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Enfermeiros de trincheira

Enfermeiros de trincheira

DR Mafalda Jacinto e Sérgio Pereira 27/10/2021 20:05

Diz Antoine Saint Exupéry na sua obra “O Principezinho”, uma obra, que cativou gerações à volta de um menino que se vê perdido no deserto, que Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós. Uma célebre frase que nos diz tanto sobre a forma como nos relacionamos com o outro e o outro connosco e que poderá servir de mote ao que fazemos enquanto enfermeiros, também nós, neste momento, perdidos num deserto. Os enfermeiros estão cheios! Cheios de deixar de si aos outros que levam tanto de si, cheios de arregaçar as mangas e dar os corpos cansados às balas de uma profissão que sempre foi exigente, mas que nestes tempos de pandemia, que já parece um passado distante para a tutela, foi particularmente mortal. Sim, mortal! Não, não foram só os óbitos, chorados por inúmeras famílias, que choramos neste “arco-íris de esperança” que nos trouxe a chegada à meta dos 85% da população vacinada contra a Covid-19. Choramos a enfermagem, choramos o amor à camisola, choramos o sorriso que perdemos, choramos a excelência de cuidados que a sobrecarga de trabalho nos obrigou a esquecer, choramos as feridas de uma guerra em que os enfermeiros foram soldados de trincheiras, dentro e fora dos covidários, no serviço público e na saúde privada, em todo o ciclo da vida, em todas as vertentes dos cuidados de saúde e, agora, choramos ainda todos colegas que “abandonam” o serviço, largam os EPI e arrumam as socas, e vão! Vão à procura de realização, profissional, mas sobretudo pessoal, vão à procura de reconhecimento, de uma carreira justa e equitativa, de um salário emocional, de uma camisola que os orgulhe vestir. E encontram onde? Longe da enfermagem e/ou longe do nosso país. O país que bateu palmas aos enfermeiros, o país que se impressionou com cenários dentro e fora das enfermarias covid, o país que pediu mais e mais a cada um destes “soldados”, no exponente máximo da pandemia, mas também durante a vacinação. Esse país sofre uma perda de memória sem precedentes, e porquê? Porque agora já acabou, já não interessa! Agora interessa dizer que o país está falido por causa da covid e mais uma vez se preparam os cidadãos para apontar o dedo aos enfermeiros, para lhes dizer que são gananciosos, que exigem aquilo que o país não lhes pode dar porque não há dinheiro. Citando o Vice-Presidente da Ordem dos Enfermeiros, Luís Filipe Barreira (…) a luta pela valorização dos Enfermeiros é para ontem. É importante não perder o foco...”. Pois eu digo que a luta pela enfermagem começa em cada um de nós. Começa pela aplicabilidade dos saberes de enfermagem em cada um e na relação com pares e outras profissões, na reflexão de quem sou eu quando visto a minha farda e quando me apresento na equipa a que pertenço. Que profissional sou eu, perante outras classes, perante famílias. Chega de nos escondermos na classe médica ou de lhes sermos subservientes. Basta de ter medo de esclarecer famílias e doentes, de negar informações que detemos: quantas vezes já respondemos à pergunta “como está o meu familiar?” com “tem de falar com os médicos”? Quantas vezes aceitamos trabalhar por um valor que é impensável para outras profissões? Quantas vezes nos subjugamos a chefias ditatoriais que dispensam enfermeiros pensantes? Nunca seremos valorizados, enquanto não nos valorizarmos! Uma valorização, não só enquanto enfermeiros, mas sobretudo enquanto pessoas, exigindo condições dignas de trabalho e o reconhecimento das nossas valências e exigindo salários dignos e carreiras ajustadas à diferenciação da nossa função. O país que servimos não merece os enfermeiros que tem! Porquê? Porque se estes excelentes profissionais, que são tão honradamente reconhecidos noutros países, não estivessem cá, estariam cá outros quaisquer, porque todos somos iguais… mas seremos mesmo? A enfermagem não faz falta? Os enfermeiros podem ser substituídos por outros profissionais com outras competências? Pago o que for necessário a um mecânico para me arranjar o carro e nem discuto. Se tiver uma rotura de um cano em casa, pago taxa de urgência, deslocação do canalizador e tudo o que ele cobrar pelo serviço que eu tanto preciso e sem discussão e ainda agradeço e vou recomendar aos amigos, família e conhecidos! Já o enfermeiro não merece esse tipo de reconhecimento porque nem ele próprio se valoriza dessa forma. É também e talvez sobretudo por nossa culpa que a enfermagem está onde está. É por minha culpa que olho para o futuro e vejo com tristeza que trabalharei mais 20 anos (pelo menos!) a fazer o mesmo, ganhando talvez mais uns trocos, mas no fundo exatamente no mesmo “buraco”. O buraco que eu ajudei a cavar, tal como escavamos a nossa trincheira, e onde acabarei por enterrar a profissão que sem dúvida amo. Quantas vezes invejamos e discriminamos colegas que recebem mais do que nós, e pelo nosso julgamento não o merecem? Alguma vez agradecemos a um colega o seu trabalho, que por mais que seja sua competência fazê-lo, porque está a ser pago para tal, o faz com tal excelência que deve ser valorizado? Quantas vezes indicamos um colega com especialidade numa determinada área para uma oferta de trabalho que nos é proposta a nós? Voltando às palavras do Vice-Presidente da Ordem dos Enfermeiros A valorização dos Enfermeiros é o único tema que nos deve preocupar neste momento. É urgente! Não! É Emergente! É emergente que estas palavras sejam não só do VicePresidente da Ordem dos Enfermeiros, mas de cada um de nós, de cada enfermeiro, sindicalizado ou não, do serviço público, ou da saúde privada. É emergente cuidar! Cuidar da enfermagem e dos enfermeiros. É preciso para ontem cuidar de cada um de nós. Cuidar e respeitar os colegas que têm a farda cheia de remendos e o corpo e a alma cheios de cicatrizes de uma profissão que merecia uma reforma antecipada, mas não há quem os substitua, cuidar dos recém-licenciados, largados ao abandono da imaturidade, para que o sonho que ainda trazem de uma enfermagem literária, não se perca por entre “velhos do Restelo”, exaustos e descrentes, é urgente cuidar de todos os colegas exaustos em sobrecarga contínua, é emergente perceber que os enfermeiros têm uma vida para além da sua profissão e, porque precisam de a ter, é emergente perceber que é preciso respeitar as exigências da fase de vida de cada indivíduo, sem pôr em causa a excelência da profissão. É emergente amar! Não, não é poesia, é dor, dor descontrolada de quem vê a democracia que nos rege desprezar as necessidades de cada um, desconhecendo que o todo é maior do que a soma das partes. É angústia desmesurada pensar que uma profissão que se pauta por cuidar de forma holística os que nos são confiados, não é capaz de pensar que só em uníssono vamos chegar ao que todos desejamos, a uma ENFERMAGEM DIGNA! É dispneia severa, que provoca, pensar que o inverno não tardará, que a afluência aos cuidados de saúde vai aumentar novamente e que não haverá quem cuide dos meus, dos teus, dos nossos! E é talvez delírium terminal acreditar que ainda há esperança para a profissão que livremente escolhi. Vivemos uma enfermagem paliativa, sem cura, sem retorno, centrada no indivíduo e não no todo, cheia de egocentrismos. Uma enfermagem que recebe medidas de conforto de quem nos tutela e ainda agradece. Este é um momento histórico para a profissão que exercemos, em que a convergência dos sindicatos, nos leva a formas de luta que demonstram a união da classe. A inesquecível greve cirúrgica, colocou a enfermagem na boca do mundo, as reuniões dos representantes dos sindicatos de enfermeiros, mostra o descontentamento da classe, greves marcadas por todos os sindicatos, manifestações conjuntas. E tu? Onde tens estado tu, nesta luta? De que lado da trincheira estás tu? Farás parte da solução ou apenas do problema? A luta pela enfermagem, não é “deles”. É minha, é nossa! E tua, é? BASTA! BASTA de prémios e subsídios que só fraturam a classe e nos deixam expostos à dilacerante opinião pública. É EMERGENTE que a voz da enfermagem seja uníssona porque só juntos alcançaremos a medalha que há tanto tempo disputamos: uma carreira digna.Uma ENFERMAGEM DIGNA!

Mafalda Jacinto & Sérgio Pereira

 

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