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19 de Outubro de 1972. A loira calipígia do estranho crime da Mouraria

19 de Outubro de 1972. A loira calipígia do estranho crime da Mouraria

Afonso De Melo 19/10/2021 19:50

A dona da casa de hóspedes da Rua das Olarias foi morta com um tiro na cabeça. Um dos seus clientes, funcionário de uma tesouraria pública, estava particularmente indignado com os boatos emergentes: “Dormia num divã no quarto dela, mas estou magoado por pensarem que havia algo de mais íntimo!”.

Há mais de uma semana que a Polícia andava às aranhas. E com bons motivos para isso. Laura Barroca Reis, proprietária de uma casa de hóspedes na Rua das Olarias, fora despachada desta para melhor com um tiro na cabeça. Nada de muito vulgar na Lisboa desse tempo. Nos primeiros ofícios, logo depois de o crime ter sido reportado, a Polícia Judiciária recolheu uma série de rolos de algodão que, presumivelmente, terão servido para limpar a arma do crime. A arma de um agente da Polícia de Segurança Pública que também habitava o albergue e que devia tê-la consigo bem guardada.

Maria Cândida, a filha da vítima, emigrada em França, veio de supetão até Lisboa na tentativa de manter o negócio a funcionar. A maior parte da família dependia dele. E confessou, a certa altura: “Ela começou a ter muito medo de ficar sozinha durante a noite. Por esse motivo pediu a um dos hóspedes, o sr. Coelho, para a ajudar nas contabilidades e para passar a dormir no quarto dela. Contou-me que uma mulher alta, loira, de formas perfeitas, a visitou para tratar das dívidas que tinha”.

Ora, o sr. Coelho, funcionário de uma tesouraria pública, não ficou nada agradado com estas declarações de Maria Cândida. Não tardou a reclamar por sua vez: “Não pode calcular quanto me custa tudo isto. Ando numa aflição insuportável! Não é apenas o desgosto pela morte de alguém que estimava e respeitava há muitos anos, mas também por correr o boato de que mantinha com ela algum tipo de relação condenável”. Bem podia pregar o sr. Coelho. Mas o facto de dormir no quarto da vítima atirava sobre os seus ombros o ónus da suspeição. “Estou profundamente arrependido por ter aceitado o pedido da D. Laura para dormir num divã junto à cama dela. Sei que tinha muito medo de alguma coisa, mas isso só serviu para levantar suspeitas absolutamente infundadas sobre uma relação imprópria que jamais existiu!”.

Mistério O Crime da Mouraria, como os jornais lhe chamaram, envolveu-se em denso mistério. A última vez que Laura foi vista com vida foi num almoço que compartilhou com seis dos seus doze hóspedes e com o filho Manuel Emílio Reis. Agatha Christie não teria feito melhor... Nessa tarde, pelas 19h00, foi encontrada morta no quarto que dividia com o sr. Coelho.

Laura Figueira Gonçalves Barrocas Reis, sepultada no cemitério do Alto de São João, contava 49 anos e dirigia a sua casa de hóspedes há 12, desde que se separara do marido. Ninguém conhecia uma embirração com a pessoa, quanto mais inimizade. Levara um tiro na cabeça a propósito de quê, se todos a estimavam? E, no entanto, ela não escondera o medo que sentia de ficar sozinha à noite.

Emílio, o filho, foi imediatamente interrogado como suspeito. Tinha um alibi: na hora presumível da morte de Laura (14h30) estava no cinema. Ora batatas! Às escuras qualquer faz o que quer. A polícia desconfiou. E muito. Nas suas declarações, Emílio não esteve pelos ajustes: “Em nossa casa vivem cerca de doze hóspedes. Uns são padeiros, outros pasteleiros, outros ainda serralheiros civis, montadores de estores, empregados de comércio, bancários e até um membro da PSP. Nesse dia de manhã, eu e o padeiro José estivemos a brincar com a arma do agente Manuel Fernandes. À hora do almoço, fomos todos para a cozinha e a pistola automática ficou pousada no quarto do polícia, junto de onde dormia a minha mãe. Depois do almoço fui ao Café Avis, beber a minha bica e o meu bagaço, joguei ao dominó e segui para a matiné do Cinema Royal. Portanto estava longe quando se deu o assassínio. E fico muito desconfiado ao saber que havia vários hóspedes lá em casa aquando da morte da minha mãe e não houve um sequer que tenha ouvido o tiro. Por isso escusam de andar a investigar-me porque não tive absolutamente nada que ver com o assunto. Era o que faltava”. Palavras? Leva-as o vento...

O que não faltava, pelos vistos, era gente indignada pelas acusações. Mas, de entre algum dos habitantes daquela espécie de albergue espanhol, alguém se dirigira para o lugar onde o agente da PSP costumava dormir, pegara na arma e aparecera frente a D. Laura para lhe desferir um tiro a sangue frio mesmo no meio da testa. Não estávamos a tratar com um pobre diabo sem eira nem beira mas sim com um homicida sem escrúpulos, capaz de um sangue frio quase gelado. Matar, para ele, não devia ter segredos. E isso atrapalhava a investigação de forma insuportável porque não conseguiam encontrar, entre os doze hóspedes de Laura, alguém com esse perfil. Por causa disso, a investigação concentrou-se cada vez mais no filho e os interrogatórios contínuos procuravam encontrar uma brecha nas suas declarações de forma a desfazer o seu álibi bastante frágil, por sinal.

O tempo foi passando sem grandes alternativas. A Polícia Judiciária manteve-se alerta por mais de um mês sobre a morte de Laura. Os hóspedes, todos eles, foram chamados, uma, duas, três vezes de forma a que as suas declarações pudessem ser confirmadas como exactas. Os parafusos do sr. Coelho foram apertados até que as suas respostas começaram a cheirar a rosca moída.

Cerca de dez dias após o crime que abalou o bairro da Mouraria, a polícia deteve Emílio Reis, filho de Laura. A acusação baseou-se no tal periclitante alibi que não houve quem confirmasse. Para as autoridades, Emílio dirigiu-se ao quarto do agente Manuel Fernandes, logo após o final do almoço colectivo, e depois foi procurar a mãe, abatendo-a com uma bala na testa. Em seguida, repôs a arma no lugar e foi à sua vida. Vida vidinha e miserável...

 

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