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'Ateo'. O vídeo sensual que não casa com catedral

'Ateo'. O vídeo sensual que não casa com catedral

Reprodução YouTube Sara Porto 18/10/2021 10:25

O retrato de uma conversão através do amor humano ou uma ofensa aos fiéis? O rapper espanhol C.Tangana escolheu a Catedral Primada de Toledo para a gravação do seu último videoclip. Contudo, não estava à espera do que viria a seguir: uma guerra entre clérigos e a demissão do próprio deão que lhe cedeu o espaço.

Provavelmente há uns anos seria difícil imaginar que um videoclip nos pudesse fazer imergir na santidade e, ao mesmo tempo, na sensualidade que envolve uma dança entre um homem e uma mulher. Talvez se possa dizer que seria mesmo impensável a um cantor ocupar um lugar de culto como cenário que ilustra as palavras que canta neste contexto. Como é que essas duas realidades se fundem? Essa fusão é sequer possível aos olhos da Igreja Católica?

A mais recente polémica suscitada pela gravação do videoclip que acompanha a música ‘Ateo’ do rapper espanhol C. Tangana e da compositora e intérprete argentina Nathy Peluso, na Catedral Primada de Toledo considerada uma joia do património de Espanha, mostra que não. E além de ter sido um motivo de discórdia entre clérigos, acabou por levar ao despedimento do deão da catedral de Toledo, Juan Miguel Ferrer, o principal responsável pela catedral que autorizou a gravação do clip.

O CONTÉUDO DO VIDEOCLIP No “templo cristão”, com uma pequena luz que transforma a atmosfera e que nos vai dando a conhecer esculturas e pinturas murais religiosos, C. Tangana e Nathy Peluso dançam de forma sensual e intima, enquanto vários religiosos os espiam entre as colunas da igreja. No vídeo dirigido por Antón Álvarez, nome verdadeiro do rapper, os dois artistas movem-se ao ritmo da música enquanto o coro diz: “Yo era ateo/ pero ahora creo,/ porque un milagro como tú/ ha tenido que bajar del cielo”, em português, “Eu era ateu/ mas agora creio,/ porque um milagre como tu/ só pode ter descido do céu”. Contudo, a letra da música não se fica por aí e também chamou a atenção pelo erotismo que a caracteriza: “Quiero hacerle religión a tu melena/ a tu boca y a tu cara,/Y que me perdone la Virgen de la Almudena Las cosa’ que hago en tu cama”, em português, “Quero fazer religião aos teus cabelos/ à tua boca e ao teu rosto,/ e que a Nossa Senhora de Almudena me perdoe, pelas coisas que faço na tua cama”. Numa das cenas C. Tangana puxa os cabelos de Pesudo, (eco de uma das pinturas dentro da catedral, que mostra um demónio a puxar o cabelo de uma mulher para impedi-la de alcançar a salvação); numa outra, a argentina, nua, mostra a cabeça decapitada do cantor.

‘Ateo’, que possui ainda referências bíblicas e mitológicas, conta com a participação de várias personalidades, como o ator Brays Efe, a estilista de C. Tangana, Carla Paucar, a influencer espanhola María Pombo, o apresentador Josep Pedrerol, a atriz Cayetana Guillén Cuervo, a autora Elizabeth Duval e a estilista Miranda Makaroff.

Divulgado no dia 8 de outubro, depressa desencadeou uma guerra que, além de ter incendiado as redes sociais, de acordo com a imprensa espanhola, fez com que muitos clérigos desta cidade, capital da comunidade autonómica de Castela-Mancha, ficassem de “costas voltadas”, cenário que resultou na rejeição do filme por parte da Igreja Católica.

AS CONTESTAÇÕES DA IGREJA Para o deão da catedral de Toledo, o videoclipe “apresenta a história de uma conversão através do amor humano”. Contudo, para o arcebispado, encabeçado por Francisco Cerro, este ofende os fiéis, “que se sentiram magoados, justamente, pelo uso indevido daquele lugar sagrado”, cita o diário El Mundo.

Cerro começou por lamentar “profundamente” a gravação, pedindo desculpas a todos aqueles que se possam ter sentido “justamente feridos por este mau uso de um lugar sagrado”: “Pedimos com humildade e sinceridade o perdão de todos os fiéis, leigos ou sacerdotes, que, com razão, se sentiram feridos por este uso impróprio de um lugar sagrado”, escreveu. O arcebispado rejeitou as imagens e afirmou ainda que “desconhecia totalmente a existência deste projeto, o seu conteúdo e o resultado final”.

Nos primeiros momentos após o começo da “tensão”, Juan Miguel Ferrer Grensche, veio “apenas” pedir desculpa pelo facto de as imagens poderem ter “ferido a sensibilidade de alguns crentes”, reconhecendo ainda o “vídeo usa uma linguagem visual provocadora”.

Apesar disso, o deão manteve a sua posição, insistindo que nada do que é apresentado afeta a fé: “É uma linguagem própria da cultura do nosso tempo e [na decisão de autorizar a rodagem] pesou o efeito que pode vir a ter nos que andam longe da Igreja”, explicou no seu comunicado, acrescentando que o objetivo “foi apenas apoiar um diálogo com a cultura contemporânea, sempre respeitando a fé da Igreja” e fazendo ainda referência ao refrão da música “ que “deixa bem clara a conversão do ‘personagem’ que C. Tangana interpreta”. O reitor disse ainda que as cenas finais do vídeo, em que os cantores pousam para fotografias com um coroinha (distintivo de soberania ou de nobreza destinado a ornar a cabeça), evidenciam a atitude “acolhedora e compreensiva” da igreja.

Mas os seus argumentos não foram suficientes para convencer as mais altas instâncias eclesiásticas da região e a arquidiocese prometeu rever o procedimento para “evitar que algo semelhante volte a acontecer” e desenvolver “imediatamente” um protocolo para a gravação de imagens para transmissão pública nos templos da arquidiocese.

Na sua conta no Twitter, Félix G-M Bartolomé, sacerdote da própria catedral de Toledo, mostrou “grande indignação perante o videoclipe gravado no interior da catedral, que ofende gravemente a Deus e a dignidade do Templo Primaz, coração da Igreja de Toledo e de Espanha”: “O propósito de dialogar com a linguagem contemporânea não pode, em caso algum, justificar atos que atentem contra a santidade de Deus”, defendeu.

A TOMADA DE ATITUDE Reprovado pelo arcebispo e depois de todas as reações negativas que, segundo o El País, levaram a que na noite de domingo, “uma trintena de pessoas chegassem a concentrar-se diante da catedral com velas para rezar o rosário como ‘ato de reparação’”, apesar das declarações e comunicados feitos não terem mostrado arrependimento pela decisão tomada, mas sim por aquilo que esta possa ter feito sentir, na passada terça-feira, 12 de outubro, o deão da Catedral de Toledo pediu a demissão. E o arcebispo Francisco Cerro, aceitou o pedido, que produzirá efeitos já a partir do próximo sábado.

No mesmo dia, no final de um serviço religioso na Guardia Civil de Toledo, Ferrer lamentou novamente em seu nome e no das diversas instâncias do Cabido “por todos os erros e faltas que tenham podido cometer-se por palavras, atos e omissões nos acontecimentos dos últimos dias”. Mas, de acordo com o jornal espanhol, este não se retratou do comunicado difundido na passada sexta-feira.

O agora ex-deão, sublinhou que o “doloroso incidente”​ está ultrapassado e que o importante é que “toda a gente esteja serena e viva em paz, sem rancores ou tensões entre uns e outros”. No entanto, admitiu aos jornalistas ter sido “um erro” permitir que as filmagens se tivessem desenrolado sem a presença de um representante da catedral para “fazer advertências” sobre opções que “escandalizaram algumas pessoas” e reconheceu também ter havido falhas de comunicação com o arcebispado.

AS REAÇÕES DOS ARTISTAS Por sua vez, os artistas C. Tangana e Nathy Peluso revelaram-se tristes tanto pela polémica como pela decisão. O rapper aproveitou uma entrevista à Billboard Latin realizada na rede social Instagram para dar sua opinião sobre o alvoroço em torno do videoclip: “Apanhou-me de surpresa e deixou-me triste. Acho que era uma boa oportunidade de dizer algo positivo, moderno e algo tolerante por parte da igreja, mas não tem sido assim! A minha ideia para o vídeo era comparar a censura que fazemos nas redes sociais e a que todos estamos sujeitos, com as censuras clássicas. No fundo acreditava que éramos mais modernos do que aquilo que realmente somos”, lamentou Tangana. Na mesma linha, Peluso também já se defendeu, assegurando, nas suas redes sociais, que o vídeo é “algo feito com amor e respeito” reconhecendo, contudo, que “as perspetivas podem ser muito subjetivas” e que “o enfoque nunca foi o desrespeito que desencadeou a renúncia desta pessoa”.

A gravação do vídeo rendeu à catedral um total de 15 mil euros, que como habitualmente, esclareceu o deão, serão investidos em obras sociais ou num fim cultural específico.

Antón Álvarez Alfaro, que é o mesmo que dizer C. Tangana, mistura trap, reggaetón e outras sonoridades latinas na sua discografia. Formado em Filosofia, leitor voraz que tem na sua lista de autores de juventude Nietzsche, Tolstói e Kerouac, já actuou em Portugal, onde aliás chegou a gravar um videoclipe.

Em agosto, foi acusado de sexismo após postar uma foto sua rodeado por mulheres de biquíni para promover a sua música “Yate”, “hipersexualizado” segundo muitos comentários. Poucas horas depois do início do escárnio público, o madrileno reagiu à polémica nas suas redes sociais. O artista publicou novamente a fotografia, embora desta vez tenha feito algumas alterações: colocou o seu rosto nos corpos das nove mulheres que o acompanham no iate e no que corresponderia ao seu corpo sobrepôs o da cantora Zahara, que recentemente foi criticada pelo partido de extrema direita Vox por se vestir como a Virgem Maria em pósteres de um show em Toledo.

 

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