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Aproxima-se um inverno escuro, com preços da energia a disparar

Aproxima-se um inverno escuro, com preços da energia a disparar

AFP João Campos Rodrigues 20/10/2021 13:40

Um pouco por todo o globo sente-se um “energy crunch”, com escassez de energia e combustível, subida do seu preço e inflação.

Não é só em Portugal que toda a gente fala do aumento do preço dos combustíveis, debate que medidas é que o Governo tomará para contrariar essa tendência, ou exige saber o que lhes reserva o futuro. Um pouco por toda a Europa – mas também em países como os Estados Unidos, Reino Unido, Brasil ou China – nota-se um aumento dos preços do combustível e energia, chegando a haver escassez. E o inverno está prestes a chegar, com isso vem um pico do consumo energético, para coisas como aquecimento – há grandes dúvidas que a atual produção chegue sequer para alimentar a recuperação pós-covid, quanto mais para conseguir acumular reservas para o inverno.

Esta é uma crise que não vem só da pandemia, é uma tendência que vem de trás, argumentou Jeff Curri, diretor de investigação sobre commodities no Goldman Sachs Group. “Petróleo, carvão, metais, mineração, é só escolher – a velha economia sofre de um significativo subinvestimento”, explicou Curri à Bloomberg. “Chamamos-lhe a vingança da velha economia. Fracas receitas fizeram capital ser redireccionado para longe da velha economia para a nova economia”, salientou.

Talvez não haja melhor exemplo disso que o caso da China, que enfrenta uma escassez de carvão para cumprir as metas contra as alterações climáticas a que Pequim se propôs. A questão é que os preços da energia chineses são regulados, em função do preço do carvão, mas sem poder exceder um dado limite tabelado – daí que algumas centrais termoelétricas estejam a operar com prejuízo, começando a diminuir a sua produção, num ciclo vicioso a que chamam “energy crunch”.

A questão é que esse tipo de escassez deixou países praticamente entrar em leilão uns contra os outros, para comprar combustível e energia, enquanto exportadores como a Rússia começam a manter uma fatia maior da produção dentro das suas fronteiras.

Já no caso europeu, a transição verde tem avançado a um ritmo galopante, com energias renováveis a ultrapassarem pela primeira vez a os combustíveis fósseis como principal fonte de energia da UE em 2020 – as renováveis geraram 38% da eletricidade, as fósseis 37%, mostram dados oficiais.

Contudo, não foi uma viragem rápida o suficiente para impedir um energy crunch, alertam analistas. E não há grande esperança que Bruxelas e os países membros da UE possam fazer muito para conter os preços, dependendo de energia vinda de fora, num mercado liberalizado – as hipóteses em cima da mesa são sobretudo subsídios ou cortes de impostos, enquanto o mercado continua em subida.

No que toca a Portugal, António Costa deixou bem claro que o Governo não vai “financiar os combustíveis fósseis”. Respondendo a questões à margem da cerimónia de honras de Panteão Nacional de Aristides de Sousa Mendes, o primeiro-ministro prometeu “devolver aos portugueses tudo aquilo que o Estado está a receber a mais em IVA através do ISP”, ou seja, o Imposto sobre os Produtos Petrolíferos e Energéticos.

Abundância e escassez “Os americanos já estiveram aqui antes – nos anos 1970, quando choques petrolíferos e uma inflação galopante definia a economia”, lia-se esta terça-feira na Forbes. Referia-se às sucessivas crises petrolíferas, em 1973 e 1979. Primeiro quando o mundo árabe cortou o fluxo de petróleo aos países ocidentais, incluindo Portugal, como vingança pelo apoio a Israel durante a guerra do Yom Kippur, levando o preço do barril quase a triplicar. Depois, com a revolução islâmica no Irão, seguida da invasão do Irão pelo Iraque, causando uma quebra brutal na produção petrolífera iraniana.

“Ainda que haja diferenças cruciais entre a economia americana de então e de agora, os números da inflação falam por si mesmos”, continuava a revista. “Dirigentes federais já não assumem cegamente que os aumentos dos preços são transitórios e irão reverter quando os problemas nas cadeias de abastecimento relacionados com a covid-19 forem resolvidos”.

As crises dos petrolíferas dos anos 1970 mudaram completamente a visão sobre as forças invisíveis que movem o nosso dia-a-dia, que na altura eram tão baratas que mal se pensava no assunto. A mudança de vida, entre filas enormes e gasolineiras vazias, teve de ser brutal. Não é de espantar que nenhum dos Presidentes em funções durante esses anos – fosse o republicano Gerald Ford ou o democrata Jimmy Carter – tenha conseguido ser reeleito.

“As casas estão mais frias no inverno e mais quentes no verão. Muitas famílias cortaram nas viagens de lazer. Enfiam-se em veículos compactos e conduzem a 55 milhas por hora [quase 90km/hora], ou algo do género. Como os pioneiros, imensas pessoas colhem a sua própria comida no seu quintal”, recordou o New York Times, dez anos após o primeiro choque do petróleo.

“A subida nos custos da energia também teve um peso na psique nacional”, salientava a revista nova-iorquina. “Um país de abundancia teve de se adaptar a uma era de limites”.

 

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