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António Franco Alexandre. A forma gravada a lume

António Franco Alexandre. A forma gravada a lume

Diogo Vaz Pinto 20/10/2021 11:39

A reunião da obra poética daquele que soube impor-se entre nós como il miglior fabbro, permite-nos apreciar todo o rigor com que foi transformando o verso numa emboscada maravilhosa, essa que continua a surpreender-nos a cada releitura.

 

Pierre Menard, o personagem de Borges investido daquele seu célebre e delirante propósito, tem às tantas uma breve e concludente reflexão sobre o que poderá ser fundamental neste exercício de expansão da memória e do imaginário que é submergir a biografia nos livros, falando daquilo que nos surge como inevitável. O resto seria precisamente a literatura, a tal de que às vezes é preciso escapar. “Não posso imaginar o universo sem a interjeição de Poe: Ah, bear in mind this garden was enchanted!”

Essa lembrança é decisiva, pois tem de haver uma centelha, uma impressão capaz de nos desencaminhar, de nos fazer escavar no real em busca de um inusitado minério que faça estremecer toda a sua estrutura. É certo que, sem um desencantamento do mundo, não nos forçaríamos a essa abertura, a este jogo à margem da natureza e que, por meio de artifícios, nos leva a participar em explorações num nível tal de comprometimento que desperta em nós esse prazer extremo de cair, o qual nos é impossível satisfazer nas condições normais da vida.

A literatura é um refúgio e é, ao mesmo tempo, uma saída ou um modo de ir à volta por entre a realidade, firmando os sentidos em qualquer noção obstinada, algo que instigue em nós o caçador encantado. Mas se há na literatura um efeito de desvinculação do mundo, nela está também inscrita essa condenação que, por fim, nos encaminha para um silêncio para lá de qualquer hipótese de triunfo, uma desilusão irresolúvel diante do que é possível. Como nos diz Borges num ensaio de 1930 – “A supersticiosa ética do leitor”: “A literatura é uma arte que sabe profetizar aquele tempo em que terá já emudecido, e encarniçar-se com a sua própria virtude e enamorar-se da sua dissolução e cortejar o seu fim.”

Não havendo invenção sem uma ruptura, o criador começa por inventar o seu silêncio antes de poder virar costas seja ao que for. E este tempo de emudecimento que a literatura nutre pode levar-nos ao outro lado da vida, pois nasce de um convívio que começa com a leitura silenciosa, nessa forma de liturgia que tem subsistido ao longo de séculos por meio de um fino enredo de gestos e palavras, numa aura de destruição controlada que passa pelo uso de certas matérias e não de outras. Neste encontro com o imaginário, alguma coisa vai ter de ceder na nossa relação com a realidade. Mas guia-nos essa percepção de que em tempos este jardim foi encantado.

Assim, as grandes personagens literárias são de algum modo os derrotados, essas presenças cavalheirescas que abominam os maus modos do cepticismo, que prosseguem a sua demanda investidos de uma crença fascinante e trágica, essa do ser aberto à morte, ao suplício, à alegria, esse ser que, sem reservas, consegue conter em si todos os extremos, ser imensamente doloroso e feliz, e que nos aparece já nessa sua luz velada, uma luz que, segundo Bataille, é divina.

Hamlet e Dom Quixote são figuras centrais na literatura por serem dos primeiros a escutar as vozes desse velho mundo numa época que se tornou surda para o transcendente.

O génio dos grandes escritores faz deles detectives em busca de vestígios dessa zona encantada, e, nas melhores páginas que nos têm chegado, damos por eles com o seu ar de intriga, agarrados às suas especulações fantasistas, colhendo amostras e realizando perícias enquanto mergulham no abismo. “Terá sido então por desespero que pereceram os homens apaixonados pelo seu próprio canto? Por um desespero muito próximo do arrebatamento”, questiona Blanchot.

À falta de melhor expressão, chamamos loucos a esses que se sacrificam no altar da razão, abrindo aquela margem que torna possível o género de cogitações que funcionam como o vento propício a estas navegações felizes e infelizes, exultantes e prodigiosas, destrambelhadas também, e tormentosas. Mas tudo começa aí, nesse ponto onde “parece suspender-se o som do mundo”... A isso, pelo menos, deveria aspirar a grande literatura. E sem isso não há poesia.

Hoje, não se pede tanto. É até considerada uma deselegância contar com algo de espantoso da parte de quem tão afanosamente se dedica à literatura, muitas vezes com um absurdo desdém pelas expedições que arrancaram esse território às limitadas circunscrições a que, hoje, de novo, nos atemos. Quase não se lhes pede nada, e preferem que assim seja. Mas depois, além da sensação de descolado em tudo isto, damo-nos conta de como a narrativa ou a lírica contemporânea se entretêm quase exclusivamente com problemas técnicos. E as melhores coisas que se lêem dão-nos a impressão de estarmos perante "um conjunto de órgãos desmembrados que tivessem sido cosidos de forma tosca" (Mark Fisher).

O poema anda longe de provocar aquela mudez das bocas diante de um corpo perfeito. As melhores coisas que lemos ou ouvimos dizer apenas nos afundam mais de um dos lados da equação – o lado desolador. Deixam-nos perante a constatação de que “o infinito está sem forças”, “a rosa já nada espera da sua época”, e, pior que isso, de que “os amantes já não assombram/ os lugares suscitados/ pelo seu perfume” (François Jacqmin). Ninguém parece já lembrar-se de que em tempos este jardim foi encantado. Ninguém, a não ser um ou outro, e esses preferirão por estes dias esconder a sua demanda longe dos modos afectados dos que tão afanosamente dizem que escrevem.

O que ainda resta como crença é algo como uma “modéstia predestinada, o desejo de não pretender nada e de não levar a nada”, esses poucos que, “à custa de descrição e de alegre nulidade, procuram esquecer aquilo que outros degradam chamando-lhe o essencial” (Blanchot). “Ser abelha, dar mel, eis um projecto/ sensato, e à medida de um insecto;/ mas pode um aracnídeo inadaptado/ mascarar-se de humano, descer da teia ao palco,/ cantar, ao clássico balcão, a serenata?”, interroga António Franco Alexandre.

Face àquilo que, hoje, temos diante de nós, pode pôr-se a hipótese de termos sido trancados do lado menor da existência, só nos restando a perspectiva do frio, olhares que não conhecem a sua ordem, trocados entre fantasmas. Mas se já não nos resta a esperança de voltar de novo, nem conhecer a glória frágil da hora concreta, ficamos a olhar para um lugar que se perde.

Podíamos exigir ao menos que a linguagem cobrisse uma vez mais impressões informes, impulsos que esfolam a pele de um momento transitório para, soltando-se dela, acederem a algo de menos instante. Trocar as tantas imagens e as voltas todas nesse registo embaraçado por uma verdadeira volta de sangue, por um desejo honesto de expor “a carne roubada, esconsa, suada”; levar a frase além do ponto onde o mundo se fecha numa razão cínica para não lhe serem assacadas responsabilidades pela sua falta de ânimo ou coragem para retomar a aventura que dá gosto a tudo isto, essa verdadeira vida que nos transtorna e exige de nós o mais alto preço: “Porque eu não espero voltar/ Desejando os dotes deste homem e as capacidades daquele/ Já não me esforço por esforçar-me rumo a tais coisas/ (Porque estenderia a velha águia as suas asas?)/ Porque lamentaria eu/ O poder extinto do costumado reino? (...) E que o juízo não seja demasiado severo connosco/ Porque estas asas já não são asas para voar/ Mas meras pás para bater o ar/ O ar que agora é completamente rarefeito e seco”, diz T.S. Eliot (aqui na tradução de Rui Knopfli), desejando a tranquilidade e justificando-se com um rasgo e um brilho final a si mesmo e a todos os que, chegando tarde, já não se sentem à altura das assombrosas liturgias do passado.

No fundo, Eliot não faz mais do que enamorar-se da sua dissolução e cortejar o seu fim. Mas depois dele, vêm todos esses que se sentem já defendidos nesses resmungos de renúncia, incapazes de trazer algo mais, algo de novo. Mas o verso, para que o seja, tem de nascer com aquele impulso capaz de nos iludir quanto à hipótese de um recomeço, de restabelecer o antigo murmúrio que sirva de ligação entre as eras, aquele ritmo contínuo que nos mostre como “a boca que beija é a fonte do mito”. Assim, entre outras noções, o poeta (no caso, Franco Alexandre) lá nos vem dizer que pior do que morrer é a morte do verso, e que pior do que a morte é o lume desfeito.

A esta obra, sendo das mais escrupulosas e vigiadas, e por isso pouco prolixa, é difícil considerá-la como um todo face ao seu peso imensamente variável, como o de um corpo ao longo de uma vida, amiúde também tocado, atravessado por outros. Trata-se de um trabalho que nunca rejeitou qualquer dos desafios formais que os poetas se foram impondo, e que apura o verso nesse encadeamento espantoso, entre rimas e aliterações que operam como ecos, ritmos que são jogos de reflexos, um sabor que tanto quanto seduz a inteligência se dirige já a esses recessos que organizam sensações e memórias. É uma poesia para se ler um bocado, se ser siderado por esses detalhes que ali ficam rodando, como se um sopro os forçasse a um regime gravitacional, capaz de atender a pulsões mais vastas, a uma consonância com a música das esferas. “enquanto escutas falas vive a língua/ doce desejo de água o corpo aberto/ caído sobre a lama// em dura frágil chama recortado/ imóvel em retrato/ amealhado// enquanto escutas ar em ar respira/ o sopro cobre as mãos/ a cor da terra// o passo rompe a luz a jovem face/ pequena sobre as folhas”.

Aqui, a tradição roda sobre si mesma, nasce e alimenta-se de si própria, o eco é posto de novo a funcionar, e vemo-lo cumprir-se de novo e emergir como um organismo vivo e mutante. Diferente de Eliot, mas em tantos aspectos seu semelhante, também Franco Alexandre aspira a uma mente diáfana, a ser canal de transmissão. Assume também aquelas presenças desfocadas, invoca sem espalhafato os antigos, integrando-se nessa conversa inacabada com as sombras do passado. Sabe ser mais vivo nessa irresolução voluptuosa, tanto mais carnal quanto não abdica de um fulgor transcendente, de um desejo que se realiza de forma dolorosa e feliz. Afinal, “a morte é o que há de mais terrível, e manter a obra da morte é o que exige maior força”, diz-nos Hegel.

Ora, este poeta sabe que uma vida mais profunda não pode arrancar as suas raízes sem deixar de as sentir ainda mais, e que é entre os mortos que lhe cumpre descobrir o seu alento, esse fôlego que só pode distinguir-se reconhecendo que nenhum autor possui a totalidade do seu próprio significado. Há, por isso, nesta obra essas tantas voltas meio desencaminhadas de um vigilante nocturno. Na sua relação com os que se foram, para conferir à morte todo o seu terrífico sentido, Franco Alexandre mantém vivos os mortos.

Esse regime de tensões e disputas que atravessa esta obra, exprime uma disposição de acolher um destino ambíguo e até dilacerado, assumindo uma profusão de conotações, associações, usos anteriores, valores pictóricos e sugestões tonais, num convívio que se estende dos clássicos greco-latinos, com ênfase para Homero e Ovídio, passando pelo Antigo Testamento, e atendendo às ramificações algo obscuras dentro desse regime incomensurável de interpretação ou decifração dos textos que anima a cultura judaica. Aí terá aprendido a sua contenção contra-instintiva, trabalhando a capacidade da sintaxe de atestar que existe ali um além. Foi fazendo, assim, da poesia essa arte ensombrada pela música que vai deixando para trás, que é a marca de um desejo antigo de vencer a morte, e soube também dominar aquilo a que a crítica chamou “uma respiração neo-quinhentista”, atendendo ao diálogo que foi mantendo com Camões. Sem uma orientação de trás para a frente, Franco Alexandre buscou sempre o enlevo deixando-se instigar pelas explorações mais ousadas da contemporaneidade, fosse na poesia portuguesa já do século XX, fosse nos desenvolvimentos do que se fazia pelo mundo, tendo vivido largos anos em França e nos EUA. Mas o grande virtuosismo desta obra está na relação entre um erotismo das formas e essa intuição sensível que está atenta a tudo o que vibre numa frequência mais larga, encostando o rosto nas superfícies em busca dessas declarações e movimentos primordiais do espírito humano que anunciam uma ordem de existência mais próxima do mistério e da criação do que a linguagem. Assim, à gramática subjazem essas fragmentações, uma sensação daquilo a que a actual cosmologia chama “ruídos de fundo”, “radiações de fundo” da primeira irrupção do vazio.

Isto não significa ceder ao solene e pomposo regime que serve mais para cativar os fazedores de teses, sempre à cata desses acenos gelados, dessas composições petrificadas, que tornam mais fácil a datação por carbono e o recurso a práticas bastante inúteis de exumação de matéria morta. “Preferia ir ao colombo, comprar roupas, ver as montras,/ enrolar-me no cheiro dos corpos que se trocam/ na esquina municipal/ esquecer-me por dentro/ da carne e do modo como se transforma/ em luz. Ou talvez andar de moto/ na perigosa margem litoral,/ encontrar-me de noite com a terra/ e ter o nome a sério no diário/ por um crime incomum, uma invenção moderna; tudo/ menos o jogo vago das palavras/ cruzadas, com gavetas de ficheiros;/ a alma interrogada, o corpo aberto/ para medir os vírus e as plaquetas,/ e a cabeça torcida para a frente, pra caber/ e as costas inclinadas que escorregam/ no rebordo da gaiola.”

Franco Alexandre aprendeu acima de tudo com a tradição, essa mais vasta que só se pode ir digerindo com muito esforço, ao longo de toda uma vida, esse poder de decepção que vai a par com o gosto de seduzir. Pois é necessário sempre levantar novos obstáculos, respeitar uma distância para que a atracção se perpetue, sem que as linhas se enredem, acabando por cortar o caminho uma da outra. Assim, não é a nobreza dos materiais o que produz um verdadeiro fascínio, mas essa capacidade de dar testemunho da pobreza que somos também. E muitas vezes há um ganho maior no ensejo de erguer uma obra a partir desses lamentáveis materiais que os dias nos trazem. Como vincou Alejandro Rossi, o exercício literário é nobre precisamente por efeito desse resgate, dessa capacidade de fazer lume a partir de matérias que chegam a ser trivialíssimas: “aparências, olhares, formas de vestir, a comédia, a espuma da vida”. Tudo isso está presente e resplende nesta obra. “Ah também tu és vaidoso, meu querido./ Também tu queres vestir-te/ de rimas e kalamanknes leibserdak/ e ver o manto rasgado/ numa cave transcendente./ De terra em terra foste deixando as asas./ Não mintas mais: só conheceste imagens.”

Estes versos surgem já nesse longo poema em fragmentos que fecha como uma construção fresca aquilo que é a segunda reunião da obra do poeta, mais de vinte anos depois da primeira, e que preserva o título dessa (um simples “Poemas”), publicada em 1996. Antes dessa estrofe, uma outra diz-nos: “Tantas canções e versos pelo mundo fora/ e só um, em querendo, será teu./ Querendo tu e ele, como corpos que/ na secura dos corpos se saciam/ terá o mundo alheio uma outra face/ e outro novo passado nos será futuro.”

Eis, assim, como a tradição pode ser um perfume que nos guia ao nosso próprio futuro ou destino. Um perfume que não deve limitar mas tão-só dar o tom, até para dele, com mais propriedade, podermos divergir, abrindo margem para um conflito verdadeiramente criativo. Pois só se pode gozar de uma aura de destruição se esta for exercida de forma controlada. No fim, de qualquer modo, também a morte nos terá, e, com “o trabalho dos dias terminado/ deixados os trenós na névoa branca/ repousa a criação connosco dentro”. Mas no fim de “Carrocel”, este ciclo inédito que, por ora, encerra a obra, o poeta faz questão de deixar esta advertência: “É certo que aceleram as galáxias/ no fim do universo: o espaço cresce;/ e em cada coisa flui, sempre diverso, o tempo./ Não te distraias: dessa matéria és feito;/ és quem demora.”

Hoje, quando esta arte da linguagem parece ter perdido de todo a sua influência e magnetismo, atravancada da sucata sentimental e da tagarelice que tomou conta de tudo, juntamente com os programas de assistência social e marchas de orgulho disto e daquilo, esta é uma poesia que não cede no rigor e na precisão, que procede de uma amantíssima solidão profunda, desse eclodir da expressão à superfície de uma vasta e intrincada rede de silêncios, de lugares visitados, encontros candentes, coisas lidas (“desenharei uma paisagem, com a autoridade/ apenas das coisas vistas;// pedras, arestas, maravilhosos lábios anteriores às palavras,/ corpos de arte sem voz, estremecendo, livres”). Toda essa urdidura inquietante que fica por baixo, deixando-se pressentir, e que é justamente o vigor desta obra. Uma função da sua paciência íntima, entretecendo entre o que diz e o que deixa como falha a sua música secreta, o veneno apaziguador das imagens, estabelecendo um pacto cardíaco com o leitor.

Depois, há toda a autoridade das vivências à queima-roupa, mesmo dessas orientações que escapam à musa, apreciando esta “glória, poder e uniforme”. E este é o momento em que o poeta deserta, abandona sempre aquilo que dele se esperava, perseguindo a vida, que, “afinal, anda lá fora, antes da folha/ ter passado a prensa”. Pois, no fim, só há nisto um ganho a partir do que se consegue trazer de fora, na sua vibração irada, surpreendida de ser arrastada assim, por um golpe tão simples, tão discreto e imperdoável: “vou ficando invisível, aos pedaços,/ comendo laranjas no escuro./ o teu corpo é dos que nunca lêem livros,/ sabem de estradas e de pássaros, pouco mais;/ a tua morada tem no telhado as frinchas/ da lei, onde se vê o céu; e eu,/ absorto de silêncio e de chuvisco,/ ó tosco cantador!,// dissolvo-me na sombra da paisagem,/ separo-me de nós, de mim, serei só quase/ a chama no carvão que fica ardendo/ noite fora, noite fora./ acordaremos, já sei, transparentes e sábios,/ do outro lado da criação do mundo;/ uma mão presa à luz, outra nas trevas,/ um só tronco de chamas, uma asa.”

Este enredo sedutor é servido ao nível da pulsação, perturbando levemente os sentidos, influindo por meio de um subtil encadeamento sinestésico, em que a nossa percepção se agudiza sem se saber dominada exactamente pelo quê. É o tal perfume que os espíritos deixam uns nos outros. Esse modo de criar um vínculo entre o fio das sílabas e uma razão mais vasta, que liga o som à matéria, este grão de pó que se diz ao esplendor que governa as galáxias. "Talvez te enroles no lençol, ou seja/ tua esta voz que canta em língua estranha,/ ou por galáxias amplas de aventura/ noutro quarto quebrado me procures/ para existires em mim uma vez mais."

E sim, poderíamos averiguar dos antecedentes criminais ou mitológicos desta obra, como dos seus tantos envios mais ou menos cifrados, mas o que é único nela é esse gozo delituoso de explorar diversos códigos, na montagem, no recurso ao fragmento, estendendo um campo de sugestões difuso, que faz do poema um registo aberto, selvagem, mais doloroso nuns momentos, noutros exuberante e cheio de perversidade. E se, contrariamente ao que vão afirmando os promotores dos chás dançantes da poesia, entre finais do século passado e as primeiras duas décadas deste a abundância da poesia tem sido o efeito de um regime de canto coral, sendo fácil reconhecer grandes uniformidades estilísticas, impondo-se “uma espécie de rumor colectivo, e poucas grandes obras singulares”, como notou certa vez Franco Alexandre, a sua foi uma poesia que sempre se furtou a esse retraimento de uma arte que se enchia de pudores, se enclausurava virando-se para um rosário de banalidades e maneirismos langorosos, numa auto-punição que fazia da poesia outro dos modos da abstinência que sempre se exulta como a grande virtude moral e ética.

“Depois, há uma massa imensa de versos que tendem a utilizar um pequeno código do ‘poético’ e a produzir o enjoo típico dos países-de-poetas. Depois, há a crítica silenciosa, quando não aclamando o torto e o direito”, vincava ainda o poeta numa entrevista que deu ao seu editor, Manuel Hermínio Monteiro, para um dos números da “Phala”. E nos versos prosseguia este exame: “Ou palavras com ar de parafusos,/ metálicas, brilhantes, úteis perfeitamente/ indispensáveis às comunidades e seus cinco mil intérpretes./ E ao fim da tarde todos se deitam nos tapetes húmidos de pó eterno/ e oram ao deus da morte enquanto passam as notícias.”

E foi disto que António Franco Alexandre se foi libertando, de uma morte que se antecipava, e dessa cobarde, medíocre e calma fruição que ia restando como consolo, com os dos versos a aperfeiçoarem a coreografia do luto e os sinais de pertença a uma ordem moribunda. Já este poeta, perfeitamente alheado, parecia vingar-se alegremente, furtando-se a essa placidez. E enquanto a morte punha em cena o seu desolado cerimonial, deu-lhe para ir medir-se contra o fulgor que, quanto mais mortal, mais se fere dentro dessa ânsia de perpetuação: “Fica dentro de mim, como se fosse/ eterno o movimento do teu corpo,/ e na carne rasgada ainda pudesse/ a noite escura iluminar-te o rosto./ No teu suor é que adivinho o rastro/ das palavras de amor que não disseste,/ e no teu dorso nu escrevo o verso/ em pura solidão acontecido./ Transformo-me nas coisas que tocaste,/ crescem-me seios com que te alimente/ o coração demente e mal fingido;/ depois serei a forma que deixaste/ gravada a lume com sabor a cio/ na carícia de um gesto fugidio.”

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