6/12/21
 
 
José Cabrita Saraiva 19/10/2021
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@ionline.pt

Moedas: uns não pagam transportes, outros pagam a dobrar

Carlos Moedas apresentou, em certo sentido, mais do mesmo, quando se esperava – e exigia, até – que se demarcasse pela diferença. Afinal, não foi para isso que os lisboetas elegeram um presidente da Câmara diferente?

O discurso de Carlos Moedas ontem, na tomada de posse como presidente da Câmara de Lisboa, poderia resumir-se em algumas frases bonitas – “A comunidade tem de estar no centro de tudo” – e propostas bem intencionadas – “Gostava que Lisboa fosse conhecida como a cidade que cuida, que cuida de quem precisa”. Esperemos que o seu mandato, no qual se depositam tantas expectativas, seja muito mais do que isso.

Talvez por achar esse tipo de retórica demasiado vago e pouco substancial, uma das poucas promessas que retive foi a de transportes gratuitos para jovens e idosos. Sem dúvida que se trata de uma medida simpática. Mas trata-se também de uma medida que poderia ter sido avançada por um executivo socialista – ou até um bocadinho mais à esquerda... Não admira que o Partido Comunista esteja disposto a caucioná-la.

De resto, todos sabemos como os passes sociais embarateceram significativamente nos últimos anos sob o consulado socialista. Ou seja, Moedas apresentou, em certo sentido, mais do mesmo, quando se esperava – e exigia, até – que se demarcasse pela diferença. Afinal, não foi para isso que os lisboetas elegeram um presidente da Câmara diferente?

Julgo que não será por causa dos 20 euros que custa o passe mensal (e penso que ainda haverá descontos e isenções) que alguém deixará de andar de transportes. Por que não apostar, por exemplo na sua melhoria, limpeza, rapidez, segurança, eficiência? E há mais: como os jovens e os idosos são quem paga menos impostos, a fatura da medida recai precisamente sobre quem não beneficia dessa benesse. Esses, se precisarem de usar os transportes, pagam a dobrar.

Bem sei que as pessoas adoram coisas gratuitas. Os supermercados estão cheios disso, de ofertas e promoções. Quem nunca viu formarem-se filas intermináveis para receber uma qualquer insignificância? Mas julgo que na política não devia ser esse o caminho. Muito menos para um social-democrata. Desculpem-me se estou a ser injusto, mas cheira demasiado a populismo. 


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