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Boris Hessen, Einstein e Lenine

Boris Hessen, Einstein e Lenine

Carlos Fiolhais 21/10/2021 14:39

Suspeito de crimes de opinião, de nada valeu a Hessen ser membro do Partido Comunista, para além de cientista e inteletual proeminente. Acabou por ser uma das primeiras vítimas da Grande Purga de Estaline, num prenúncio da forma como o regime trataria as vozes incómodas.

O nome do físico soviético Boris Hessen (1893-1936) pouco dirá ao público em geral. Notabilizou-se como filósofo e historiador de ciência, tendo alimentado nos anos 1920 e 1930 uma polémica filosófica no quadro da ideologia comunista que reinava na antiga União Soviética. Os dois lados eram comunistas e, portanto, adeptos do materialismo dialéctico de Marx e Engels. Mas uns punham mais o foco no “materialismo”, sendo por isso mecanicistas, e outros no “dialético”. Os primeiros estavam mentalmente formatados pela física clássica, ao passo que os segundos, embora com a mesma formação, estavam abertos às teorias então emergentes da física moderna, como a teoria da relatividade de Albert Einstein e a teoria quântica de Werner Heisenberg e Erwin Schrödinger. Os primeiros achavam essas teorias produtos da ciência burguesa ocidental, arredada dos problemas, interesses e preocupações dos operários camponeses.  

Quando Vladimir Lenine morreu em 1924, ficou vago o lugar de Presidente do Conselho do Comissariado do Povo da União Soviética que ele ocupava desde 1922, ano do fim da Guerra Civil russa e da criação da União Soviética, que duraria até 1991. O corpo de Lenine (sem o cérebro, que foi removido), ainda hoje está exposto na Praça Vermelha de Moscovo. Josef Estaline ficou à frente do Partido Comunista da União Soviética até à sua morte, em 1953, tornando-se na prática o líder do país, embora só a partir de 1941 (em plena guerra mundial) se tenha tornado presidente do Conselho de Ministros. Estaline foi o responsável da Grande Purga, ou Grande Terror, perpetrada entre 1936 e 1938, que causou mais de um milhão de mortos. Entre elas estavam membros do Partido Comunista, funcionários do governo e até altas patentes do Exército Vermelho. Uma das primeiras vítimas foi precisamente Hessen, passado pelas armas em 20 de dezembro de 1936, ao fim de quatro meses de prisão e após um julgamento sumário à porta fechada. De nada lhe valeu ser membro do Partido Comunista, para além de cientista e inteletual proeminente.

Todos os escritos dele foram banidos, como era costume nessa época. Caiu sobre ele um silêncio pesado, que só cessou em 1956, três anos após a morte de Estaline, quando o novo secretário-geral do Partido, Nikita Khrushchev, empreendeu uma reabilitação de algumas das vítimas. O fim trágico de Hessen foi partilhado por muitos outros cientistas: os que não experimentaram a morte instantânea foram condenados à morte lenta em campos de trabalho na Sibéria. Foi o caso muito conhecido do geneticista Nikolai Vavilov, uma das maiores autoridades soviéticas em botânica, que faleceu num desses campos, enquanto o charlatão Trofim Lysenko ocupava o seu lugar na Academia Lenine das Ciências Agrícolas (ver, por exemplo, Simon Ings, Estaline e os Cientistas, Temas e Debates, 2017). Só contava a obediência cega ao Grande Líder. Por ironia do destino, Lavrenti Beria, o maior executor da Grande Purga como Comissário do Povo para o Interior, foi preso e executado pouco depois de Estaline ter morrido.

Acaba de sair na editora Parsifal o livro Einstein e Lenine em Moscovo com o subtítulo Polémicas filosóficas da ciência soviética, que reúne um conjunto de nove textos de Hessen, escritos entre 1927 e 1931. A seleção de textos, da tradução do russo e de uma extensa (42 páginas) e bem fundamentada introdução, são do físico Rui Borges (n. 1973), que foi docente e investigador na Irlanda, Reino Unido, Brasil e Portugal. 

Borges é o autor de um outro livro sobre o mesmo personagem: Boris Hessen. O Cientista Subversivo (Ela por Ela, 2015), que contém uma tradução do texto mais famoso de Hessen, que escreveu em 1931 para o 2.º Congresso Internacional de História da Ciência e da Tecnologia em Londres, “As raízes sociais e económicas dos Principia de Newton”. Não só é uma das primeiras análises marxistas da obra principal de Newton, como é um marco da história da ciência, uma vez que inaugurou uma visão dita externalista dessa história, que enfatiza o contexto social, económico e político da criação científica. Um notável grupo de inteletuais britânicos foi marcado por esse trabalho: o historiador de ciência John Bernal, o biólogo John Haldane, o sinólogo Joseph Needham e o historiador Eric Hobsbawm. O artigo de Hessen está, aliás, na base de uma certa corrente da atual sociologia das ciências. A delegação soviética enviada para  Londres, chefiada por Nikolai Bukharin (que foi líder de uma corrente comunista dita de direita em contraste com a corrente dita de esquerda de Leon Trotski) incluía um controleiro, que vigiava Hessen, já na altura considerado suspeito de crimes de opinião. 

Hessen provém de uma família judaica (tal como Lenine, um facto que foi ocultado durante muito tempo) de Kropyvnytsky, hoje na Ucrânia. Estudou Física, primeiro na Universidade de Edimburgo, na Escócia, em 1913-1914, e depois na Universidade de Petrogrado (hoje São Petersburgo). Juntou-se ao Exército Vermelho na Guerra Civil, graduando-se em 1929 no Instituto do Professorado Vermelho em Moscovo. Em 1931 passou a ser catedrático de Física na Universidade Estatal de Moscovo e em 1933 foi eleito membro da Academia de Ciências da Rússia. Entre 1934 e 1936 foi vice-director do Instituto de Física de Moscovo, dirigido por Serguei Vavilov, irmão do famoso geneticista. A morte aos 43 anos impediu-o de continuar uma promissora carreira. A física soviética brilhou pontualmente no século XX por exemplo com a atribuição do Prémio Nobel em 1962 a Lev Landau, um cientista que considerava Estaline um ditador da pior espécie, mas que teve o cuidado de não exteriorizar a sua posição, trabalhando ordeiramente dentro do sistema. Ficou lendária a sua luta contra a morte após um acidente de automóvel, pouco antes do Nobel. 

O livro agora publicado inclui nove artigos, escritos por vezes em co-autoria, saídos todos, exceto o último, na revista Sob a Bandeira do Marxismo, um órgão comunista, embora não oficial, de discussão filosófica. No primeiro, “O 5.º Congresso dos Físicos Russos”, Hessen critica o seu colega Arkadi Timiariazev por ele ter contestado Einstein, um assunto que aprofunda no segundo artigo, “A relação do camarada Timiariazev com a Física Moderna” (é curioso que também na Alemanha tenha sido perseguido, acusado, não de idealismo, mas de fazer “ciência judaica”). O terceiro é “Recensão a Dialéctica na Natureza”, uma obra coletiva dos mecanicistas, e o quarto “Prefácio aos artigos de Einstein e J. J. Thomson (no 200.º aniversário da morte de Isaac Newton)” discute as posições sobre Newton de dois dos maiores sábios da época. O quinto é uma nota sobre Marian Smoluchowski, o físico polaco que descreveu, pouco depois de Einstein mas de forma independente, o movimento browniano ou aleatório de partículas. O sexto, mais longo, “Materialismo mecanicista e Física Moderna” aborda a objetividade do acaso. O sétimo, de teor marcadamente político, “As raízes filosóficas do oportunismo de direita”, confronta os opositores ideológicos. O oitavo é um abaixo-assinado de resposta a um artigo do Pravda: “A luta em duas frentes da filosofia”. Por último, “Éter” é uma entrada da Grande Enciclopédia Soviética sobre o meio hipotético que Einstein aboliu em 1905. Este escrito, um pouco confuso, provocou a chacota de jovens físicos como Landau e George Gamow. Este último haveria de se exilar nos Estados Unidos, onde publicou várias obras de divulgação científica, avultando O Senhor Tompkins no País das Maravilhas, que Rómulo de Carvalho traduziu para a coleção Cosmos (1942), de Bento de Jesus Caraça.

O livro tem Lenine no título. É bem conhecido que, no VIII Congresso dos Sovietes de Toda a Rússia, em 1920, foi apregoada a tese leninista: “O comunismo é o poder soviético mais a eletrificação de todo o país”. O Partido Comunista sempre se interessou pelas aplicações da ciência que traduziam progressos materiais. Mas o interesse de Lenine pela física é mais fundamental. Ele é autor do livro, de 1909, Materialismo e Empiriocriticismo (edição portuguesa: Avante, 1982), escrito no exílio em Genebra e Londres com uma agenda política pois visava atacar as ideias do camarada Alexander Bogdanov, que foi expulso do comité central. Essa obra, considerada uma referência do materialismo dialético, foi de leitura obrigatória em toda a União Soviética e países satélites. Comprei na República Democrática Alemã manuais de física que tinham longos prolegómenos sobre o marxismo-leninismo, citando-o, antes de entrarem nas matérias científicas. Para Lenine existia um mundo real e objetivo, que a nossa mente procurava fixar, opondo-se por isso às teses idealistas, segundo as quais os objetos só existem na nossa mente. Ser apodado de idealista era um perigoso insulto, pois Lenine era considerado a autoridade suprema. O culto dos seus escritos e da sua personalidade foi levado ao extremo. Estaline, por exemplo, fez tudo para aparecer como único e fiel herdeiro de Lenine. A referida obra de Lenine continua a ser estudada: foi o tema da tese de doutoramento de Ana Henriques Pato, dirigente comunista portuguesa: Materialismo e Idealismo na Física do Final do Século XIX e Início do Século XX… (Nota de Rodapé, 2015).

O livro organizado por Rui Borges, com bibliografia, um conjunto de fotografias e índice onomástico, interessa não apenas aos cientistas, historiadores e filósofos, mas também a todos os curiosos pelo debate de ideias que ocorreu no início do que Hobsbawm chamou a “era dos extremos”. 

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