28/01/2022
 
 
Pedro Vaz 19/10/2021
Pedro Vaz

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Transição Ambiental

A última vez que estive no Douro Vinhateiro (junto ao Pinhão) foi no final do passado mês de agosto. Respirava-se, já, no ar o início da azáfama das vindimas. As vinhas eram monitorizadas ao dia e algumas já se encontravam a ser vindimadas, em jeito de “jogo de início de época”.

A arte vitivinícola do Douro resulta de gerações e séculos de aprendizagem e, com a evolução tecnológica, tem hoje novos mecanismos que permitem gerar mais eficiência e produtividade do trabalho desenvolvido, que têm sempre como resultado vinhos magníficos, consumidos em todo o mundo.

Não deverei andar muito longe da verdade afirmando que a economia de toda esta região do Douro continua a assentar, essencialmente, no setor primário, apesar do aumento da importância do turismo nos últimos anos.

Uma atenta observação do que nos rodeia auxilia-nos na identificação da realidade e isso importa quando se pretende implementar uma estratégia de transição ambiental do nosso país.

O que é que este espaço de tempo no Douro me permitiu observar? Desde logo permitiu-me verificar que a maioria das viaturas (camiões e carrinhas) usadas para o transporte das uvas entre as vinhas e os lagares, têm na sua grande maioria idade adulta, havendo mesmo algumas que não deverão ter uma idade muito longe da minha (nascido no final da década de 70 do século passado), e isto “transporta-nos” para um outro problema da maior relevância: a distância entre a discussão que se faz nos grandes centros urbanos, em especial nos centros do poder, em relação às medidas a implementar para combatermos os efeitos nefastos das alterações climáticas e a realidade de vida de muitos dos nossos concidadãos.

Tudo isto continua a ter uma dimensão de algum esoterismo, o que gera um desfasamento grande nos cidadãos entre si e entre governante e governado.

Existe hoje uma agenda ambientalista, “pseudo-hipster”, nascida em torno da “palhinha de plástico” e do uso da “bicicleta elétrica” que, apesar de importante, esbarra de frente com a realidade da maioria da população.

Como falar em incentivo ao uso dos transportes públicos, para quem não tem, nem nunca teve um só autocarro, quanto mais um comboio, a passar na sua aldeia ou vila para se deslocar? Como dizer a estas pessoas, que têm de se deslocar dezenas de quilómetros para uma simples ida ao supermercado, ao multibanco ou ao médico, para usarem bicicleta (na zona da Ria de Aveiro, por exemplo, sempre houve muitos a usá-la, pois não tinham acesso a nenhum outro meio de locomoção) ou um carro elétrico, quando mal conseguem ter um utilitário a combustível fóssil com menos de 10 anos? Como explicar a estes agricultores que têm de transportar as uvas colhidas para os lagares numa nova frota movida a eletricidade? Onde existe? Quem a compra? Com que dinheiro? Onde existe a infraestrutura para os carregar? Quais os custos de eficiência?

Obviamente que as mudanças em matéria de ambiente fazem-se de tensões e disrupções aqui e ali e liderança política, mas a realidade torna ridículas muitas medidas apresentadas como soluções de última geração e só gera frustração numa larga maioria que sente que se fala de um mundo que não é o deles. Isso não podemos deixar acontecer.

O Estado tem utilizado milhões de euros para financiar aquisições de bicicletas elétricas a uma minoria da população enquanto outros, como os vitivinicultores do Douro têm de desenvolver a sua atividade económica com carrinhas com 20 ou 30 anos de idade. Isto faz sentido? Dizer que o preço dos combustíveis fósseis continuará a aumentar e não termos soluções de mobilidade que permitam a todos os portugueses que não vivam nas Áreas Metropolitanas não precisar de viatura própria a combustível fóssil (pois quem vive no Pinhão, para se deslocar de urgência ao hospital, em Vila Real, que fica a 40 Km, não tem no carro elétrico ou na bicicleta a solução).

Por estes, e muitos outros, motivos é que a política de transição ambiental tem de ser construída com a assertividade de introduzir as mudanças necessárias, mas, simultaneamente, não agravar um fosso social entre os que têm acesso a tudo e os que têm acesso a muito pouco ou quase nada. Entre os que vivem na e para a sociedade de consumo e os que vivem num outro país, também ele, de carne e osso?

Não sinto que haja muito essa perceção em Lisboa. Talvez seja a minha que esteja errada. Contudo, sei que o Estado e quem nos governa têm de ter em conta estas e outras questões no desenvolvimento das políticas relacionadas com o ambiente.

Perdida que foi, com a liberalização dos mercados de energia e combustíveis, a discussão sobre o papel do Estado no controlo efetivo sobre eles, não só em Portugal, mas também na Europa, é normal assistirmos à preocupação da maioria da população com a escalada de preços, quer nos combustíveis, quer na energia elétrica, pois eles são determinantes para o seu dia-a-dia. Nessa medida, ter-se-á de encontrar todas as formas de minimizar esses efeitos, nem que para isso se alterem tratados europeus. Nem tudo pode ser deixado nas mãos do “mercado”.   

Pedro Vaz

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