segundo as palavras de Ressa, que frisa ainda que o assassinato de carácter se tornou uma prática comum num país que “deixou de ser uma democracia e passou a ser uma ditadura por meio do ódio online”. E não é preciso ir mais longe, e exemplificar com outros casos, quando o dela é bastante ilustrativo, pois além de ter passado já algumas noites encarcerada, sofrendo uma série de outras restrições à sua liberdade, um estudo lançado pelo International Center for Journalists e a Unesco, anlisando centenas de milhares de publicações online que a visam, notou que há 14 que a difamam ou enxovalham para uma das que lhe são favoráveis. Muitas delas atacam a sua imagem, e algumas vão ao ponto de clamar que o que merece é ser violada e decapitada.

Numa entrevista ao The New York Times, Ressa citava um outro estudo que analisou quase meio milhão de publicações nas redes sociais, desde 2016, notando que 60% delas eram ataques que pretendiam pôr em causa a sua credibilidade, ao passo que os outros 40% tinham como fito atingir-lhe o espírito, e estes iam das tais ameaças de morte a ataques com vista a devastar a sua auto-confiança. “Tenho uma verruga no nariz, sofro de eczema, tenho a pele seca... Assim, o que eles procuram fazer é desumanizar-me constantemente fazendo de mim um meme. Mas à medida que o difundiram nas redes, transformaram esses meus complexos numa força interior que fui obrigada a desenvolver. Hoje, já não tenho qualquer problema em falar na minha dermatite atópica. O que eles tentaram fazer foi humilhar-me, fui chamada de todos os animais que possas imaginar. E o pior era o apelido que arranjaram para mim: cara de escroto. Assim, recortavam a minha cara e colavam-na em genitais humanos. Durante meses, ao acordar, deparava-me repetidamente com comentários que ecoavam estas imagens horríveis que eles criaram de mim. E leva um tempo para que consigas recuperar de uma coisa destas, mas recuperei. E dei-me conta que parte da recuperação passa por partilhares estas coisas com outras pessoas. É nesse momento que a picada deixa de doer. E depois o que percebi com a análise que fizemos desses conteúdos é que as mulheres são dez vezes mais atacadas desta forma do que os homens. E isto liga-se a essa questão cultural, que nos mostra que esta forma de intimidação se destina a calar as vozes incómodas e que têm estado subjugadas.”

Estes fenómenos que se tornaram tão comuns, apontam para esse efeito de disseminação de conteúdos gravosos e aviltantes que provocam mais reacções dos utilizadores de redes sociais. Mas se a grande quantidade se decompõe em destinos individuais, disto só os indivíduos se dão conta, enquanto à superfície aquilo que se desenha é precisamente uma espécie de guerra civil com armas que provocam um efeito de desmoralização e misantropia. Ora, este efeito de automutilação espiritual segue-se a uma exposição diária a esse acumular de ressentimento e podridão, mas que não deixa de nos chamar a si, usando daquele feitiço de todo o grande mal, que é o convite à luta. Mas como ali não há actos originais, como tudo se processa num regime de ecos, à medida que nos afundamos mais no labirinto, cada vez se torna mais difícil fazer a única coisa que nos salvaria, que é voltar atrás: sair de vez.

De resto, mesmo Ressa nem sempre viu as redes sociais com maus olhos. Na verdade, o Rappler começou como uma página de Facebook antes de se autonomizar num endereço próprio. O problema é que nas Filipinas, a navegação no Facebook é gratuita para quem use os telemóveis, o que faz parte do programa Free Basics que a empresa de Mark Zuckerberg lançou, subsidiando o acesso à internet em alguns países em desenvolvimento. Isto leva a que boa parte dos filipinos façam equivaler o Facebook à própria internet. E, no início, o Rappler foi até um parceiro oficial, estatuto que beneficiou muitíssimo o projecto tendo em conta o quão crucial o Facebook é para a difusão online de notícias no país. E Ressa não se cansa de repetir que, em 2017, quando participou numa reunião com Zuckerberg, quando tentou fazê-lo ver a responsabilidade que a sua empresa tinha na definição do contexto social e político no seu país, ao dizer-lhe que 97% dos filipinos que têm acesso à internet utilizam a sua plataforma, este terá retorquido: e por onde andam os outros 3%?

De lá para cá, depois de ter sido alvo da campanha de difamação que o regime de Duterte lhe moveu usando aquela e outras redes sociais, Ressa tornou-se uma das vozes mais críticas do Facebook, e das orientações que esta plataforma segue, tendo sido instrumental na ascensão de líderes como Duterte, Trump ou Bolsonaro, ao amplificar a desinformação e a propaganda. “O Facebook é hoje o maior distribuidor de notícias em todo o mundo e, no entanto, tem-se recusado a cumprir com as responsabilidades de um guardião desse portal”, disse a jornalista ao Times, em 2019. “E quando se esquiva dessa maneira, quando permite que as mentiras sejam difundidas da mesma forma que os factos, isso corrompe toda a esfera pública.”

A corroborar a tese de Ressa, as Nações Unidas comprovaram que além de ter servido como plataforma de distribuição da propaganda relativa à chamada guerra às drogas que tornou Duterte um presidente tão popular, o Facebook foi também decisivo na difusão da campanha que levou ao genocídio dos muçulmanos Rohingya, na Birmânia, além de ter sido crucial para a eleição de Donald Trump, em 2016. E se a empresa de Mark Zuckerberg acabou por bloquear uma série de contas falsas que eram usadas para difundir propaganda nas Filipinas, se pediu desculpas pelo papel que teve nos massacres na Birmânia e se foi ao ponto de banir Trump da plataforma, Ressa entende que o grande problema é que estas plataformas seguem “uma política de terra queimada”. “Se o dinheiro a curto prazo justificar uma determinada opção, é essa que eles seguem, sem se preocuparem com o facto de que as gerações que se seguem terão de pagar o preço”, disse numa recente entrevista à The New Yorker. Por outro lado, notou que, neste regime, “a popularidade facilmente abre caminho à justiça popular, mas passando-se isto nas redes sociais, onde a quantidade é a única métrica segundo a qual todos os fenómenos são apreciados, na verdade perde-se a capacidade de perceber a diferença entre o que é real e o que é fabricado”.

Eis mais alguns excertos de entre as várias entrevistas que Maria Ressa tem dado nos últimos tempos a diferentes órgãos de informação: “Parece-me que o retrocesso da democracia em todo o mundo e a destruição do sentido de uma realidade comum tem acontecido por causa da tecnologia. Acontece porque as empresas responsáveis pelos conteúdos noticiosos perderam para as empresas tecnológicas os seus poderes enquanto guardiões da fiabilidade da informação que circula no espaço público. E as tecnológicas capturaram o facturamento que tínhamos para fazer o nosso trabalho. Assim, ficaram com os poderes, mas abdicaram das responsabilidades.”

“Estas organizações como o Facebook não se lançaram com a ideia de vir a assumir as funções de organizações noticiosas, e, por isso, nunca se comprometerem com a necessidade de observar os padrões e os critérios com vista a proteger a esfera pública, e é por essa razão que a legislação tem de interceder para garantir que as coisas não azedam como está a acontecer, uma vez que estas plataformas se tornaram o tecido conector das nossas sociedades. Estas plataformas determinam o que é a nossa realidade, exploram as fraquezas da nossa biologia para levar à mudança dos comportamentos. Elas transformam a forma como pensamos, e se a forma como pensamos se altera também o nosso comportamento se altera.”

“Parece-me que o pecado original no que respeita ao Facebook foi quando a organização cronológica do feed geral deu lugar ao regime de personalização. Se pensarmos na forma como funciona o mundo, faz algum sentido que acedas apenas ao conteúdo que te interessa? Que o teu enviesamento cognitivo seja constantemente abastecido por mais publicações que vão no mesmo sentido? Parece-me que é por isso que o nosso mundo ficou virado de cabeça para baixo, porque nos adaptámos a ir puxados por esta linha com anzol.”

“O perigo com o comportamento emergente é melhor explicado se pensarmos no que se passa com os bandos de pássaros. Se um pássaro só pode não saber exactamente para onde vai, basta uma asa inclinar-se num sentido para que todo o grupo adopte essa direcção. Portanto, há uma pressão do grupo sobre os indivíduos para que se comportem de maneiras que normalmente não se comportariam. E esse é o maior perigo das plataformas de redes sociais: ao organizar certos comportamentos individuais e elevá-los a uma escala sem precedentes, para, de seguida, organizar esses ecos segundo princípios algorítmicos concebidos para nos manipular, estas escolhem o que é filtrado e aquilo que rapidamente se espalha. E o que têm estado a amplificar de momento é o que há de pior da natureza humana.”

"Acho que o cerne do problema é que todas as plataformas de redes sociais tratam mentiras e factos de forma idêntica. As pesquisas têm-nos mostrado como, nas redes sociais, as mentiras entretecidas num registo que mistura raiva e ódio se espalham muito mais e mais depressa do que os factos. Sendo assim, podemos considerar que a maior plataforma de difusão de notícias do mundo é, na verdade, tendenciosa contra os factos e contra o jornalismo.”

“O problema é que nos estamos a focar nos conteúdos, e aí começamos a falar de liberdade de expressão, e de que não se pode proibir o discurso, mas o problema começa a montante, e então temos de perceber o que é que está a ser definido nos algoritmos que organizam todo este fluxo e que acabam por determinar as nossas realidades.”

“Vamos considerar três suposições que estas plataformas reforçam através dos seus algoritmos: a primeira é que se não gostas de alguma coisa, que se alguma mentira foi dita, o que tens a fazer é silenciá-la. Mas se é uma mentira que ataca a tua credibilidade faz alguma diferença se te limitas a silenciá-la no teu feed? A segunda é a ideia de que mais e mais depressa é melhor. Na verdade, não é. A questão é que nós precisamos dessa fricção que impede que as mentiras se espalhem, mas isso nem está contemplado pelo regime destes algoritmos. A terceira suposição é a de que cada um de nós vive imerso na sua própria realidade. Mas que democracia é que poderá sobreviver quando temos diante de nós quase três mil milhões de Truman Shows e cada um de nós está absorvido na sua performance frente a uma suposta audiência? Isto para não falar no impacto que isso tem no indivíduo que se vai entregando cada vez mais a esse simulacro. Esta alteração dos comportamentos que está a acontecer depois é explorada por governos como o meu.”

“Assim, o importante é que as leis que combatem a fraude ou a difamação, por exemplo, que essas leis que estão em vigor no mundo real entrem em efeito também no mundo virtual. Não temos de recriar a realidade, não temos de encontrar novas definições sobre o certo e o errado. Parece-me que, em parte, o problema é que andamos à procura de novos conceitos para abordar os desafios que nos coloca o enviesamento dos algoritmos, quando os conceitos que já temos servem perfeitamente. E se os programadores nos dizem que as falhas são provocadas pela automatização, temos de perceber que estes algoritmos foram concebidos desta maneira e que reflectem o enviesamento dos programadores. Assim, em alguma medida, o problema está em haver um conjunto de organizações norte-americanas que definem o modelo das redes sociais e que o exportam juntamente com a sua forma enviesada de ver as coisas, e depois isso acaba por ter um impacto insidioso em países tão diversos, afectando profundamente os seus ecossistemas informativos.”

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