30/11/21
 
 
José Cabrita Saraiva 21/10/2021
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@ionline.pt

Portugal está a ficar ingovernável?

Se bem me lembro, João Leão prometeu mais dinheiro para todos. E, ainda assim, todos se queixam do que lhes calhou em sorte e exigem uma fatia maior do bolo do Orçamento. 

Ouvindo os noticiários dia após dia, ficamos com a impressão cada vez mais forte de que o país está a ficar ingovernável. Depois daqueles anos em que as estruturas sindicais afetas ao PCP estiveram pacificadas, vivemos tempos de grande volatilidade.

O setor da Saúde convocou uma greve para 23, 24 e 25 de novembro (chamou à proposta de Orçamento “um logro”). Os professores também não estão contentes (Mário Nogueira ameaçou ontem com uma paralisação). Os funcionários públicos confirmaram uma greve da frente comum para 12 de novembro. Quanto aos trabalhadores da Cultura, só não fazem porque ninguém ia dar por isso...

Se bem me lembro, João Leão prometeu mais dinheiro para todos. E, ainda assim, todos se queixam do que lhes calhou em sorte e exigem uma fatia maior do bolo do Orçamento. Mas não sei se é o Orçamento em si que é penalizador para estas corporações, se são as próprias circunstâncias políticas que encorajam as exigências e os protestos. Apesar da vitória clara do PS nas eleições autárquicas, os resultados deixaram no ar uma suspeita de fragilidade do Governo. Algo subtil, mas suficiente para se intuir uma brecha que pode ser explorada.

O problema é que, para o Governo dar resposta às revindicações dos médicos, dos enfermeiros, dos professores, dos funcionários públicos, etc., só pode seguir um de dois caminhos: o aumento do défice (ou seja, da dívida, que já é gigantesca); ou o aumento da carga fiscal, que já está em níveis quase incomportáveis.

As corporações têm formas muito acutilantes de fazer ouvir as suas exigências e ameaças. E é o que tem acontecido até aqui: o Governo negoceia benesses caso a caso, para satisfazer este ou aquele grupo. Talvez isso se repita e este Orçamento venha a ser aprovado, apesar das dúvidas que se adensam. Mas desconfio que os interesses individuais das corporações ou de pequenos grupos não correspondem ao interesse nacional. Nem sequer ao interesse da maioria, que não ameaça com greves e paga obedientemente os seus impostos.


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