25/05/2022
 
 
Bebidas espirituosas. O "pesadelo" das prateleiras vazias

Bebidas espirituosas. O "pesadelo" das prateleiras vazias

Dreamstime Sara Porto 04/11/2021 14:14

Foram mais de dois anos a aguardar o ressuscitar dos bares e discotecas. Muitas foram as noites de confinamento, onde brindámos sozinhos por não podermos brindar em família. Agora, o país abriu, as pistas de dança estão cheias e as casas voltaram a possuir o calor da família. Mas o problema que se levanta é outro: como é que vamos brindar se as prateleiras ficarão vazias e os distribuidores não conseguem fazer chegar os produtos? 

Nunca, pelo menos nas últimas décadas, o anúncio da garrafa meio cheia para os de fora e meio vazia para os da casa esteve tão atual. A crise de produtos à escala mundial vai obrigar muitos consumidores a festejarem o Natal e o Ano Novo com bebidas alcoólicas que não as da sua eleição. A falta de contentores disponíveis para importar os produtos, de garrafas, de rolhas ou até as caixas vão contribuir para muitas prateleiras vazias nos hipermercados, restaurantes, bares e discotecas.

É certo que ainda há alguns produtos nas principais grandes superfícies, mas ontem já os vodkas mais caros rareavam, por exemplo, na Macro de Lisboa. Também os gins e os mais conhecidos champanhes mais acessíveis, como por exemplo o Moet & Chandon, deverão faltar para comemorar as épocas festivas. Algumas marcas de whisky, como a Johnny Walker Black Label, igualmente vão faltar. Mas já lá vamos. O artigo nasceu com um pedido numa conhecida discoteca da capital: “Quero uma tequila, sff”. A resposta do empregado foi clara. “Não temos nenhuma e também não peça vodka Ciroc que também não há”. Pouco depois um responsável da discoteca confirmava as faltas e mostrava-se preocupado com o futuro. “Qualquer produto que venha por via marítima está a demorar dois a três meses, e, por isso, vamos ter que nos virar para outras marcas”.

O problema é que com a abertura das discotecas e bares disparou o consumo e como muitas casas não tiveram dinheiro para se abastecerem em grande é natural que agora tenham problemas de abastecimento. “Parece que o mundo vai acabar amanhã. Os jovens estão a beber como nunca. É incrível. Ninguém estava á espera disto”, diz João, empresário.

A voz dos distribuidores E aqui foi a vez de confirmar com alguns dos principais distribuidores de bebidas espirituosas. “Estamos a ter problemas com tequilas, vodkas, whiskys e champanhes”, contou ai i António Martins, responsável pela distribuidora Solbel que representa marcas de bebidas e distribui na área da grande Lisboa. “Obviamente que algumas marcas existem. Contudo, as marcas todas sortidas, não! E mesmo as que há, são muito difíceis de arranjar”, acrescentou.

Segundo o responsável, a indústria de bebidas espirituosas tem sofrido tal como todas as outras, depois da situação pandémica que abalou o país e o mundo nos últimos dois anos. “Parou tudo no mundo inteiro, não é só um problema em Portugal”, sublinhou António Martins.

Essas carências devem-se, explicou, devido a dois fatores: se por um lado podem existir situações em que estejam em falta garrafas, rolhas, rótulos e caixas, também os transportes dos produtos têm atrasado todas as encomendas. “Tivemos aqui um grande espaço de tempo sem aguardentes brasileiras... Já as temos, mas não com fartura, precisamente pela questão dos transportes e do resto que engloba o produto”, contou.

Segundo o responsável, um dos maiores problemas é que “não é necessário vir de fora para demorar tempo”. De Portugal para Portugal, “às vezes pede-se um produto e esperamos perto de um mês para recebê-lo, quando nos dizem que teríamos de esperar no máximo 48 horas no máximo”. Porquê? “Porque os produtos chegam em grupagem, não se compra nem um camião, nem um contentor de um produto isolado. Ora, isso só se transporta quando? Quando há mais produtos englobados para os preencher”, elucida António Martins, acrescentando que o problema não advém apenas da falta de produto, “porque nem acredito que haja falta de vodka, nem tequila, acredito sim que não haja o produto engarrafado pronto a sair para o mercado”.

Interrogado sobre a possibilidade das discotecas e bares ficarem sem produtos para oferecer, o responsável admite não acreditar nisso: “Se não há um produto, há outro! O único problema é que cada pessoa habitua-se a determinadas marcas e há algumas que não há. Há coisas que se vendem pela marca, pelo nome, nem é pela qualidade do produto, nem pelo paladar. É porque é uma marca!”. Segundo este, a situação mais gritante prende-se precisamente com o champanhe Moet & Chandon, “por toda a publicidade e pelo perfil de prestígio a nível mundial”. “Simplesmente, não há! Há o que está nas prateleiras e pronto!”, alertou, adiantando que a situação só se resolverá “depois de janeiro”.

Posto isto, já há quem se desloque até Espanha para conseguir ter acesso aos produtos. Contudo, António Martins afirma que isso não passa de uma perda de tempo, já que “em Espanha também não há”. “A nossa empresa tem ligações com Espanha, Inglaterra, com toda a parte. Se entrámos na CEE, é porque temos liberdade para comprar os produtos onde quisermos, mas há produtos que simplesmente se esgotaram”, conclui.

Mas há quem no meio da importação de bebidas não tenha seguido o mesmo caminho. Um dos importadores de bebidas francesas e italianas, com os champanhes e vinhos à cabeça, explica ao i, que se precaveu já em março para o que esperava que acontecesse. “No ano passado, no verão, em nove semanas, vendemos o que nunca esperámos vender. Atendendo a que seria previsível que este ano com o fim do confinamento total a procura disparasse ainda mais, tratámos de comprar em grande. E foi o que aconteceu, enchemos o armazém até ao teto, e, por isso, não deveremos ter problemas de stock”. “Gastámos para não termos roturas de stock, foi só isso”.

O responsável, que preferiu falar em off, diz que sabe que, de facto, vão faltar muitas bebidas, principalmente as que vêm de fora da Europa, bem como as marcas de champanhe mais conhecidas e a preços entre os 30 e 40 euros.

Já Diogo Saraiva e Sousa, antigo presidente da Pernod Ricard e uma das sumidades na matéria, diz que “é natural que os espumantes portugueses, que são muito bons, assim como os gins nacionais ou até os licores beirões disparem. Não vai existir outra hipótese”.

O crescimento da mercado do gin Mas não foi preciso haver carência de stock de outras bebidas, para que o gin português já tenha começado a dominar o mercado, tanto nacional como além fronteiras. Se outrora havia quem optasse por absintos e vodkas, agora, as apostas têm sido outras, alterando o paradigma e consumo de bebidas espirituosas. O Gin Black Pig, o mais premiado da Europa que, por sorte, é português, é a prova disso. “Ainda há pouco estive a ler um estudo numa das maiores plataformas de estudos de mercado do mundo, Statista, para perceber qual a tendência futura no que diz respeito ao consumo de bebidas alcoólicas… E há estudos feitos até 2024 que nos dizem que o consumo vai continuar a aumentar. Umas vezes há produtos que têm um decréscimo ao longo dos tempos, são emergentes… As marcas e os produtos aparecem, depois há uma maturação e segue-se um declínio… Eu acredito piamente que o consumo vai continuar a aumentar”, afirmou ao i Miguel Nunes, responsável pela destilaria fixada no Litoral Alentejano. Segundo o responsável, o consumo tem sido crescente, “à velocidade da luz”, não só por estarmos diante de um dos gins mais premiados do mundo, com uma notoriedade internacional, sendo considerado o gin do ano a nível internacional, tendo ganho o World Gin Awards e vencido a maior competição dos EUA e da Ásia, como também pelos hábitos de consumo se estarem a alterar com o passar do tempo.

“Há cada vez mais uma mudança de comportamento do cliente! Há bebidas que ficaram para trás, como é o caso dos absintos e de bebidas com um elevado teor alcoólico. O consumidor deixou de se interessar por elas. Hoje o gin tónico (não gin puro), é uma bebida com baixo teor alcoólico e o cliente quer isso, desfrutar! No fundo é o desfrutar de uma experiência mais do que beber uns copos”, explica Miguel Nunes. Este ano, conta o responsável, a destilaria “vai certamente chegar à produção de 50 mil garrafas”, estando previsto para o próximo ano, “o crescimento de três vezes mais, ou seja, 150 mil garrafas!”. “Neste momento não produzimos mais porque não temos possibilidade para isso”, revela.

Interrogado se não estaremos apenas diante de mais uma moda, o proprietário afirma não acreditar nisso: “Estaríamos a falar de uma moda se nos referíssemos a um período específico em que poderíamos achar que esse produto ia morrer. O gin não morreu. É crescente! E é crescente porque hoje está próximo dos conceitos do lifestyle, do estilo de vida… Até do lado saudável! Pode colocar-se o gin desse lado”.

As modas ao longo dos tempos Diogo Saraiva e Sousa, a propósito de modas, recorda que já houve o tempo em que o whisky era a bebida mais vendida, depois passou a ser o gin, que haveria de ser batido pela vodka e agora o gin voltou ao primeiro lugar. “Estou em crer que as pessoas cada vez bebem mais vinho, espumantes e champanhe. Mas acredito que a bebida mais consumida no futuro vai ser o run Havana Club. Basta só os Estados Unidos da América acabarem com o bloqueio para isso ser uma realidade”.

Questionado se esta escassez de bebidas poderá ‘trazer’ de volta as bebidas falsificadas, Diogo Saraiva e Sousa não acredita. “As bebidas só vão faltar durante uns meses, logo não compensa alguém apostar nas bebidas falsas”. Certo é que todos os inquiridos pelo i acreditam que os preços vão aumentar. “É inevitável, uns tantos vão aproveitar-se da situação para ganhar mais dinheiro”, diz um conhecido empresário da restauração.

 

 

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