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Carta às Escolas e Universidades

Carta às Escolas e Universidades

Paulo Ferreira 25/10/2021 16:30

Atualmente, a humanidade vive essencialmente nesta divisão. As escolas e universidades têm sido o local para transferir e adquirir conhecimento, enquanto que a transformação do ser humano e da sua vida quotidiana tem acontecido, sobretudo, fora deste ambiente escolar. Contudo, estas duas vertentes estão intimamente ligadas, pelo que faria todo o sentido ocorrerem em conjunto nas escolas e universidades. 

Por Paulo Ferreira, Professor Catedrático do Instituto Superior Técnico

Quase todos nós, enquanto pais, sentimos uma grande dose de responsabilidade para com as nossa famílias. Neste sentido, os pais procuram proporcionar através do ensino uma vida melhor aos seus filhos.  Assim, as escolas e universidades tornam-se durante grande parte da vida o local onde os alunos crescem, se desenvolvem e estabelecem os alicerces para o seu futuro. As escolas e universidades são assim uma segunda casa onde educadores assumem um papel de grande responsabilidade.

Esta questão da responsabilidade deve ser compreendida verdadeiramente. A palavra responsabilidade está relacionada com a palavra em latim respondere, que significa "responder”. Ou seja, um educador responsável tem o dever de responder pela educação que transmite aos seus alunos.  Neste contexto, devemos perguntar qual a função do educador. Será apenas ensinar matemática, física, ou qualquer outra disciplina, ou também despertar no aluno outras competências?

Atualmente, a humanidade vive essencialmente nesta divisão. As escolas e universidades têm sido o local para transferir e adquirir conhecimento, enquanto que a transformação do ser humano e da sua vida quotidiana tem acontecido, sobretudo, fora deste ambiente escolar. Contudo, estas duas vertentes estão intimamente ligadas, pelo que faria todo o sentido ocorrerem em conjunto nas escolas e universidades. Para isso devemos perguntar o que ensinamos e o que aluno está a aprender. Ou ainda, o que significa aprender.

Para responder a estas questões pertinentes, é fundamental ter em consideração que o papel do educador existe para ajudar a estabelecer na sociedade as gerações futuras. Sendo assim, o que se ensina e o que se aprende tem que ser mais do que ter de ganhar a vida, conseguir um emprego, garantir segurança financeira e projectar a carreira profissional. Estas são questões inteiramente legítimas mas temos que ambicionar mais.

Desde o início da humanidade que estamos programados para aprender, para tentar entender aquilo que não compreendemos, para adquirir conhecimento, desenvolver a inteligência e o intelecto. É de facto um movimento constante e profundo que tem a ver com a nossa relação com o Universo. Mas este processo não se restringe apenas a aprender sobre tudo aquilo que nos rodeia, mas também sobre nós próprios, como por exemplo a forma como interagimos com os outros, o desenvolvimento da responsabilidade e a liberdade da mente.

Neste contexto, a responsabilidade de um educador passa também por cultivar estes fatores menos académicos. Não é um trabalho fácil, principalmente com a massificação do ensino, onde a interação entre educador e aluno é, em muitos casos, reduzida. Por outro lado, os alunos são muito diversos, condicionados pelo ambiente em que vivem fora do ambiente escolar. Adicionalmente, não é um trabalho que seja bem reconhecido e compensado pela sociedade. Porém, é sem dúvida uma tafera que exige atenção, entrega, empenhamento e dedicação. Acima de tudo, é fundamental criar uma relação de diálogo, de confiança, de compreensão e cooperação com os alunos. O que quer isto dizer?

Em primeiro lugar, o educador não deve criar um sentido de superioridade, sempre comunicando de um pedestal, fazendo que o aluno se sinta inferior. Nestas condições não há relação. Fere a mente, surge o medo e a sensação de tensão.  Pelo contrário, as escolas e universidades são locais onde o educador e o aluno estão ambos a aprender em perfeita sinergia, onde há troca livre de pensamentos e ideias.

Em segundo lugar, é importante demonstrar, por parte do educador, a disponibilidade para observar e escutar. E´uma oportunidade para entender o que o aluno é. Isto permite auxiliar o aluno a ultrapassar desafios, a descobrir a sua inteligência e principalmente o seu intelecto. Ninguém questiona o valor da inteligência. De facto, é universalmente estimada, e os indivíduos que parecem possuí-la são altamente considerados. Por outro lado, o homem intelectual é muitas vezes elogiado, mas também é frequentemente olhado com ressentimento ou suspeita, porque o intelecto é um estado criativo e contemplativo da mente, estado esse menos explorado nas escolas e universidades.

Finalmente, é fundamental trasmitir aos alunos um ambiente de serenidade. Para aprender de facto, a mente tem que estar tranquila, em observação contínua, em liberdade. Pelo contrário, um ambiente de pressão espoleta um tipo de aprendizagem diferente, mais reactivo, mais superficial, menos esclarecido, menos transformador.

Em suma, para além de tentar conseguir a excelência académica dos alunos, é essencial que as escolas e universidades ajudem os alunos a compreender a plenitude do ato que e´ aprender. Só assim seremos capazes de transformar as pessoas, tornando-as mais completas, contribuindo desta forma para o desenvolvimento de novas gerações responsáveis e livres.  Na verdade, ao longo da vida, nunca deixamos de ser alunos, estamos sempre a aprender.

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