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João Pedro Marques e o prazer de guiar

João Pedro Marques e o prazer de guiar

Carlos Fiolhais 04/11/2021 15:22

Passado em 2032, O Prazer de Guiar exprime uma revolta contra a automatização e a regulação na vida futura. 

 

Faço muitos quilómetros, porque gosto de conhecer sítios, mas não tenho propriamente o prazer de guiar. Prefiro um carro com mudanças automáticas, que me dão menos controlo mas mais relaxe na condução. No entanto compreendo que haja quem tenha o prazer de guiar e consuma quilómetros pelo pura fruição da estrada. Não me custa a acreditar que, daqui a uma década, os carros sem condutor se tenham generalizado e que profissões como as de taxista ou de camionista estejam em vias de extinção. Para mim, que conheço as minhas falhas, designadamente no tráfego e aparcamento urbano, não será mau de todo. Mas não me custa a acreditar que haverá futuros ex-condutores infelizes.

O historiador e escritor João Pedro Marques (n. 1949), se não é uma dessas pessoas, dá-lhes voz muito bem voz, no seu último romance O Prazer de Guiar, acabado de sair na Porto Editora. Conta uma história, passada em 2032, em que o personagem principal quer dar livre curso ao seu prazer de guiar, num mundo quase totalmente automatizado, no qual todos dispõem de táxis automáticos gratuitos, alguns têm veículos autónomos particulares e poucos têm carros não autónomos, usando o velhinho combustível fóssil, que só estão autorizados a andar em caminhos do fim do mundo, as «estradas cinza». O protagonista João Blundell (que partilha o nome próprio e idade, 72 anos, com o autor e cujo apelido pode vir de Mark Blundel, piloto britânico e comentador de Fórmula 1) pede à ex-mulher, Raquel, que lhe venda o Honda Jazz, com motor a gasolina de 1200 centímetros cúbicos, que ela tem há muito parado na garagem (aposto que o romancista tem ou teve um desses carros), a fim de fazer uma solitária «volta a Portugal», passando pelos sítios das antigas pousadas.

João, amante da velocidade, tinha visto na televisão a Cannonball Run, uma corrida realizada entre as costas leste e oeste dos Estados Unidos nos anos 70. O piloto norte-americano Dan Guerney tornou-se lendário nessa prova (depois de ter sido campeão noutras, como a Fórmula 1, 500 milhas de Indianópolis, etc.), tendo atravessado a América em 35h54m num Ferrari, o que dá uma média de 130 km/h. Essa corrida é, bem entendido, ilegal, o que não impede que haja hoje um recordista, que reclama tê-la feito em menos de 26 horas, o que dá a formidável média de 173 km/h. O mais difícil será evitar a polícia...

Raquel, depois de um categórico não, reconsidera e resolve emprestar-lhe o carro, desde que… ela o acompanhe. Ele fica perplexo, porque a separação era longa e grave, mas é mais forte o prazer de guiar do que o receio de se confrontar com o passado. É, portanto, um romance on the road, não como o de Jack Kerouac, cheio de sexo, álcool e drogas, mas com dois reformados, ambos na casa dos 70 anos, fugindo a uma «rodo-polícia» que dispõe de poderosos meios aeroterrestres. O perseguidor do casal vai ser uma dupla de agentes policiais, ela, Valentina, de origem ucraniana, e ele, Alcídio, de origem cabo-verdiana, que encarnam respectivamente a pressa e a lentidão. O livro, bem produzido (destaco a qualidade do papel e a legibilidade do tipo de letra) lê-se muito rapidamente. Pelo menos, eu li-o muito rapidamente porque tenho prazer em ler a grande velocidade.

Para não diminuir o prazer da leitura não vou contar as aventuras e desventuras do casal, embora seja fácil de adivinhar que o ex-casal vai deixar cair o «ex»; o happy end é bastante previsível. Antes deixo algumas impressões que a leitura me deixou. Passado no futuro, é uma história de ficção científica, um género que entre nós não é, nem nunca foi, muito cultivado. Direi que os portugueses consomem muito mais romances históricos do que romances de ficção científica, sendo curioso ver um historiador profissional escrever uma «história do futuro». O Prazer de Guiar é um grito de liberdade. Exprime uma revolta contra a automatização e a regulação na vida futura, em resultado de um processo que há anos está já em curso. Parece-me claro que o autor usa a ficção como meio de expressar a sua opinião sobre o presente. Ele é manifestamente contra a perda da liberdade, de guiar e não só. Ele, um historiador especializado na escravatura, imagina-nos como futuros escravos das máquinas. O seu romance conta a revolta de um par de escravos contra a proibição de circularem à vontade.

O livro é também uma denúncia do politicamente correcto, que hoje impera. No futuro imaginado pelo autor, a toponímia está mudada: por exemplo, a Ponte Vasco da Gama passou a chamar-se Ponte Europa, porque não se podem referir os antigos descobridores (a União Europeia é, no livro, o Big Brother que controla tudo e todos, impondo entre outras a proibição de fumar); e o Parque Marechal Carmona em Cascais passou a ser o Jardim Greta Thunberg (o livro não diz como está o ambiente na altura). A respeito do politicamente correcto é elucidativa uma história que o João, que tinha sido professor, conta: quando uma vez pediu aos alunos que comentassem a proeza de um cego que escalou uma montanha, a mãe de uma aluna protestou com a direcção da escola, pois esse exercício partia de um preconceito contra os cegos: «a história sugeria que as pessoas cegas estavam de algum modo em desvantagem face a quem via normalmente, o que era incorrecto e menorizava os cegos.» Sobre a igualdade de género, há um curioso diálogo, dentro do carro, entre ex-marido e ex-mulher. Quando esta defende a possibilidade de as mulheres ganharem corridas de Fórmula 1, ele riposta que às mulheres faltará a agressividade imprescindível nessas provas, embora reconheça que elas têm habilidade suficiente para ganhar outro tipo de competições motorizadas, lembrando a vitória da francesa Michèle Mouton no rally de Portugal.

Gostei de ler, é um bom exemplo de literatura light (nada contra, há espaço para todos os tipos de livros). O enredo talvez pudesse ser mais intrincado assim como a discussão de ideias mais complexa. Por exemplo, a relação dos robôs, omnipresentes no livro, com os humanos podia ter sido aprofundada, como faz, por exemplo, o romance recente do japonês Kazuo Ishiguro Clara e o Sol (Gradiva, 2021).  Claro que concordo com o autor sobre a desumanidade de um mundo extremamente robotizado, mas parece-me haver uma nostalgia excessiva pelo regresso à Natureza.
Um momento-chave no livro é quando a audaz agente Valentina sofre, na perseguição que movia ao casal transgressor, um aparatoso acidente na serra da Lousã e, em situação crítica, é ajudada por uma mulher e um homem que vivem numa aldeia comunitária das proximidades. Eis o diálogo entre eles: «– A Valentina gosta da civilização?/ Ela teve medo de responder. (…) Limitou-se a anuir a meia-haste e a meia voz:/ – Acho que sim./ – Gosta? – insistiu a mulher/. Sim, acho que sim./ – Eu não gosto desta civilização – afirmou o homem. – Muitas máquinas e poucos sentimentos. Se fôssemos máquinas já nos tínhamos ido embora, não era, Valentina?» Esta última fala remete para a marca do humano num mundo pós-humano.

João Pedro Marques foi, durante mais de duas décadas, investigador do Instituto de Investigação Científica Tropical. Doutorou-se em História pela Universidade Nova de Lisboa em 1998, com a tese Os Sons do Silêncio. O Portugal de Oitocentos e a Abolição do Tráfico de Escravos (Instituto de Ciências Sociais - ICS, 1999) que foi traduzida em inglês (The Sounds of Silence, Berghahn Books, 2006). Tornou-se conhecido no debate público pelas suas posições sobre a escravatura que ele fundamenta com o seu bom conhecimento das fontes, mas que têm encontrado antagonistas obnubilados pela ideologia. Tenho acompanhado com vivo interesse os seus livros sobre escravatura e não posso deixar de concordar com ele quando sustenta que os portugueses estiveram muito longe de terem sido os inventores da escravatura, que não só é muito antiga, como até existia em África antes da chegada dos descobridores. Os seus livros sobre este assunto são: Portugal e a Escravatura dos Africanos (ICS, 2004); Revoltas Escravas. Mistificações e Mal-entendidos (Guerra & Paz, 2006), Sá da Bandeira e o fim da escravidão (ICS, 2008), Escravatura. Perguntas e respostas (Guerra & Paz, 2017) e Combates pela Verdade. Portugal e os Escravos (idem, 2020). Tem ainda um livro em inglês, em co-autoria: Who Abolished Slavery? Slave Revolts and Abolitionism. A debate with João Pedro Marques (Berghahn Books, 2010).

Dos seus seis romances antes de O Prazer de Guiar, todos eles do prelo da Porto Editora, quatro passam-se no século XIX e dois no século XX. O primeiro romance, saído em 2010, Os Dias da Febre, versa a epidemia da febre-amarela que grassou em Lisboa a meio do século XIX, um tempo que Marques conhece bem da sua investigação histórica. Seguiram-se, em 2012, Uma Fazenda em África (um best-seller, com várias edições), que aborda a colonização, também a meio do século XIX, de Moçâmedes, no sudoeste de Angola; em 2014, O Estranho Caso de Sebastião Moncada, sobre as lutas liberais no Norte; e, em 2015, Do Outro Lado do Mar, sobre a escravatura entre Angola e o Brasil. Os últimos foram: em 2017, Vento de Espanha, sobre a década de 1930 na Península, sacudida pela Guerra Civil Espanhola; e, em 2019, A Aluna Americana, uma love story nos anos 60 entre uma estudante portuguesa vinda dos Estados Unidos e um seu professor universitário. Confesso que, destes, só li A Aluna Americana, um livro com uma excelente capa cuja história simples prende o leitor. Vou procurar e ler os anteriores.

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