8/12/21
 
 
PCP, BE e a hipotética crise política

PCP, BE e a hipotética crise política

Sónia Leal Martins 22/10/2021 09:25

“A esquerda está condenada a aprovar o Orçamento”

Na sequência de um desacordo iminente, entre os partidos da esquerda sobre o Orçamento de Estado para 2022, o Presidente da República declarou que, a não aprovação do mesmo, abriria uma crise política que culminaria na dissolução do Parlamento e, consequentemente, na marcação de eleições legislativas antecipadas.

Perante este cenário, será que algum dos partidos intervenientes, neste suposto desacordo, sairá a ganhar com a realização de eleições antecipadas?

O PCP tem sido bastante pressionado pela CGTP para votar contra o Orçamento de Estado, caso a legislação laboral não venha a integrar as alterações defendidas por esta central sindical. Porém, o partido de Jerónimo de Sousa não está nas melhores condições para se apresentar a eleições a breve trecho. Isto porque, o PCP vem de uma derrota nas eleições autárquicas, onde perdeu algumas autarquias importantes, para o PS, perdendo assim a influência que tinha no poder local e, verdade seja dita, os últimos resultados das sondagens não são tão favoráveis quanto desejaria o PCP, com um resultado entre os 5 e os 6%, o que os mantém em perda, ainda que ligeira, uma vez que nas últimas eleições legislativas, em 2019, obteve 6,33%;

O BE sempre teve muitas dificuldades em impor-se no quadro autárquico e os resultados obtidos nas últimas eleições autárquicas não foram exceção, o que levou a coordenadora do BE, Catarina Martins, a assumir que os resultados ficaram muito aquém do esperado. Além disso, e tal como o PCP, também as sondagens não são animadoras para o BE, uma vez que apontam para um resultado igual ao do CHEGA, com 7,1%, representando uma perda de cerca de 2% em relação ao resultado das últimas eleições legislativas, onde o BE teve 9,52% dos votos.

Nenhum dos dois partidos que têm suportado o governo minoritário do PS, está nas melhores condições para disputar eleições em janeiro de 2022. Ambos precisam de tempo para recuperar folgo e para se distanciarem do Governo, ora, a não aprovação do Orçamento de Estado, era o grande sinal da rutura com as políticas socialistas, mas a queda do Governo teria sempre como “culpados” o PC ou o BE, ou até ambos, e isso, poderia ser mais penalizador para estes partidos do que para o próprio PS.

Ou seja, a esquerda está condenada a aprovar o Orçamento de Estado, caso contrário, estariam reunidas as condições para uma campanha de vitimização do PS, junto do eleitorado, apontando o dedo aos seus antigos parceiros, por um possível regresso da direta ao poder.

Este cenário poderia ser ainda mais catastrófico para os dois partidos mais à esquerda, uma vez que poderiam ambos sofrer com o facto do seu eleitorado mais volátil se transferir para o PS, castigando assim o PCP e o BE pela queda do Governo – beneficiando o PS do voto útil da esquerda.

A verdade, é que o PS é o único partido à esquerda que está mais confortável com a possibilidade de termos eleições antecipadas.

Apesar da derrota em Lisboa e de outras autarquias de relevo, o PS foi o vencedor das últimas eleições autárquicas, tendo conquistado o maior número de autarquias e o maior número de votos no total nacional.

As sondagens mais recentes são favoráveis ao PS, com uma votação na ordem dos 40%, o que significa uma subida percentual face aos resultados das últimas eleições legislativas, onde obteve 36,3% dos votos. Apesar disso, este hipotético resultado não é suficiente para o PS governar sozinho e, dificilmente, se voltará a formar uma nova “gerigonça”, o que leva o PS a não querer eleições antecipadas e a ter que negociar com os partidos da esquerda as medidas necessárias para a viabilização do Orçamento de Estado, o que temos estado a assistir nos últimos dias.

Existe uma última razão, embora simbólica, mas não menos importante, para que o PS não force uma crise política e esta tem um nome, Carlos Moedas. A vitória de Carlos Moedas em Lisboa acionou todos os alarmes socialistas, pois, a vitória do social-democrata na capital poderá ter sido o ponto de viragem e a abertura de um novo ciclo político, onde o centro-direita e o PPD/PSD terão uma palavra a dizer.

 

Sónia Leal Martins

Politóloga

 

 

 

 

 

 

 

Ler Mais


×

Pesquise no i

×