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Web Summit. O que procuram os mais de 40 mil participantes em Lisboa?

Web Summit. O que procuram os mais de 40 mil participantes em Lisboa?

Diarmuid Greene/Web Summit/Sportsfile Joana Mourão Carvalho 02/11/2021 08:30

Há quem tenha objetivos claros. Uns são movidos em busca de projetos novos, outros querem entrar no mercado europeu. Mas há quem venha pela cerveja e desconfie da verdadeira utilidade do maior evento tech da Europa. 

Rebecca tem 27 anos, veio da Alemanha e pagou 800 euros por um bilhete que, acredita, lhe vai “alargar os horizontes”. Dmitry é russo e trabalha como DJ em São Francisco, Estados Unidos. Conheceram-se na fila para entrar na Altice Arena, na sessão de abertura da maior conferência de tecnologia e empreendedorismo da Europa.

Depois de uma edição inteiramente online em 2020, devido à pandemia da covid-19, a Web Summit arrancou esta segunda-feira presencialmente, com direito a plateia esgotada, apesar dos preços quase proibitivos de algumas entradas. No primeiro dia subiram ao palco denunciantes do Facebook e um novo presidente da Câmara.

A formação base de Rebecca é na área da tecnologia, e a jovem alemã quis ver que ideias andam a correr na maior praça do empreendedorismo da Europa. Espera, no final dos quatro dias, levar de Lisboa um conceito para uma startup que pretende criar.

Ainda que para já não tenha qualquer pespetiva, diz que a conferência “vale a pena o investimento”. Isto porque, para ter a oportunidade de assistir aos mais de mil painéis de oradores do evento, teve que comprar um bilhete que lhe custou mais de 800 euros.

Mais escandalizada ficou quando viu os preços dos bilhetes para os homens. “Podem ir até aos quatro dígitos”, relata. O que é facto é que esta edição esgotou, o que a organização da Web Summit atribui à confiança dos participantes nas altas taxas de vacinação do país.

Sobre a diferença de preços praticados na venda de bilhetes para homens e mulheres, Rebecca considera que “não faz sentido se for uma questão de quotas de audiência”, como chamariz para atrair mais mulheres ao universo tecnológico “muito dominado pelos homens”.

“Olhando para a plateia vês que há um equilíbrio no que toca ao género”, avalia.

Sentado ao seu lado, o DJ Dmitry já pisou vários palcos internacionais, como no festival Coachella, na Califórnia. Esta quarta-feira vai passar música num dos palcos da Web Summit.

“Vim pela cerveja e para me divertir, mas até agora está a ser muito aborrecido”, comenta, segurando um copo, tal como a maioria da plateia, que vai bebendo ao mesmo tempo que ouve o pitch de mais uma startup, enquanto se aguarda que as maiores atrações entrem no palco central.

Apesar de entediado com os discursos sobre empreendedorismo, data e inteligência artificial, Dmitry vai rindo e fazendo piadas. “Acho que ninguém vem para aqui para ouvir estas pessoas falarem. Vêm só para dizerem que vieram, iludidos que vão salvar o mundo com as suas ideias mirabolantes”, ironiza.

Contudo há quem discorde e veja no evento uma oportunidade para promover o seu produto ou a sua empresa. É o caso de Thais e de Charlotte. Uma é brasileira, a outra britânica, mas partilham um objetivo: dar a conhecer a empresa que representam ao mercado europeu.

Ambas trabalham para a E.ocean, sediada no Paquistão, que desenvolve serviços de interface entre marcas e consumidores, com o apoio das novas tecnologias de comunicação.

O seu papel na Web Summit é “estabelecer contactos com possíveis partners” que lhes possam abrir portas na Europa, uma vez que a E.ocean ainda só conseguiu estabelecer-se com algum peso no Médio Oriente.

“Só é possível fazer esse tipo de networking em eventos como este, cara a cara. Não dá para fazer isso através de um ecrã por Zoom. Ainda por cima quando trabalhamos com tecnologia que é intangível”, defende Charlotte.

Para marcarem presença em Lisboa, a E.ocean teve que gastar 15 mil dólares (cerca de 13 mil euros), com direito a um stand num dos pavilhões da FIL, onde estão concentrados outros tantos expositores.

“O Presidente da inovação” No arranque da cerimónia de abertura Carlos Moedas apresentou-se como “o presidente da Câmara da Inovação”. O recém-eleito autarca lisboeta desejou as boas-vindas à capital portuguesa e lembrou que já esteve aqui. “Estive aqui convosco desde o início. E foi aqui que conhecemos mentes e pessoas incríveis que me inspiraram a fazer o meu trabalho”.

À plateia da Altice Arena, Moedas revelou que o seu sonho é transformar a capital portuguesa “na capital mundial da inovação” e numa “fábrica de unicórnios”. “A mensagem que tenho hoje é muito simples. O que quer que façam da vida, o que quer que seja o vosso projeto, sonhem em grande e mergulhem nos detalhes”, encorajou Carlos Moedas.

O ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, que também teve oportunidade de discursar neste primeiro dia da conferência, fez referência ao impacto das restrições durante a pandemia.

“Mas recuperámos muito depressa. À medida que os planos de vacinação progrediram, vimos que crescemos mais fortes do que a média europeia”, afirmou.

Siza Vieira acrescentou ainda que “ninguém acreditava que se conseguia manter a economia em pé”, com grande parte do trabalho a realizar-se no digital. Mas “descobrimos que o desenvolvimento tecnológico para trabalhar é mais natural do que acreditávamos”.

O governante aproveitou ainda para incentivar as startups participantes na Web Summit a lançarem os seus negócios a partir de Portugal com dois argumentos: a aposta nas energias renováveis e o nível de segurança, insistindo que o país é o terceiro mais seguro do planeta.

No final, subiu ainda ao palco da Web Summit Frances Haugen, a engenheira de dados que expôs os milhares de documentos internos que sugerem que o Facebook — agora denominado Meta — está construído para criar dependência e promover os discursos de ódio. A denunciante revelou que não tinha planeado revelar a sua identidade, mas que estava “contente por ter tido a oportunidade de expor tudo”. Mas reforçou: “Não gosto de ser o centro das atenções”.

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