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José Paulo do Carmo 22/10/2021
José Paulo do Carmo

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As ruas, os pedintes e a EMEL

É muito bonito cortar fitas no WebSummit mas mais bonito ainda seria cuidar de quem cá mora e cá trabalha

Quem como eu percorre todos os dias diversas ruas de Lisboa apercebe-se facilmente dos diversos fenómenos, uns emergentes outros já há muito existentes mas sem resolução à vista e que afetam a capital. São dinâmicas sociais, algumas políticas e estruturais que representam o nosso dia-a-dia. A começar pela EMEL. Já se sabe que o anterior executivo camarário tinha em prossecução um plano para retirar os carros da cidade e uma das suas atividades preferidas era a caça às multas. Através dessa que é talvez a empresa municipal mais odiada de sempre fomos vendo uma perseguição constante aos estacionamentos desde os preços à pressão psicológica de deixar as pessoas horas à espera para desbloquear carros, muitos deles de forma injusta e pouco criteriosa. Mas também esta desresponsabilização em relação aos arrumadores. Muitos a atuar em áreas com parquímetros e que nos convida a todos a um duplo pagamento, à máquina e ao arrumador. Não há fiscalização, o único interesse é a cobrança e uma pessoa além de ter que pagar parquímetro, senão rebocam-nos o carro, ainda se sente coagida a dar qualquer coisa ao arrumador, a maioria das vezes nem é porque eles sejam agressivos mas porque existe sempre aquele receio que façam algo ao carro ou que tenham alguma atitude intimidatória.

Em relação aos pedintes a história é outra mas vai pelo mesmo principio. Eu, por exemplo, em Campo de Ourique vejo-os a crescer como cogumelos. Começa no romeno à saída do viaduto Duarte Pacheco que já deve ter recebido para 20 operações (aos anos que lá está) e prolonga-se por toda a Ferreira Borges e ruas adjacentes. Sobretudo onde há supermercados e cafés. Na porta do Pingo Doce são vários, quase todos jovens, uns fazem acrobacias outros simplesmente sentados com cães por companhia. Mesmo sentado no jardim da Parada já várias vezes me apareceram pessoas a pedir. Uns porque lhes acabou a gasolina outros porque lhes roubaram a carteira e outros ainda porque têm fome. A esses ofereço-me sempre para lhes comprar qualquer coisa para comerem. Só um aceitou, os outros foram-se embora a balbuciar palavras imperceptíveis, imagino que me estivessem a rogar pragas.

Também os assaltantes e os vendedores de droga aumentaram na zona do Bairro Alto e Cais do Sodré. Vendedores de droga que é como quem diz, grupos de pessoas em cada esquina, a maioria deles de etnia cigana, vão pronunciando baixinho o cardápio enquanto perseguem os turistas. Ali pouco ou nada há de droga, só ervas aromáticas e outras imitações para “inglês ver”. É por isso que não se podem prender em flagrante delito, dizem-me da polícia. Mas nem por venda ambulante sem licença? Pergunto eu. É uma péssima imagem que se dá de bairros onde andam os nossos filhos e estrangeiros que alimentam o nosso turismo. Passa-se isto há anos, mas quem manda assobia para o lado. É mais fácil passar multas de estacionamento. Mas há mais problemas nas ruas de Lisboa. As necessidades dos cães de companhia continuam espalhadas pela nossa calçada, às vezes sinto que quem me olha de longe imagina que estou a jogar à macaca enquanto me desvio das excrementos que dão colorido aos passeios.

Por falar em passeios, esta semana pela segunda vez seguida vejo um velhote prostrado no chão, com uma série de mirones à volta à espera de uma ambulância. Já começa a ser normal miúdos que ainda mal começaram a andar montados em trotinetes, sem equilíbrio algum, no meio dos passeios a jogar uma espécie de bowling humano. Umas vezes não acertam nos pinos mas quando acertam em algum com as pernas mais oxidadas dá sempre confusão. A culpa na realidade nem é deles, é de quem quer ser muito modernaço e aderir às novas tendências e depois esquece-se de criar procedimentos, leis e regras. Já estive perto de atropelar uns quantos que me aparecem sem eu dar por eles, sem capacetes, pela direita e pela esquerda aos zigue zagues. É fundamental que comecemos a dar mais importância ao que se passa na realidade nas ruas de Lisboa. Até o próprio trânsito, parte dele causado por eliminação de faixas para dar lugar a ciclovias. É muito bonito cortar fitas no WebSummit mas mais bonito ainda seria cuidar de quem cá mora e cá trabalha, pelo menos para termos um bocadinho de qualidade de vida, a pouca que nos resta no meio de tantos impostos.


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