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"A violência na noite está a tornar-se grave e preocupante"

"A violência na noite está a tornar-se grave e preocupante"

Mafalda Gomes Maria Moreira Rato 24/10/2021 10:57

‘Na pandemia, as pessoas não bebiam ou não bebiam tanto e, ao terceiro ou quarto copo, ganham uma valentia exacerbada’, diz Rafael Jamece, de 27 anos, relações públicas há 12 e amigo de Paulo Correia, jovem assassinado à porta da Boîte, no Porto.

A insegurança sentida no setor da diversão noturna e por quem o frequenta tem vindo a escalar nas últimas semanas, mas também fora destes estabelecimentos. Os casos mais paradigmáticos são os de André Barbosa – que está a recuperar de uma cirurgia ao maxilar depois de ter sido agredido no Clube Vida, em Albufeira –, Rafael Lopes, jovem morto à facada no metro das Laranjeiras, em Lisboa, e Paulo Correia, rapaz que perdeu a vida à porta da discoteca Boîte no Porto.

«O meu amigo Paulo não está cá para se defender, mas eu digo que tão culpada é a pessoa que o assassinou como aquelas que foram coniventes», começa por declarar Rafael Jamece, jovem de 27 anos que trabalha na noite há 12. «Entrou em paragem cardiorrespiratória, foi levado para o hospital e acabou por falecer por ter uma grande hemorragia interna. Ele tinha apenas 23 anos e era produtor de música», explica, admitindo que têm sido veiculadas diversas versões da história e não tem a certeza de qual corresponde à verdade, porém, há uma que tem corrido com mais frequência entre quem conhecia a vítima mortal

«Há quem diga que ele falou com umas francesas, mas esquecem-se de que estamos a trabalhar, não a flirtar ou no engate. E os rapazes que estavam com elas decidiram agredi-lo ao ponto de o matar. Foram levados numa carrinha policial onde ainda fizeram vídeos literalmente a gozar e a dizer ‘Olha, este aqui não está com cara de contente’ e a fazerem braço de ferro algemados. Acho isto inadmissível», constata aquele que já trabalhou como Relações Públicas em vários locais, como o clube Gossip Lisboa ou o bar Tamariz.

«Não basta terem matado uma pessoa, ainda gozam com isso. Isto não foi muito falado porque Portugal não quer criar atritos com França. Tem de ser investigado minuciosamente para se perceber até que ponto eles não têm de ser repatriados. Estão num país que os recebeu de braços abertos. Isto é medonho», frisa, pedindo aos portugueses que não se esqueçam de Paulo, que jogava basquetebol no Guifões Sport Clube, de Matosinhos, «estava sempre alegre, com um sorriso na cara» e morreu precocemente no passado dia 11.

‘Noto o desapego e a falta de empatia que as pessoas têm tido’
Mas Rafael quer preservar a memória do amigo, principalmente, porque há dois anos tem vindo a notar uma tendência crescente da agressividade na noite e não quer que o desfecho de outros seja como o do produtor musical. «Por exemplo, falando do impacto do exterior, não apenas daquilo que se passa no interior dos estabelecimentos, apanhar transportes públicos à noite tornou-se um perigo. Uma pessoa que vá sair, deve andar neles, para proteger a sua vida e a dos outros, mas há sempre pessoas a ofenderem-se, a baterem umas nas outras e as discussões escalam» e, por este motivo, tendo cada vez mais receio de viajar sozinho entre Lisboa e Oeiras, optou pelas plataformas TVDE. 

Além dos problemas que se arrastam das discotecas, dos clubes e dos bares para as ruas, Rafael explica que têm sido mais nítidos desde a reabertura dos mesmos a 1 de outubro. «A pandemia deu-nos uma parte emocional e sentimental maior, porque ficámos privados de afeto. E, de facto, algumas pessoas corrigiram-se, cultivaram-se e até começaram a ser mais carinhosas, mas tenho entendido que há uma nova vaga de agressões», afirma, revelando que «surgem cada vez mais pessoas nojentas, predadores sexuais mesmo, que ficam em carros, fora dos estabelecimentos, à espera de que as raparigas saiam».

Relativamente às zonas onde as agressões sexuais acontecem com mais frequência,  remata que tem conhecimento de que se encontram a Norte. «Nas redes sociais, vejo os meus amigos e colegas do Porto a partilharem constantemente conteúdos em que dizem coisas como ‘Cuidado com o Campo 24 de agosto, pessoal’ ou ‘Não andem sozinhos no metro das Antas’», indica, acrescentando que, na capital, sente-se apreensivo naquilo que diz respeito a certas ruas do Bairro Alto, de Santos, do Cais do Sodré, de Alcântara e da Baixa-Chiado, pois «são aquelas onde há a maior concentração de bares e discotecas e onde começa o consumo de álcool e as pessoas perdem um bocado a noção».

Recordando que, antes do aparecimento do novo coronavírus, quando ainda tinha emprego na diversão noturna, não foi agredido, mas tal poderia ter acontecido se não tivesse mantido a calma, admite que era abordado por clientes que tinham tudo menos boas intenções. «Chegavam ao pé de mim e perguntavam ‘Opá, não tens aí um cigarro que me dês?’ ou ‘Não tens cinco euros que me emprestes?’, por exemplo, porque os discursos seguem sempre esta linha de pensamento. E, se ficava sozinho, vinham atrás de mim e queriam fazer-me mal por prazer, nem sequer era para me roubar», confessa, declarando com convicção que «a violência na noite está a tornar-se grave e preocupante».
 
‘Somos acarinhados enquanto temos algo para oferecer’
Apesar de já estar a receber propostas de emprego por ter criado muitos contactos nos últimos anos, tendo em conta que aliou a paixão pela noite ao sonho de vingar no mundo do Design de Moda, não esconde que integrar o grupo dos trabalhadores da diversão noturna, no decorrer da pandemia, foi tudo menos fácil. «Os DJs, barmen, relações públicas, os seguranças, as hostesses e aqueles que desempenham outras funções foram postos de parte sem qualquer tipo de ajudas do Estado». 

«Chegou a magoar-me, mas sabia que este seria o desfecho porque a noite é extremamente efémera. Somos muito acarinhados enquanto temos algo para oferecer. Quando não é esse o caso, esquecem-se de nós», confessa, assinalando que os estabelecimentos constituem «um local de lazer e não só um sítio onde se apanha bebedeiras».

«Havia laços que pareciam reais, mas percebi que não o eram durante a pandemia. Noto o desapego e a falta de empatia que as pessoas têm tido», lamenta, considerando as festas It is what is, inspiradas no festival norte-americano Burning Man, como um bom exemplo da forma como se regressa à noite e se festeja o período de alívio das restrições que estavam em vigor. «Só se entra por convite e há dress code. E é completamente diferente», diz, informando que as mesmas têm periodicidade mensal e decorrem num local secreto que somente é dado a conhecer no dia do evento. 
«Lá não há porrada nem confusões: toda a gente está bem. A noite serve para sairmos do mundo do trabalho e espairecermos, esquecermos o stress e a ansiedade. E há certas pessoas, nos eventos menos exclusivos, que não encaram isto como deviam e parece que descarregam as frustrações, a mágoa e a insatisfação que criaram, nos confinamentos, nos outros», refere. «Não digo que seja voluntário, mas penso que até os trabalhadores se tornaram pessoas mais frias por terem sido descartadas».

«O meio social é a forma como desanuviamos a tensão que acumulamos e, durante 19 meses, não houve isso. Tivemos de nos reinventar através das redes sociais. Estou muito dependente do Instagram porque se tornou a minha janela principal para o mundo. Vi-me em casa sozinho, como é que ia lidar com as pessoas?», questiona, reconhecendo, contudo, os malefícios da exposição exagerada às plataformas digitais.

«Resolvemos as coisas à porrada, ao tiro e à violência. Cada vez perdemos mais a capacidade de nos entendermos. Damos um estalo ou um murro sem pensarmos nas consequências», adianta, avançando que já há pessoas que saem armadas de casa com armas brancas, de fogo, ou outros objetos como soqueiras e paus, e têm cada vez mais acesso a estes objetos.

«Na pandemia, as pessoas não bebiam ou não bebiam tanto e, ao terceiro ou quarto copo, ganham uma valentia exacerbada. E há discussões que ocorreram nas redes sociais e estão a ser resolvidas agora. Encontram-se presencialmente e é uma desgraça», salienta o rapaz para quem o lema Vai Ficar Tudo Bem nunca fez menos sentido como nos dias de hoje devido à  realidade socioeconómica que o país enfrenta.

«O preço da comida e dos combustíveis aumenta, há mais prostituição, há pais de família desesperados, pessoas recém-licenciadas que mandam currículos e nem em supermercados são aceites porque têm demasiadas competências... Tudo isto aumenta a criminalidade. E esta, obviamente, revela-se mais na noite. Acho mesmo que estamos a entrar numa fase muito má», adiciona, vendo como solução mais viável e eficaz o reforço das patrulhas da PSP e da GNR «para que consigamos estar fora de casa em segurança».

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